domingo, 21 de setembro de 2008

Conselho Regional (CR)

Comunicado da Direcção

A Direcção tem desenvolvido um esforço continuado para conseguir promover a primeira reunião do Conselho Regional neste mandato. Está fortemente empenhada em que este órgão consultivo funcione com a mesma dignidade de anteriores Conselhos.

Para este fim a Direcção fixou o número de 18 concelhos representados, como limite mínimo de funcionamento do CR. Assim:

  • No exercício do disposto nos Estatutos, oficiou as Casas Concelhias que funcionam com independência, para que indicassem os respectivos conselheiros e não recebeu qualquer resposta;

  • Procedeu, no respeito pelos Estatutos ao contacto com as Câmaras Municipais dos 35 concelhos constantes nos Estatutos, e recebeu 9 respostas indicando um total de 13 elementos para conselheiros dos quais só 12 eram sócios e destes só 6 aceitaram o mandato;

  • A partir de variados contactos a Direcção conseguiu o concurso de mais 11 associados, incluindo os conselheiros reconduzidos do anterior CR.

Num apuramento final a Direcção só conseguiu a representação de 12 concelhos (Bragança, Chaves, Lamego, Macedo de Cavaleiros, Miranda do Douro, Mogadouro, Montalegre, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Torre de Moncorvo, Valpaços, Vila Nova de Foz Côa) com um total de 22 conselheiros já aceites. Este número é demasiado pequeno para a vontade de ter um Conselho Regional forte, e capaz de ajudar a Direcção a dialogar com as autarquias. O apelo da Direcção aos associados para se disponibilizarem a ser conselheiros não foi suficientemente respondido e sem essa resposta não é possível cumprir as disposições estatutárias com dignidade.

A Direcção ao prosseguir o esforço no sentido de reunir o CR no mais breve espaço, agradece a disponibilidade dos que já aceitaram esta responsabilidade e lamenta que não possam exercer as suas competências por falta de quórum mínimo de conselheiros indicados. Ao mesmo tempo manifesta a esperança de que mais associados se disponibilizem para serem Conselheiros, o mais rapidamente possível, nomeadamente dos 23 concelhos ainda não representados (Alfândega da Fé, Alijó, Armamar, Boticas, Carrazeda de Ansiães, Figueira de Castelo Rodrigo, Freixo de Espada à Cinta, Meda, Mesão Frio, Mirandela, Mondim de Basto, Murça, Resende, Ribeira de Pena, Sabrosa, São João da Pesqueira, Tabuaço, Tarouca, Vila Flor, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real, Vimioso e Vinhais) pois sem tal disponibilidade o Conselho Regional corre o risco de eternizar a realização da sua primeira reunião.


Lisboa, 1 de Setembro de 2008.


A Direcção

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

ACONTECIMENTO CULTURAL EM BRAGANÇA

INAUGURAÇÃO DO CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA GRAÇA MORAIS
E DO NÚCLEO DE EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS


por Arminda Cepêda

Naquele fim de tarde de 30 de Junho de 2008, uma pequena multidão acorria aos pátios e corredores de acesso ao restaurado e remodelado Solar dos Vargas (que funcionou como delegação do Banco de Portugal na 2ª metade do século XX), fervilhando os novos visitantes na ânsia de verem um novo espaço artístico, de inovadoras linhas arquitectónicas, que acolherá no futuro as mais avançadas expressões da arte moderna, incentivando as novas gerações para o entusiasmo e divulgação das correntes estéticas mais ousadas.

O acontecimento foi divulgado na cidade com brilho e euforia, aguardando-se a presença do Primeiro Ministro José Sócrates e seu séquito ministerial, após um dia de resoluções estratégicas nas barragens de Picote e do Baixo Sabor, em que novas perspectivas se focalizaram para o desenvolvimento energético de toda uma vasta Região que apela a novos investimentos e aberturas turísticas.

Mas o centro da cerimónia seriam os largos relvados e brancos espaços do novo módulo pavilhonar da autoria do Arq. Souto Moura, com ligação suave e aérea do Edifício Vargas - onde permanecerá o manancial mais íntimo da obra da Pintora Graça Morais (acervo seleccionado de 1982 a 2005) - ao minimalista, mas luminoso, casario das "Exposições Temporárias".

A entrada do público fez-se em caminhada vibrante, após a chegada do Primeiro Ministro, sendo percorridas com emoção as grandes telas e as telas miniaturais da carismática pintora, onde humanos e animais se mostram numa disruptiva visão de "descida aos infernos". Sangue - Fogo - Loucura - Entranhas de Alma - que nos entontecem.

Vão ver. Venham ver. Se querem saborear a louca viagem, dos loucos instintos, o desespero da sobrevivência e da morte - têm ali o pasto fundo da tragédia humana.

Seguiram-se as horas de deleite, na tarde calma, os suaves discursos, à sombra de pequenas árvores, ainda a nascerem. Aquelas personalidades que mais lutaram - o Presidente da C. M. Bragança, Eng.º Jorge Nunes - a Pintora Graça Morais - o Ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro - o Arq. Souto Moura.

E a fechar, as palavras emocionadas do Primeiro-Ministro, aquele que sente aquela pintura "debaixo da pele". Seu Pai desde pequeno lhe mostrava a beleza das fragas, mas foi preciso crescer para se extasiar com a aspereza avassaladora das margens petrificadas.

Ali, no espaço verde, tudo era convidativo. As palavras fluidas, os pequenos sabores apetitosos.

Agora estão ali, á espera, Salas de emoções, Salas de descoberta. Até 31 de Outubro podem ver a enigmática paixão de Gerardo Burmester (Fundação Serralves) "As cores não dizem nada". No tal "Núcleo de Exposições Temporárias", branco, sóbrio, silencioso.


(N.B: Entradas gratuitas até ao final do ano).


PROGRAMA DO 103º ANIVERSÁRIO

27 DE SETEMBRO - SÁBADO


OFICINAS DE S. JOSÉ - SALESIANOS


(aos Prazeres) LISBOA



18.00h .............. Missa Vespertina em sufrágio dos associados da Casa já falecidos


18.30h ............. Concentração com recepção aos associados e amigos, regularização de quotas, pagamento da inscrição para o jantar, aquisição de livros e lembranças, etc.


19.00h ............. Saudação de Boas Vindas


19.10h ............."Trindade Coelho e a CTMAD", palestra a proferir pelo Dr. Armando Jorge Silva)


19.25h ............. Momento musical pelo Grupo Coral da CTMAD " Os Sustenidos"


19.45h ............. Agraciamento aos associados mais antigos


20.00h ............. Encerramento da sessão


20.30h ............. Jantar de confraternização servido à mesa *


21.30h ............. Leilão de obras artísticas


22.00h ............. Corte de Bolo de aniversário e brinde com champanhe


22.30h ............. Concertinas


23.00h ............. música para dançar


23.30h ............. Encerramento da Festa

* Sujeito a prévia inscrição na Sede da Casa até ao dia 25 de Setembro. Aqui serão prestados esclarecimentos sobre ementa e valor a pagar.

domingo, 14 de setembro de 2008

Protesto pelas pinturas rupestres

Do "JN online" transcrevemos:


por Francisco Pinto

A coordenadora dos Afectados pelas Grandes Barragens e Transvases, secção em Portugal, denunciou a existência de gravuras rupestres na margem do rio Sabor, local para onde está prevista uma barragem.

A Coordenadora dos Afectados pelas Grandes Barragens e Transvases (Coagret), secção em Portugal, aproveitou a festividades que decorrem no Santo Antão da Barca, concelho de Alfândega da Fé, para denunciar as gravuras de arte rupestres que não estão inventariadas. A iniciativa foi considerada como uma acção de protesto contra actos de alegado "vandalismo" e atentados ao património arqueológico existente nas margens do rio Sabor.

De recordar que aquela área ficará submersa aquando do enchimento da futura barragem do Baixo Sabor, que deverá estar concluída em 2012.

No local foi descoberta, há cerca de meia dúzia de anos, uma gravura rupestre picotada na rocha que segundo os especialistas representa um veado. A gravura apresar de não estar ainda enquadrada em termos cronológicos poderá ser " do Paleolítico ou Neolítico."

Há cerca de ano e meio foi observado que a gravura tinha sido alterada: foi picotada uma figura de uma vaca por cima do original que representa um veado.

Segundo Pedro Couteiro, membro da COAGRT, "quem fez o novo picotado sabia o que estava a fazer, já que tinha de ser cientificamente orientado. O desenho feito a posterior não é uma coisa simples", destacou.

"A denúncia pretendeu chamar a atenção não só de uma gravura vandalizada, mas sobre tudo o desrespeito da EDP face ao Estado português, já que dá-se ao luxo de desrespeitar directivas respeitantes ao Estudo de Impacte Ambiental (EIA) da barragem do Baixo Sabor," alega aquela responsável.

De acordo com Couteiro, "o levantamento da arte rupestre daquela área não é feito de forma rigorosa, nem o levantamento antropológico da ermida do Santo Antão da Barca, local de culto muito respeitado pelas populações da área circundante".

Por isso, entendem os estudiosos que "não é aceitável o facto de terem sido elaborados três Estudos de Impacte Ambiental e que, das três vezes que alguém se debruçou sobre aquela zona e o seu património natural e arqueológico, nunca encontrou figuras de arte rupestre de relevo, a não ser alguns exemplares dispersos", afirma Couteiro.

A COAGRET diz querer evitar mais "um escândalo" como os que aconteceram no Vale do Côa e no Alqueva no que diz respeito a construção de barragens face a preservação do meio ambiente o espólio arquitectónico e arqueológico.

domingo, 31 de agosto de 2008

LINHA DO TUA: "Não foi um acidente normal"

Sobre o recente acidente na Linha do Tua transcrevemos de Fernando Pires do JN online a entrevista ao maquinista da composição sinistrada.

Maquinista que tripulava composição acidentada estranha a ocorrência de tantos acidentes nos últimos tempos. Mas afasta a tese de explosão.

por FERNANDO PIRES

Pela segunda vez, em dois meses e meio, Fernando José Ferreira Pires viveu momentos dramáticos com o descarrilamento das composições do Metro de Mirandela que dirigia. O maquinista, de 47 anos, já não fala em explosão, como causa do acidente de sexta-feira, na linha do Tua, mas não acredita ter sido um acidente" normal". Apesar destes acidentes, o maquinista, funcionário do Metro de Mirandela há 13 anos, continua convicto que a linha do Tua é segura.


Como aconteceu o acidente?

Tínhamos acabado de passar por Brunheda e vinha a explicar a algumas pessoas, que estavam a tirar fotos e a filmar, que a partir daquele local até à estação de Santa Luzia estava a paisagem mais bonita desta viagem. Apesar de estar a conversar, não estava distraído e até seguia numa velocidade inferior a 35 quilómetros, o máximo permitido no local. Algumas centenas de metros depois de ter passado por baixo da ponte de Brunheda, numa ligeira curva à esquerda, a máquina pura e simplesmente saltou e caiu. Não tive hipótese de fazer mais nada. Já no primeiro acidente foi a mesma coisa, estava a cumprir as normas de limite de velocidade e ainda não sei o que terá acontecido.


Chegou a explicar ao presidente da administração do Metro de Mirandela que tinha havido uma explosão anterior ao descarrilamento. É verdade?

Na altura estava muito confuso e falei na possibilidade de ter havido uma explosão, mas poderá ter sido o barulho da máquina a descarrilar, a pisar a brita e as travessas. Mas continuo a dizer que estes acidentes não são normais. Tem de haver alguma coisa, porque a linha está constantemente em manutenção, a composição do Metro foi inspeccionada no dia anterior ao acidente. Alguma coisa de anormal se passou. É mesmo muito estranho. Tenho a plena convicção que se não houvesse contestação à construção da barragem do Tua, estes acidentes não teriam acontecido.


Mas isso quer dizer que coloca a possibilidade de ter havido sabotagem?

Não posso afirmar uma coisa dessas, mas que é tudo muito confuso, lá isso é. Já andamos a fazer este percurso, para a CP, desde 2001 e nunca houve qualquer acidente até 2007, com condições climatéricas bem mais adversas. Como é possível acontecerem quatro acidentes no último ano e meio, com tanto investimento feito na linha na sua manutenção e segurança?


Houve dificuldade em pedir socorro?

Não foi possível pedir socorro de imediato, porque, ao contrário do que aconteceu no acidente anterior, o nosso sistema de GSM não funcionou porque fiquei sem bateria. Um facto que também é muito estranho. Alguns minutos depois, o meu colega (revisor) e outras pessoas caminharam cerca de 500 metros até à ponte de Brunheda, onde havia rede de telemóvel, para avisarem as autoridades. Também tenho de elogiar o trabalho de socorro das autoridades envolvidas, que não demoraram muito tempo a chegar desde que foi comunicado o descarrilamento. Infelizmente, não foi possível salvar a senhora que ficou debaixo da composição.


Tem medo de voltar a operar na linha?

Não. Estou algo abatido emocionalmente, mas estou pronto para voltar ao serviço quando a administração assim o entender.


Com mais este acidente, não receia que a linha venha a encerrar definitivamente?

Algum. Andamos com o coração nas mãos, porque se a linha fechar, a sociedade do Metro vai ter de dispensar alguns operadores, dado que não é rentável fazer apenas a ligação entre Mirandela e Carvalhais.

sábado, 9 de agosto de 2008

MEMÓRIAS DE UM (POBRE) PARAÍSO PERDIDO

por António Augusto Fernandes


Aí por meados do século XX, no rescaldo das misérias do pós-guerra, a efervescência do renascer de um mundo novo que vinha fermentando por esse Portugal fora passava ainda ao lado de Rebordainhos. Resquícios esporádicos de civilização avistavam-se lá em baixo, em Rossas: automóveis raros passavam ronceiros pela estrada nacional nº 4 e o comboio da linha do Tua passeava-se, muito de seu vagar, entre o Douro e Bragança.


Ora foi por essa altura que o Estado Novo se lembrou de que, lá em cima, nos picotos da Serra de Nogueira, uns trezentos serranos bravos lutavam pela vida, rodeados de soutos e touças onde, no Inverno, uivavam os lobos mais bastos que pardais nas eiras depois das malhadas e no o Verão o sol causticava. E então mandou rasgar, a pá e picareta, aquela estrada madraça que, ainda hoje, os liga ao IP e à estação de caminho de ferro e ao vasto universo. Até essa altura, naquele fim do mundo a mil metros de altitude, a vida decorria sem sobressaltos de maior, atreita apenas às maleitas em que a vida era pródiga e a querelas, rixas e alegrias comunais que os serranos vinham vivendo desde sempre, em moldes idênticos aos dos tempos velhos em que D. Sancho II lhes concedera foral. Até à construção da estrada só dali se saía a pé, de burrico ou no pachorrento carro de bois alcandorados nas poderosas rodas de freixo maciço que alagavam os velhos caminhos com a melopeia cheia de trinados das treitouras bem cingidas aos eixos rijos como aço. Eram desses carros de bois, com a mesma configuração que apresentam nas iluminuras do Livro de Horas do senhor D. Manuel, o primeiro de seu nome, que dependia o ténue tráfego comercial: levar os sacos o centeio e a batata sobejos do sustento das suas gentes e trazer o parco arroz, o pozito açúcar, o cotim das andainas e o aço para apontar as guinchas de arrancar batatas e os enxadões de desfazer monte.


Os três quilómetros até Rossas, percorriam-se, pedibus calcantibus, pelo carreirão deArufe, tortuoso como sendas do Tibete: as mulheres em chinelos e com os sapatinhos depolimento guardados na saquita de chita para serem calçados ao chegar à estação. E do velho Jarrete contava-se que para poupar as botas novas de couro cru fazia o caminho descalço. Um dia que estourou a unha do dedão do pé com uma topada num calhau, largou aliviado: − Porra! Olha se eu trazia as botas calçadas! Mas os carros de bois, para evitarem o desnível da subida da Galiana, alongavam-se em grande volta pela Quinta do Sepúlveda, pelo Cano, pela Airoá, duplicando assim o percurso. Muitos dos velhos finavam-se sem que alguma vez houvessem pisado o macadame de Bragança ou visto as maravilhas dos lumes eléctricos, nem para consultar


um médico, por ali tratando as maleitas em que a vida era sobeja com tisanas de ervas milagreiras e fumigações. O comboio, sim, viam-no lá em baixo, minúsculo como lagarta torcendo-se sobre as duas fitas de ferro e largando baforadas de fumaça pelas ventas. Quando o vento soprava de leste, ouviam-no assobiar como quem se despede − por aqui me vou − até se engolfar no ventre da terra pelo túnel de Arufe, deixando no ar nuvens de algodão sujo e o apelo nostálgico do vasto mundo que se estendia para lá do círculo do horizonte.


A linguagem em que exprimiam alegrias, dores e necessidades do quotidiano rescendia ainda ao galaico-português em que os trovadores do século XIV haviam chorado os seus males de amor. O pão de cada dia estava dependente do sol que fazia germinar as sementes, das chuvas que fecundavam a madre da terra, das trovoadas que em minutos arrasavam o labor de um ano e de Deus que pontificava na sua igrejinha de granito no centro da aldeia que uma pedra no ângulo do campanário data de 1745.


Os insecticidas eram ainda desconhecidos: os piolhos desbastavam-se muito ecologicamente a sabão macaco ou estourando-os entre os polegares e o escaravelho da batateira, recém-aparecido, ao que se dizia, por malandrice americana, afogava-se em latinhas com querosene.


Na roda do ano, a alimentação cingia-se ao pão negro de centeio, à batata e ao conduto fornecido pelo porquito de ceva que se imolava pelo Natal e guardava na salgadeira ou dependurado no fumeiro sob a forma de alheiras e salpicões, porque à escassez dos meios naturais acrescia a penúria herdada da guerra há pouco finda. − Haja saúde e coza o pote − como diz o outro. Mas o negro pote de três pernas pouco mais cozia que batatas com couves e, quando bem calhava, a talhada de toucinho com que se adubava o caldo e, mais raramente, a magra postita de bacalhau, caro como o lume! Ceava-se caldo e batatas e almoçavam-se, de madrugada, as batatas e o caldo sobejos da ceia. Uma sardinha para cada um, quando o sardinheiro adregava de passar, e quanto a chicharros − dos três vinte a cinco tostões − um para cada dois. O pão moía-se no moinho comunal do Catrapeiro e, cada quinze dias, com grandes gabelas de urzes e giestas em que o monte era pródigo, esquentavam-se os fornos que, embora individuais, tinham utilização comunitária, e ali se coziam aqueles pães centeeiros grandes como rodas. Outros mimos como o pão de trigo, o chibinho medrado entre urzes e tojo pelos montes ou o naco de vitela só nas festas assinaladas no calendário. E ninguém tinha o desplante de celebrar aniversários: era lá coisa que se festejasse a data da entrada neste vale de lágrimas! E tirava-se também a barriga de misérias nas celebrações rituais da fartura − as malhas e a matança, com sua licença, do porco. Era este, o cevado, para o qual se inventara o familiar chamadoiro de larego − o amigo do lar − que regalava os palatos serranos com os petiscos mais mimosos: aqueles salpicões muito engelhados e de estética atroz que sazonavam no fumeiro e se saboreavam em rodelas finas cor de vinho velho sobre o carolo de pão de centeio, aquele presunto róseo marmoreado, inventado por algum deus desconhecido para deleite dos seus comparsas no Olimpo e concedido como consolo aos mais afortunados dos mortais. E as alheiras? Pelas manhãs cintilantes de geada, evolava-se pela telha vã das cozinhas e pairava sobre a aldeia uma névoa ténue amarrada pelo frio em que se enlaçavam o cheiro acre da dos cavacos de carvalho ardendo sobre a laje sagrada do lar e o aroma dessas alheiras alourando sobre as brasas e depois acompanhadas pelas vastas malgas de café de cevada. É a excelcitude destes prazeres concedidos também aos pobres que nos faz compreender o culto antiquíssimo ao porco traduzido em dezenas de megálitos com o nome e a forma aproximativa de porcas ou berrões, espalhados por todo o Nordeste. O cochino, durante a ceva era tratado com cuidados de mulher parida, com todos os mimos: farelo, grão, nabos, castanhas, as perfumadas castanhas mamotas que os ganapos pilhavam do caldeirão onde se lhe cozia a vianda, dependurados sobre as grandes fogueiras do Inverno incipiente; e ainda aquele luxo das folhas de negrilho que a juventude mais lépida ia ripar nos ramos cimeiros dos olmos que se erguiam como espeques nas estremas dos lameiros; essas folhas, ásperas como lixa, raspavam os intestinos do bicho e, diziam os antigos, davam aos presuntos curados na aldeia um não-sei-quê que os distinguia de todos os outros.


Mas isso era papa fina afugentada do cotio e reservada para os dias assinalados na folhinha ou dos trabalhos maiores ritualizados na roda do ano, como matanças ou malhas. De resto, o passadio do dia-a-dia, de uma austeridade cenobítica, esbeltava os corpos, enrijava as almas e deixava-lhes o céu garantido.


O termo da freguesia abrange os seus doze quilómetros quadrados, mas quase tudo cerros escalvados de terras delgadas que nunca tentaram frades de ordem rica nem senhores de pendão e caldeira. E porque os ricos e poderosos nunca cobiçaram tais terras, todos eram donos e senhores de leira onde colher as suas cinquenta ou cem pousadas e de belga onde plantar a cesta de batatas e o talo de couve galega para o caldo, o que lhes dava direito a sentirem-se donos e senhores da sua vida e alijar qualquer tipo de canga. Dignos de serem agricultados à maneira do sul só alguns vales, engordados pelo húmus que, ao longo de séculos as enxurradas iam arrastando dos altos e que tivessem água de nascente, para lameiro ou batatal. Mas, como abundava a mão-de-obra, todos os cerros andavam a cultivo. Esgaravatavam-se montes e pedregais onde só o centeio, amigo do serrano, resistente a secas e geadas, vingava para que, havendo pobreza, não houvesse miséria nem se morresse à míngua.


Nos princípios do Outono, os plangentes carros de bois chiavam pelos caminhos de touças e soutos atestados de toros de carvalho e ramos sobejos da poda dos castanheiros, deixando os sequeiros à porta de casa abastecidos para enfrentar a longa e ríspida invernia que se fazia anunciar pelas primeiras chuvadas e pelas névoas que toucavam a Serra dos Pereiros.


Pelos Santos, era já com os dedos engaranhados pelo frio dos nevoeiros outonais e pelos primeiros sincelos que os castanheiros pingavam as castanhas mais temporãs. Em dia de Todos-os-Santos, os garotos acudiam aos soutos acendendo grandes montes de fetos e giestas secas onde tostavam as primeiras castanha da temporada. Com a sua malguita de marmelada e meia dúzia de malápios trazidos nas sacolas de remendos festejavam o primeiro feriado do ano com mais orgulho e sarambeques que sibaritas orientais.


Na poveca serrana não se podia dizer que houvesse pobres e ricos, mas apenas uma pequena diferença entre pobres e menos pobres, cifrada em uns alqueires de centeio e umas sacas de batatas a mais de um lado ou de outro. De resto, todos ganhavam honradamente o pão de cada dia com o suor do próprio rosto e a ajuda do vizinho, não se registando desequilíbrios sociais suficientes a engendrar qualquer hipótese de revolução ou conflito social. Uma que outra casa lá tinha o seu moço de lavoura, quase sempre de fora, que tinha alojamento no palheiro, com duas mantas encafuadas no feno bem cheiroso, aquecido pelo bafo das vacas, dentro de todos os requisitos da ecologia.


O Largo do Prado era o centro social onde se enfrentavam as duas tabernas concorrentes mas amigas. Aos domingos de tarde, ouvida a missa do P. Amílcar, para aí vinham os homens espairecer sob a bênção patriarcal de um freixo e um negrilho monumentais, enquanto as mulheres abancavam à soleira da porta de casa para desenferrujar a língua e pôr em dia os faitsdivers comunais. Aliás o freixo do Prado tinha a sua crónica: uns anos por outros, aparecia um figuro da cidade que pagava um cântaro de vinho ao pessoal e, numa solenidade de rito, ia lançar ao tronco da árvore o copo que lhe era devido, em memória do avô que o tinha plantado há que vidas. A rapaziada mais espigadota, ainda com ânimo para tais folestrias depois de uma semana agarrados ao cabo do enxadão ou à rabiça do arado, jogavam ao fito, à relha ou ao calhau, muito esfuziantes e provocadores na meça de forças, sobretudo quando passavam as moçoilas, muito louçãs nas suas chitas domingueiras, fingindo-se ariscas no faz-de-conta de algum recado urgente e lançando o rabicho do olho para os conversados. Os mais entradotes a quem os anos já tornavam mais pesada a rabadilha e amainavam as quenturas do sangue, abancavam para uma partida muito vozeada de sueca ou o chincalhão a quartilho fraternalmente partilhado por todo o adjunto. E, por altura das ave-marias, quando as mulheres embiocadas corriam pressurosas para o Terço, uma animação muito pingueira estrondeava já por todo o Prado.


Ao centro do largo gorgolejava uma bica que trazia a água encanada lá de cima, do Lombode-à-Igreja, sítio do lugarejo primitivo, de reminiscências castrejas, um alto pedreguento batidode todos os ventos, donde se avistavam muitas léguas em redor, com as vantagens defensivas que a localização representava nos grossos tempos dos avoengos que de lá devem ter avistado as legiões de César calcorreando a via romana vinda de Salmantica em demanda de Aquis Flaviis, galgando a serra lá em cima, na garganta do Pórto. Lombo-de-à-Igreja lhe chama o povo, que os topógrafos, ou por uma ignorância a crassa ou por dureza de ouvido, cadastraram como Agreja.


Além dessa bica e de uma outra mais aristocrática, gizada pelo Sr. professor Francisco Ribom junto ao pelourinho, matava-se a sede, pela concha da mão ou pela aba do chapéu, daFonte Grande, da Fonte do Espinheiro e da Fonte da Vila, três fontes de chafurdo, de água granítica abençoada, com a naturalidade bíblica e a falta de higiene de quem desconhecia a existência de termos obnóxios como poluição, micróbio ou bactéria.


Nesses tempos, à aldeia assistia ainda o designativo de vila usado pelos dos Pereiros, com origem em velhos tempos, não menos pobres, mas de maior prestígio, conferido por foral de D.Sancho II e atestado pelo velho pelourinho que perdera já a cabeça e os anos corcovavam sobre a fraga esconsa que lhe servia de soco, à ilharga da Igreja e pela memória da Casa da Cadeia, então adscrita a habitação do professor. De resto, a aldeiazita de cem fogos, vista de longe, tinha um ar airoso: ruas assaz direitas e largas para o comum das aldeias nortenhas, espraiada pela encosta voltada a sul e de costas para Espanha. A poente alteava-se a cumeada da Fraga do Berrão, onde em tempos presidira a divindade tutelar de uma porca como a de Murça, furtada, diziam os antigos, pelos de Parada; em frente, barravam-lhe o horizonte os longes azulados da serra de Bornes, e a leste a linha esfumada do planalto que vai de Mogadouro a Miranda. Olhada do Alto da Cabeça que lhe ficava defronte, o povoado tinha o seu quê de prazenteiro, porquanto a tristura das paredes negras de granito e dos telhados pardos do musgo se esvaía, amaciada na grande profusão de verdes: negrilhos, calineiros, macieiras e nogueiras e os remendos mimosos dos hortejos entremeados com as casas. Aqui e além, a mancha de cal dos muros da Casa da Aula, da Igreja e do Cemitério e mais três ou quatro casas, desabrochava como flores de esteva sobre fundo de urzes e codeços.


Caldeados pela aspereza do clima e rijeza do solo, os serranos não eram particularmente expansivos, mas também não eram, de seu natural, azedos. Parcos de palavras, até na brevidade com que narravam os casos da vida ao serão ou suciando pelas tabernas, lá se tornavam mais palavrosos com o copito bebido à sobreposse. Então diziam o que deviam e o que não deviam e rebentavam altercações breves como tempestades de Agosto que os mais cordatos e menos bebidos amainavam sem sobressalto de maior. Calçavam-se tamancos talhados em amieiro pelo tio Grilo soqueiro e vestia-se cotim chita; a roupa interior, quando calhava de se usar, era de tomentos que produziam sobre a pele o efeito penitencial da lixa sobre a madeira. Mas era gente de alma lavada como geralmente são os habitantes das serras, afeitos a ares limpos, horizontes largos e habituados a apenas terem Deus acima de si. E, como que demarcando essa única dependência, já os antigos tinham erigido cruzes de pau tosco sobre soco em cantaria bruta nas quatro entradas da povoação: a caminho da Tempa, pelo leste, na saída da Airoá, a sul, à Corredoura do lado poente, e a norte quando se vai para a Tergaça, porque, sem perderem muito tempo com beatérios, conservavam o sentido do Transcendente e aprestavam-se de boamente a desencardir a alma e receber Nosso Senhor pela Páscoa da Ressurreição. Nas tardes de trovoada brava, quando os alustros fuzilavam sem relego e terrincos medonhos pareciam querer afundir o mundo, quem mais por perto andasse da Igreja apressava-se a ir desinquietar do seu nicho de santo um S. Silvério, papa e mártir muito maneirinho, de dois palmos. Debaixo de um vasto sombreiro de doze varas, o santo lá se deixava transportar para o adro como infante ao colo de alguma comadre, muito compostinho com sua mitra e báculo. Voltado para a serra a poente, ficava-se em contemplação, futurando das misérias que a violência dos elementos poderia acarretar a agros e criação se não lhes acudisse. E o santo acudia-lhes sempre, porque aquela gente era boa quando podia e a vida a não aporrinhava em demasia. De tal protecção acrisolada tinham a certeza os serranos quando, no dia seguinte, pelos soalheiros se fazia relato muito bisbilhotado e condoído das desgraças sucedidas nos povos em volta: um castanheiro de séculos rachado de alto a baixo, trinta ovelhas fulminadas, um batatal arrastado pela enxurrada… E sabese lá mais o quê! Este São Silvério que pontificava à esquerda do aro do presbitério era um santo muito da devoção da pequenada, fosse pelo seu tamanhinho, fosse por fazer com muita virtude as vezes de Santa Bárbara nas trovoadas. Trocadamente pintado de roxo por algum pinta-monos menos familiarizado com a hagiografia, mais tarde foi reconduzido aos seus trajos brancos de papa e parece que ainda assim se mantém.


De resto cantavam loas ao Deus Menino e arrematavam as roscas do charolo pelo Natal, casavam-se as moças e serravam-se as velhas por um embude, de outeiro para outeiro, pelo Carnaval, celebrava-se a fartura efémera das colheitas no final do Verão e faziam-se filhos por toda a roda do ano, como mandava madre natura. E era assim que a Casa da Aula andava repleta de criancedo: umas vinte rapariguinhas muito conversadeiras para a D. Maria e outros tantos rapazotes brutos e vivaços para o mano, o Sr. Francisquinho Ribom, quando nos tempos sáfaros de hoje não chegam à meia dúzia por atacado e a escola já fechou por falta de quorum.


Os tempos não eram melhores que os de hoje, nem mesmo pintados no retábulo da saudade, bem pelo contrário. Eram outros e assim foram vividos. E, dentro de pouco, vê-losemos sumidos na voragem dos dias, não figurando sequer como ligeira nota de rodapé nosmanuais etnográficos.


Por isso, para que não caiam de todo no olvido, deles aqui se lavra nota, porque a grande história é a que nos moldou a infância a que pertencemos, mesmo quando há muito perdida, se dela nos sobram para sempre uns fiapos de nostalgia guardados nas arcas da memória.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Senhor dos Passos

Nesse Vosso olhar divino, profundo, e de Piedade,
Desse Vosso corpo sofrido, humilhado sob o madeiro...
Esse Vosso rosto, divinal pureza, reflecte a ansiedade,
De querer falar a quem Vos olha!... quase Cristo Verdadeiro!...

Olhos e sorriso de frescura magoada e cristalina,
Que infundem uma ternura, uma esperança,
A quem seguro pedindo está graça divina,
Ou está orando pela graça que já se alcança!...

Naquele rosto tão perfeito está estampado
Todo o Universo, em todo o seu esplendor
Como majestoso é aquele corpo caído sobre o Andor!...

Se Cristo Jesus não fora no Calvário crucificado,
Certo seria este Homem, que ali está há longos anos,
Ele Mesmo, que padeceu às mãos cruéis dos Romanos!....

À minha Mãe

José Agostinho Fins
Agrochão - Vinhais

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