quinta-feira, 14 de junho de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS ! - 3ª Parte*


No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
 - Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
 - Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de St. Agustin onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
Instalados no n.º 37 da Rua de St. Agustin a azáfama do trabalho não parava pois, pouco antes, ainda na anterior loja, Constantino havia decidido concorrer à Exposição de Paris que nesse ano se realizou nos Campos Elíseos.
Constantino, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos, o seu stand foi dos mais visitados e as suas obras foram enaltecidas, com primeiras páginas de jornais, tal era a beleza, encanto e perfume que transmitiu aos seus arranjos florais.
A excepcional qualidade do seu trabalho foi reconhecida por todos e foi assim que, no último dia do certame, viu o seu nome ser pronunciado pelo Rei que o declarou vencedor do certame em arte floral.
Com este prémio os aplausos foram mais que muitos e até o Sr. Flamet, esquecendo a azedume da saída, veio cumprimentar Constantino prestando-lhe sentido elogio.
Com este prémio o reconhecimento de Constantino foi geral, ultrapassou fronteiras, fez crescer o seu negócio cujas encomendas eram agora satisfeitas por 40 empregados.
Constantino, porém, não se deslumbrou e, acicatado pelo desejo de inovar e conhecer novos perfumes, decide uma viagem a Inglaterra e aos Pirinéus para estudar a flora e botânica destas regiões, que era rica. Confiada a loja aos seus empregados, sempre dirigidos pelo seu amigo Lequerel, Constantino embarcou para Inglaterra e regressou pelos Pirinéus na descida dos quais, em Tercis-les-Bains, sofreu uma queda quando, sentindo-se ainda rapaz e a lembrar-se da sua terra, subiu a um penhasco para apanhar uma flor que tinha um azul que nunca antes vira.
Nesta vila, reteve-o a doença uns tempos, e, a conselho dos naturais, descobre as águas termais que o ajudaram a recuperar das mazelas nas pernas e costelas e que mais tarde tanto o haviam de ajudar no alívio do seu reumatismo.

Regressado a Paris, carregado de novos perfumes e flores que descobrira nos Pirinéus, Constantino lança-se de novo na profissão pois as encomendas das casas reais, nobres, e burgueses ricos e poderosos não paravam, todos disputavam as flores de Mestre Constantin.
Como o negócio não parasse sentiu necessidade de arranjar outras instalações pois as da Rua de St. Agustin já se mostravam reduzidas para albergar os 40 trabalhadores.
E é assim que por volta de 1846 se instala no 1º e 2º andares do n.º 7 da Rua D'Antin, nas proximidades da Ópera de Paris, por onde passava a melhor clientela da cidade.
Pela primeira vez sentiu Constantino o que era ter uma casa/habitação próprias pois, vivendo no amplo 2º andar, sentia o prazer de descer ao primeiro, de receber os prestigiados clientes no salão que a oficina dispunha e de ver todos os seus empregados a cumprir as ordens que lhes dava e sobretudo de ver o seu projecto empresarial e artístico realizado.
Este gozo, porém, havia de durar pouco pois, com a revolução de 1848, Paris tornou-se uma cidade de grandes dificuldades e miséria e durante dois anos foi esperar melhores dias sem que, contudo, tivesse de despedir os seus empregados que, por causa das barricadas e fome, na sua própria Casa e loja os alojou.
E só a abnegação de Constantino salvaram a sua empresa pois, não obstante Paris não lhe proporcionar negócios, a sua fama pelas casas reais da Bélgica, Alemanha e outras era grande e com elas conseguiu muitos negócios e recuperar o movimento comercial antigo.
Em 1850, serenada a Revolução e implantada a República, já o rei dos Floristas gozava de novo as delícias do negócio e é, então que, para calar a mágoa da saudade e aquela velha angustia que lhe rasgava o peito decide vir a Portugal.
Anunciadas e distribuídas as ordens sobre o giro da casa, Constantino dá ordens ao Sr. Lequerel para anunciar a viagem aos clientes e divulgar o facto nos jornais de Paris e Lisboa.
E é assim que Lisboa recebe o Rei dos Floristas.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

NORDESTE


Discurso proferido em 12 de Maio 2006 no Forum Lisboa
Em primeiro lugar devo agradecer, muito reconhecido, o facto de a Casa de Trás-os-Montes ter organizado esta sessão, também o de tantas pessoas terem decidido estar presentes, e finalmente que o Doutor Fernando do Amaral, pela sua excessiva bondade que o caracteriza, e trazendo consigo o prestígio de uma tão longa e fecunda carreira, ao serviço do País e da justiça, se tenha disposto a discursar numa reunião de trasmontanos em que sobretudo me sinto na função de pretexto, sem outro mérito justificativo. De mim posso também dizer que "menino e moço" me trouxeram, a minha mãe Leopoldina e o meu pai António, ambos solidamente trasmontanos, para a cidade grande, que era um dos destinos da nossa constante corrente migratória de gente pobre, sempre cristãmente modesta mas nunca humilde, praticando que a igualdade vem da maneira de viver e não da maneira como se ganha honestamente a vida, porque todos esses trabalhos são igualmente dignos.

Que o meu pai, que se reformou subchefe ajudante da Polícia de Segurança Pública do Porto de Lisboa, e a minha mãe que trabalhava arduamente na máquina de costura que está em casa do meu filho mais velho, tenham decidido e conseguido, a duros mas alegres sacrifícios, que a minha irmã Olívia fosse médica, e eu me formasse em direito, ambos na Universidade de Lisboa, torna fácil entender que sinta, no meu íntimo, que esta homenagem trasmontana lhes pertença, também porque nos educaram no amor à terra de origem, às suas tradições, às suas virtudes e costumes.

Na minha vida sempre me encontrei ligado a trasmontanos e, para falar apenas dos que já morreram, não posso deixar de recordar o Almirante Sarmento Rodrigues, tão decisivo que foi nas minhas escolhas de serviço à comunidade, do seu e meu amigo Dr. Joaquim Trigo de Negreiros, do Dr. Águedo de Oliveira, todos da geração da qual foi celebrado o centenário do nascimento, em que tive a honra de ser orador, e membros de um grupo mais alargado de trasmontanos que estavam juntos no governo no meu tempo de jovem licenciado, e que por isso conhecíamos como A sereníssima Casa de Bragança.

Mas hoje, quando, no entardecer da vida, recordo as gentes e as terras por onde passei, o que mais seguramente me vem à lembrança é o avô Valentim sentado na pedra que na aldeia de Grijó de Val-Bem-Feito lhe servia de banco para ler o jornal, a Maria Boleira que me tinha sempre reservada uma bôla de azeite, o Manuel Fiscal que se despedia desejando "a saúde ou dinheiro, que Deus não pode dar tudo", a minha tia Maria que me ensinou a ler pela Cartilha de João de Deus, o moínho onde trabalhou o meu avô paterno que não conheci, o arroz doce e as alheiras da minha avó Olívia, o direito abusivo que eu tinha de emparceirar com o meu primo Alexandre para carregar o andor do Menino Jesus na festa do Senhor do Calvário, no primeiro domingo de cada Setembro.

Nos longos caminhos do mundo por onde andei, na África do nosso findo Império, no Brasil, nas duas costas dos EUA, no Oriente, sempre encontrei o mesmo fenómeno da solidariedade dos trasmontanos emigrados, entre si e logo de braços abertos para os que chegam. Na década de sessenta do século passado, sendo então Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, pareceu-me necessário organizar a solidariedade das comunidades de portugueses residentes no estrangeiro, com as comunidades de descendentes de portugueses, e ainda com as comunidades filiadas na cultura portuguesa porque por ali tinham passado ou a soberania ou a pregação portuguesas.

Fiz uma longa viagem ao redor da terra para organizar o I Congresso dessas Comunidades em Lisboa-Guimarães-Coimbra (1964), e o II Congresso a bordo do Príncipe Perfeito (1966), navegando no Índico na rota de Vasco da Gama ao longo da costa de Moçambique, e sempre, espontaneamente, os trasmontanos que existissem se mobilizaram para que o projecto se efectivasse.

Foi então que pude viver a força de um portuguesismo que se mantinha, variado na forma mas com igual substância, na diversidade de meios e de circunstâncias em que se encontravam: percebi que existia uma realidade a que chamei A Nação Peregrina em terra alheia, e que os trasmontanos formaram sempre um elo dessa rede que se estendeu a partir da interioridade nordestina por todos os caminhos que abrimos pelo mundo. O conceito de Reino Maravilhoso, que devemos a Torga, tem certamente origem na beleza da paisagem que muda harmonicamente com as estações, e depois com a amorosidade que para sempre envolve a relação da terra com os seus filhos, mas os custos da interioridade foram enormes ao longo dos séculos, nesta região que foi sempre do Reino político português, sem guerras de conquista. Os progressos evidentes das últimas décadas europeias não eliminaram todos os custos, mas serão melhor avaliados em face da memória de carências passadas, e da submissão à natureza das coisas. Lembrarei a Colheita do Senhor, palavras com que se aliviava a dor das mães que em cada ano sofriam a perda dos meninos de anjos sem pecado. Ou as razias causadas pela tuberculose, que por quatro vezes, só na nossa família, levou o avô Valentim a percorrer o caminho do cemitério para enterrar os filhos.

A geração que assumiu a gestão local, neste período europeu em que nos encontramos, deu passos largos na melhoria da qualidade de vida, a governar a parcela nacional mais próxima dos centros da União, mas ainda a mais distante em termos de acessibilidade. Geração muito apoiada pela rede do ensino, em que destacaria o Politécnico de Bragança e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas a sofrer agora, como toda a interioridade, o despovoamento, a quebra da natalidade, a debilidade do crescimento económico que não oferece condição suficiente de fixação dos diplomados, com o agravamento que deriva da crise financeira do Estado que obriga  a meditar, cada vez que a invocada racionalidade gestora o leva a retirar presença e serviços, se não é a batalha da interioridade que perde forças e espaço de intervenção.

O Reino Maravilhoso vai exigir a mobilização geral para que estes efeitos colaterais de uma mudança global das circunstâncias em que o país se insere sem escolha não atinja as raízes, não afecte o alicerce que é a pátria pequena dos que são obrigados a partir, dos que ficam, e dos que serão os herdeiros dos novos erros e acertos.

Ao longo dos tempos os portugueses foram emigrantes para todas as lonjuras da sua terra natal, por vezes, como nós, apenas dentro do próprio país, outras porque a pobreza da vida incita a procurar diferentes promessas de abundância, também porque o Estado, deitado a longe, para a gesta das descobertas e segurança e povoamento das conquistas, organizava a transferência nem sempre consentida. O fim do império, em 1974, fez convergir toda a diáspora, sem diferença das causas e razões da partida, para a condição hoje de Nação peregrina em terra alheia.

O regresso foi de regra um projecto guardado na memória dos afectos, mas, com frequência, os filhos nascidos nas terras de acolhimento foram a âncora que fixou para sempre os pais, e assim foram crescendo, nas cinco partes do mundo, as comunidades de descendentes de portugueses, que em geral não ignoram as origens, embora alterando a imagem que passa de geração em geração. É assim nas duas costas dos EUA, é sobretudo assim no Brasil, também assim em vários lugares do Oriente.

O que tudo faz nascer duas distâncias do emigrante em relação à origem. Primeiro a dolorosa distância física que não deixa esquecer os amigos de infância, o arvoredo e o cheiro dos campos, nem permite voltar a puxar a corda do sino, andar na procissão, comer o caldo de couves temperado com unto, mais as amoras que tingem as mãos, e o pão de centeio ou de trigo.

Mas depois cresce para muitos a distância da memória, isto é, a memória que se distancia no tempo e vai apenas guardando registos selectivos, piedosa no embelezar das lembranças que não conservam nem as dores da infância, nem o envelhecer penoso dos pais e avós, sacrificados ou à decisão de ficar ou à impossibilidade de partir.

Dos vários longes, ou físicos ou das memórias, à medida que os horizontes se alargam, e que as novas dependências e exigências se tornam mais densas, o sentimento das raízes parece vir socorrer a defesa da identidade originária, e lembrar a pátria pequena que é a terra de origem, o município que parecia tão vasto, as artes populares que primeiro educaram os gostos, os saberes ancestrais para lidar com a saúde e a comida, para animar os festejos, para fiar e tecer, para dar formas à madeira e à pedra, para colher o mel ou fabricar os enchidos, e afinar os cuidados com manter os velhos muros, as antigas casas, as acolhedoras esquinas, para preservar ou recriar o ambiente que acolha a mudança sem perder as origens, que reinvente um futuro com história, e abra os braços a todas as memórias, as memórias dos que partiram e voltam, dos que não voltam mas não esquecem, dos que ficaram e garantiram a identidade, e com ela a esperança, a ternura, e o consolo dos reencontros. A Nação peregrina em terra alheia deve a estas devoções dos que ficaram, governando, defendendo e revigorando as comunidades locais, e afeiçoando a sua circunstância, que a identidade de todos e de cada um não se dilua no turbilhão do globalismo que nos visita para ficar.

E nós já estamos no fim da nossa responsabilidade. Aquilo  em que nos resta meditar é, se pela nossa intervenção, algum sal salgou a terra e se alguma terra ficou salgada.

sábado, 5 de maio de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS - 2ª Parte*

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, sentiu que podia dar novo salto na profissão e, sem dar a conhecer os seus desejos, começou a fazer planos à vida, sem esquecer que ali o Sr. Flamet seria sempre o mestre e ele nuca passaria do garçon-aprendiz, um empregado, confinado ao salário da semana, que mal daria para viver.

Certo dia, pela manhã, verificou que Mestre Flamet, a um cliente mais habitual, alto, magro, sempre vestido a preceito, sapatos envernizados, gravatas a condizer com a camisa e o facto, tratava amavelmente por Sr. Isidore Culot e, com cerimoniosa atenção, oferecia o Sr. Constantin para lhe fazer, na hora, mais uma perfumada camélia branca.

Constantino, feliz por servir tão ilustre cliente e antevendo um potencial homem de negócios capaz de o ajudar, de imediato deitou mãos à obra e, num ápice, apresentou-lhe a mais perfumada e fresca camélia que siderou o Sr. Isidore.
Espantado com a elegância das pétalas, o perfume, a arte, a rapidez, com que viu aparecer a camélia, exclamou incontidos elogios que o Sr. Flamet nunca ouvira.
Cenas destas se repetiram até que um dia, já em conversa a sós com o nosso Constantino, o Sr. Isidore, entre dentes, lá lhe disse:
- Sr. Constantin está na hora de ser alguém, de se estabelecer por sua conta.
Constantino, sem pestanejar, de pronto lhe respondeu:
- Sr. Isidore, isso é bom de dizer, mas, e o dinheiro para montar uma oficina?
Homem, não hesite, faça-se à vida, descubra uma loja central que o resto fica comigo.
O nosso Constantino, oito dias depois, anunciava ao Sr. Flamet o seu propósito de se despedir ao mesmo tempo que lhe agradecia as oportunidades que lhe dera.
O Sr. Flamet, chocado com a notícia, balbuciou-lhe o aumento de ordenado, melhores instalações e condições de trabalho, casa por conta do patrão, enfim uma assinalável melhoria.
Constantino, decidido, repetiu os agradecimentos e anunciou-lhe que se ia estabelecer, por conta própria, pois ali não passaria de um eterno aprendiz.
Lamentando o sucedido mas compreendendo a ambição de Constantino acabou o Sr. Flamet por agradecer a atenção e o carinho que recebera e desejou-lhe a melhor sorte.
E é assim que, em 1837, o nosso Constantino aparece estabelecido em Paris, no n.º 59 da Bourbon-Villeneuve, onde permaneceu até 1844.

Paris rendeu-se à arte de Constantino, a sua fama ultrapassou fronteiras, as casa reais encomendavam-lhe as flores e, pelas ruas, frequente era verem-se passar os ramos de flores de Constantino ou as camélias nas lapelas dos casacos que passara a ser grande moda.
A oficina tornava-se pequena para tanta encomenda e os empregados já não eram capazes de satisfazer as encomendas.

Em 1844, após o desgraçado tufão que arrasou a ilha de Guadalupe, nas Antilhas, sob administração francesa, A rainha Maria Amélia, perante tal desgraça, resolveu lançar uma quermesse com cujas ofertas seriam organizados leilões para angariar fundos para os sobreviventes.
Entre as muitas ofertas destacavam-se as grinaldas e os ramos de Flores feitos por Constantino para além de outras obras de arte com que fidalgos e burgueses ajudaram a por em pé tal iniciativa.

As rosas, os amores-perfeitos, as camélias, entrelaçadas em ramos, ganhavam, com as respectivas decorações, uma beleza e brilho tão impressionantes que as senhoras, sem olhar a preços, as disputavam no animado leilão.
 Todas queriam as flores e os perfumes de Constantino e uma delas, sem querer, retirou uma pétala duma flor e, levando-a ao nariz e parecendo-lhe natural, extasiada, gritou:
Maravilha, maravilha! Viva Constantino, Viva o Rei dos Floristas ao que todos os presentes em uníssono repetidamente aplaudiram.
Correu célere a notícia e, no dia seguinte, pela manhã, os jornais do dia anunciavam em grandes parangonas o acontecimento.
A rainha Maria Amélia, ante tão grande ovação, encantada pelos ramos de flores que antes vira e tocara, acabou, nesse mesmo ano de 1864, por enviar à loja do nosso Constantino o mensageiro habitual para encomendar a coroa de flores de laranjeira que a princesa Dona Clementina haveria de levar no dia do casamento.
Constantino, emocionado pela opção da Rainha e antevendo o que isso representava, de imediato respondeu ao mensageiro que no dia seguinte seria ele próprio que levaria duas coroas para sua alteza escolher a que mais gostasse.
Os empregados, em uníssono, grande ovação prestaram a Constantino e mais uma vez exclamaram: Mestre, mestre, grande mestre, o Rei dos Floristas
Lequerel, também sócio e contabilista da sociedade, depressa se abeirou de Constantino e, sem mais, ripostou-lhe:
- Mestre, uma rainha só pode encomendar flores a um rei, ao nosso Rei dos Floristas!
Bom, bom, meninos, vamos ao trabalho, amanhã começa um novo dia, assim o creio.

No dia seguinte, como prometera, apresentou-se Constantino no palácio e, conhecedora da sua presença, decidiu a rainha receber ela própria o grande Constantino.
Ante tão prestigiante atenção, Constantino, mal viu a rainha entrar no salão, depressa se abeirou e, de joelho em terra, como era hábito nesses tempos, entregou à rainha Maria Amélia duas delicadas grinaldas de flores e botões de laranjeira, uma, artificial, feita pelas suas mãos, a outra de flores naturais igualmente feita por si.
Mas, Mestre Constantin, só se encomendou um ramo de flores!
- Majestade, decidi fazer duas coroas para que possa escolher e, se me for permitido, deixarei as duas e amanhã virei buscar a que for rejeitada.
No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
 - Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
 - Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de Santo Agostinho onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
 
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terça-feira, 3 de abril de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS! - 1ª Parte*

A Torre de Moncorvo de propósito fui para assistir a uma conferencia sobre o passado e a modernidade do burgo e, pelo amor que tenho aos livros, lá peguei num daqueles que as câmaras municipais fazem o favor de dispensar e cujo titulo dá por " Constantino Rei dos Floristas" da autoria da Ex.ma Dr.ª Júlia de Barros Biló, uma letrada e mui douta Moncorvense que, em Leiria, se a informação está actualizada, espalha didacticamente as pérolas do seu saber como, aliás, as obras de que é autora o demonstram.

E, graças ao estilo coloquial e alegremente comunicativo da autora, de um só fôlego li a história que desconhecia e, correspondendo aos seus anseios e porque na história há antepassados de pessoas da minha aldeia – Cardanha e de Adeganha, ambas do concelho de Moncorvo - aqui estou a tentar multiplicar a semente para que os associados da CTMAD e seus amigos, nomeadamente os que lerem esta pequena síntese, ficarem a saber quem foi Constantino, que dos floristas foi rei por essa Europa do século XIX.

Nasceu o nosso ilustre conterrâneo, em Alfandega da Fé, antes do dia 28 de Agosto de 1802 e, nesta data, baptizado foi com o nome de Constantino José Marques e, já adulto, viu reconhecida a sua paternidade cujos pais, segundo o assento de óbito de Percis – Pirinéus franceses – foram José Joaquim Marques Moutinho Lopes e Vicencia Luísa Victorina Banha de Melo.
Para infortúnio seu e não só foi depositado num cesto/açafate branco, como se da "roda" se tratasse, em casa do pároco da terra que aceitou, em pedido de confissão da avó materna, receber e guardar segredo sobre o nascituro que os caprichos da mãe natureza mais a vontade de dois temerários amantes conceberam. Sua mãe, uma mulher casada da nobreza da terra, com marido ausente e ele um jovem de 40 anos. E, para salvaguarda do bom casamento da adúltera mãe e evitar a sua desonroso falatório da terra, seu avô materno impôs, com mão de ferro, a predita solução, tão usual naqueles tempos.

Confrontado o padre com o recém-nascido, depressa descobriu a forma de se libertar do encargo e, para evitar devassas pessoais e outras, assim como o inevitável falatório, tão afim dos ainda medievos meios rurais, despachou o petiz para o Larinho, concelho de Torre de Moncorvo, onde contratou uma ama que amamentou o nosso herói em troca de uma retribuição paga por familiares que só o dito padre conhecia.

Aos três anos arrancado foi da mãe de função e, carregada de lágrimas por lhe tirarem o menino que tratado era como se filho fosse, foi o futuro rei Constantino atirado para casa de um comerciante de Alfandega da Fé onde aprendeu as primeiras letras e as lições do giro comercial que as feiras, de terra em terra, lhe davam e seu amo impunha.

Por indicação de suas não assumidas tias paternas, que nele viam retratado o mano progenitor, foi o jovem Constantino, com 16 anos, atirado como criadfo-grave para uma casa nobre e rica de Moncorvo onde depressa aprendeu os segredos da profissão e onde, pelo menos, hábil e graciosamente uma vez serviu sua mãe e seus avós sem que alguma vez o chegasse a saber e onde sentiu uma vibração telúrica que o arrebatou para uma insondável nostalgia ao ver sua desconhecida mãe desmaiar quando tão fixamente o observava.
Serviu noutras casas sem o empenho e o brilho que demonstrara na primeira e, ante a estampada e regular tristeza que chegou aos ouvidos das não assumidas tias, resolveram as suas protectoras encaminhá-lo para o Convento dos Franciscanos, ali junto a Moncorvo, no sopé da férrea serra do Reboredo, onde, com 17 anos, acabou por entrar.

O jovem, sem vocação para frade, depressa congeminou libertar-se do presídio e, com dezoito anos, decidiu uma noite, na companhia de seu amigo Diogo, abandonar o Convento para, em fuga até Viseu, se alistar como mancebo no Batalhão de Caçadores n.º 5 que havia aderido à revolução liberal.
Sem instrução militar e feito cabo de um dia para o outro, andou, durante dois anos em observações pela Beira, sempre à espera que chegassem os ordeiros e autoritários miguelistas nos quais Constantino via o exemplo a seguir.

Como o seu regimento não era miguelista e porque se dera a vila-francada que reconheceu D. Miguel como rei de Portugal embarcou para os Açores e ilha Terceira onde passou cinco anos.
Ali começou a fazer as primeiras flores que, para os altares das igrejas e capelas daquela e outras ilhas, vendidas eram por uma senhora de 57 anos, Brízida Maria Silveira Brasil, com quem, aos 22 anos, depois de tanto e interessado afecto e carinho, havia de vir a casar no dia 4 de Dezembro de 1824, na sé de Angra do Heroísmo e que depois vira partir quando ela completou 60 anos.

Com a chagada das tropas liberais à ilha e ordenada a substituição do seu regimento, regressou o leal Constantino a Lisboa e, ante a simpatia pelo suposto pulso firme de D. Miguel, alistou-se no seu movimento e foi promovido a sargento.
Com as sucessivas derrotas de D. Miguel, a mais estrondosa das quais foi a do Porto, no dia 29 de Setembro de 1832, e tomada de Lisboa pelos liberais, regressaram as tropas miguelistas a Lisboa com mais derrotas em Coimbra, Leiria e Asseiceira.
Perante tanto insucesso, sem ter eira nem beira nem família que o recebesse em Moncorvo, decidiu acompanhar a D. Miguel até Évora, onde, em 26 de Maio de 1826, assistiu à sua rendição pela Convenção de Évora-Monte e tomou conhecimento do seu imposto exílio para Génova, para onde embarcou no navio Stag na tarde de 1 de Junho seguinte.
D. Miguel, sem preocupações com os leais servidores que o haviam acompanhado até Génova, decidiu abandonar aquela cidade para, com o apoio papal, passar a viver em Roma.
Constantino, sem trabalho e recursos para sobreviver, passou um dia, esfomeado, por uma rua de Génova onde viria a descobrir a florista M.me Vieillard e, com gestos e algumas palavras, lá conseguiu transmitir que sabia fazer flores e precisava de trabalhar com o que arranjou o seu primeiro emprego civil remunerado.
A florista, estupefacta com a habilidade e requintado gosto com que Constantino demonstrou a sua primeira obra e embasbacada com a facilidade com que trabalhava as penas, depressa viu o artista a quem, augurando-lhe um futuro radioso, pouco depois, ensinou a preparação e mistura das tintas.
E, assim, o nosso Constantino começou a demonstrar a sua arte e tal era a beleza, graça, finura, fantasia e harmonia que transmitia ás suas flores que os seus clientes, só algum tempo depois da primeira observação, conseguiam distinguir as flores artificiais das naturais.

O prazer de fazer flores e a vontade de se tornar um artista consagrado levaram-no a pernoitar pacientemente na oficina descobrindo, em cada dia, novos motivos de combinadas flores e odores que causavam a admiração da sua patroa e clientes.
Depressa contagiou sua patroa e, volvidos seis meses, pediu-lhe para sair e ir para Paris à procura de novos motivos para sentir-se realizado como artista.
A patroa, não sem mágoa em ver partir o artista, recomenda-lhe, em Paris, Mestre Flamet e aconselhou-o a visitar as fábricas de tintas em Turim e Lyon o que de imediato fez.
Em Paris, em 13 de Dezembro 1834, apresentou-se ao dito Mestre que, apercebendo-se de onde vinha, de quem o recomendara – florista de conhecidas e requintadas exigências - depressa concluiu que se trataria de um bom artesão com o que de imediato o admitiu ao seu serviço.
E, assim, no dia seguinte, de malas e mais haveres se transferiu para casa de Mestre Flamet, onde, como aprendiz, passou a trabalhar e viver dormindo no quarto das traseiras da loja.
O patrão, de imediato, distribuiu-lhe o trabalho e indicou ao Sr. Constantin, nome pelo qual passou a ser designado e divulgado, uma mesa para o efeito ao que o nosso herói, com respeitosa licença, pediu dispensa e, em alternativa, do mesmo modo pediu para se sentar no chão, ao meio da oficina, o que constituiu admiração geral.
Mas, sentado no meio da oficina, de pernas cruzadas como se sentia bem, fazia rodopiar os seus poucos instrumentos e, às penas, ora as alisando ora as acariciando, como se amores-perfeitos parecessem, transmitia-lhes aquela inimitável beleza que confundia artistas e clientes.
E tanta foi a beleza, admiração e satisfação de mestre Flamet que, para gáudio de todos, expôs na montra da oficina o primeiro bouquet para que fosse admirado por todos.

Um tenente da Guarda Nacional que por ali passou, impressionado com a beleza e finura do bouquet, mandou reservar o ramo, não obstante o elevado preço pedido, a fim de a Guarda Nacional o oferecer à Rainha Dona Maria Amélia.
Mestre Flamet, impressionado com o destino do bouquet, exclamou para o nosso Constantino: - Se a rainha gostar você tem o futuro assegurado!
Dias depois, nova visita do sargento que levantara o bouquet a fazer nova encomenda de flores e a comunicar ao mestre Flamet que a Rainha mandava felicitações ao mestre Constantin.

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, começou a fazer planos à vida e, sem esquecer que ali seria sempre.
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