segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Trindade Coelho

Uma Vida Exemplar, uma Obra Multifacetada

Nascido em Mogadouro em 18 de Junho de 1861, Trindade Coelho partiu cedo, por desejo próprio, a 9 de Junho de 1908.

Evoca-se, pois, este ano de 2008, o centenário da sua morte em que a convergência de várias Instituições será enriquecida para essa evocação.

Desde já várias autarquias: Mogadouro onde nasceu, a povoação de Travanca, então a 15 Km da sua terra natal, onde fez os estudos primários frequentando a escola régia dessa localidade com seu irmão, vivendo ambos em casa do professor, com fama de leccionar muito bem.

Por este facto foi afastado prematuramente da família, de que o seu temperamento sensível se ressentiu sempre, particularmente sentidas as saudades de sua mãe cuja morte decorreu durante essa estadia.

Porto e Coimbra foram cidades onde Trindade Coelho fez respectivamente os estudos secundários e o Curso de Direito. Como magistrado iniciou carreira no Sabugal. Em Portalegre exerceu a sua actividade durante quatro anos onde o jovem magistrado transmontano manteve a sua integridade, perante o caciquismo que tentava muitas vezes atar as mãos à justiça. Após transferência para Ovar, por período breve, foi finalmente colocado em Lisboa, último local da sua carreira numa fase política bastante acidentada em Portugal, na sequência do Ultimato Inglês. E ainda em Lisboa, viu-se temporariamente sem ocupação e numa situação angustiante, dado a extinção do tribunal onde realizava a ingrata tarefa de fiscalizar a imprensa de Lisboa. Foi posteriormente nomeado para Sintra, em 1895, num tribunal exclusivamente fiscal.

Em quatro campos distintos se situou a actividade de Trindade Coelho como escritor: o jornalismo, as obras de carácter jurídico, as de intervenção cívica e as de carácter propriamente literário.

Do seu livro "Os Meus Amores" (Contos e baladas) pareceu-nos interessante e oportuno, dado a abertura do ano escolar, transcrever o início do conto " Para a Escola", que certamente estará na lembrança de muitos leitores.

Este conto "Para a Escola" foi escrito por Trindade Coelho em Coimbra, no dia da sua formatura e termina esse conto evocando a sua dedicada ama Helena:

"...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei esse dia. Não volto mais à Escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo, dulcíssimo beijo aquele! - que tu então me deste."

Maria Virgínia Rodrigues


PARA A ESCOLA

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de pri­meiras letras. A porta lá estava, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam.,. Já tinha principia­do a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um si­lêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço verme­lho, atado em nó sobre a testa:

- Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.

Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à es­cola. Ali estava a encomendinha!

- Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

E, enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito com­prometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo e disse-me adeus.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

- Não, agora o menino fica - disse-me a Helena. - Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. - E agachando-se, diante de mim: - Olhe tanto menino, vê?

(Do livro os" Meus Amores" de Trindade Coelho).

domingo, 28 de setembro de 2008

Convívio transmontano no Cristo Rei

Os antigos alunos do Seminário de Vila Real residentes na área metropolitana de Lisboa, como vem sendo costume há vários anos, reuniram em convívio, no primeiro sábado de Julho, dia 5. Este ano foi no santuário do Cristo Rei, em Almada.

Dispersos por locais diversos da metrópole lisboeta no exercício de profissões consideradas superiores, estes transmontanos naturais dos vários concelhos do distrito vilarrealense sentem a necessidade e gozam a alegria de recordarem e reviverem os anos de familiar convivência que passaram estudando no Seminário. Muitos destes conterrâneos juntam à sua naturalidade transmontana o traço identitário da ligação à nossa CTMAD.

Após a concentração, houve a celebração da eucaristia presidida pelo Senhor Bispo de Setúbal, ele próprio um transmontano de Vila Pouca de Aguiar e almoço no refeitório do Santuário. O Dr. Altino Cardoso apresentou um historial multimédia do Seminário muito apreciado e intensamente convivido. Para fecho subiu-se ao alto do monumento e, sob a protecção redentora dos amplos braços do Cristo Rei, puderam contemplar a beleza comovente da cidade de Lisboa espraiada à luz brilhante do sol tardio. Um belo dia.

O próximo encontro é em 2009, no Seminário de Almada, no primeiro sábado de Julho.

sábado, 27 de setembro de 2008

Editorial - ANOSSA CASA ESTÁ VIVA E RECOMENDA-SE

Decorreram apenas 6 meses sobre a tomada de posse dos actuais órgãos dirigentes da CTMAD e muito já se fez para dinamizar a vida da nossa colectividade. No campo cultural, foi lançado um livro no Teatro Nacional Dª Maria II, um outro no Palácio Nacional da Ajuda e mais dois na nossa Sede. Foi realizada uma sessão sobre a cultura transmontana e alto-duriense na Feira do Livro e uma exposição de pintura sobre motivos da nossa região. O nosso Grupo de Teatro actuou com muito brilho no Auditório Carlos Paredes da Junta de Freguesia de Benfica e o nosso Grupo Coral não lhe ficou atrás ao presentear-nos com uma excelente actuação na sessão de lançamento do livro de Bento da Cruz no Teatro Nacional.

Organizámos e realizámos a maior viagem turístico-cultural para associados e seus familiares e amigos dos últimos anos: quatro dias de visita ao Norte de Portugal e Galiza.

Realizámos a Festa do Folar e do Azeite com grande participação de associados, amigos e expositores e muita animação além das jornadas gastronómicos comemorativas de efemérides importantes ou de simples convívio entre associados.

A Casa foi convidada e fez-se representar em acontecimentos tão díspares como sejam a inauguração de uma exposição do nosso associado Nadir Afonso e a Conferência sobre Geminação e Cooperação ambas levadas a cabo pelo município de Odivelas, o lançamento do livro do nosso associado general Loureiro dos Santos no Instituto de Altos Estudos Militares, o 85º aniversário da Casa do Alentejo, a reunião na Câmara de Mogadouro a propósito do centenário do falecimento de Trindade Coelho, a inauguração do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais em Bragança, o lançamento do livro Einstein/Nadir no Grémio Literário, o Encontro das Casas Regionais, o debate sobre a Linha do Tua na Casa dos Trasmontanos do Porto. Outros houve em que por manifesta falta de disponibilidade, os seus directores não puderam estar presentes. Também neste aspecto se fazem sentir os efeitos nefastos do não funcionamento do Conselho Regional, cujos elementos poderiam, legitimamente e com toda a dignidade, representar a nossa Casa.

Colaborámos na programação das actividades de evocação dos 100 anos da morte de Trindade Coelho, escritor nacional de primeira grandeza nascido em Mogadouro e fundador da nossa CASA. Para tal estabelecemos um protocolo com a autarquia de Mogadouro e contactos com a Hemeroteca Municipal de Lisboa. Prestámos o devido e activo apoio a 3 iniciativas a favor da preservação do ambiente e do património cultural, turístico e etnográfico da nossa região. Por fim, mas não por último, prosseguimos na luta pelo direito a ter uma nova Sede mais digna da nossa grandeza. Independentemente da consciência do dever cumprido, também estamos conscientes de que nem tudo decorreu como prevíamos. Acreditávamos ser mais fácil encontrar alguém disposto a explorar o espaço de convívio da Sede de uma forma consensualmente boa para os associados e pôr o Conselho Regional a funcionar e a cumprir o seu importante papel. Mas, infelizmente, tais desideratos não dependem apenas da nossa vontade...

Vamos no final deste mês comemorar mais um aniversário no Colégio dos Salesianos de Lisboa - Oficinas de São José, cujas instalações foram gentilmente colocadas à nossa disposição pela sua Direcção, gesto nobre que desde já agradeço aos responsáveis pelo Colégio em nome de todos os Colegas da direcção. Aqui deixo o apelo a uma ampla participação dos nossos associados para que a cerimónia tenha a grandeza que a nossa CASA e os que no seu devir mais colaboram bem merecem.

Termino aqui este editorial, pois quero libertar espaço para tantos e tão importantes textos a serem incorporados neste jornal que, como todos vêem, tem um novo design gráfico que espero seja do agrado da grande maioria dos nossos leitores. Estamos abertos a críticas e sugestões.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A CTMAD também é teatro

por Serafim Falcão

Vamos escrever à transmontana: como "filhos do granito, nosso pai e da terra nossa mãe", como " irmãos do sol e do vento". Com a robustez e frondosidade do castanheiro, a aspereza do seu ouriço fechado, mas também com a sua generosidade e abertura; com a rigidez granítica da cepa da urze e da torga que, outrora, na frágua, amaciava e temperava o ferro; com a frontalidade das altas montanhas, que nos tornam ágeis e enérgicos e cujas vertentes, aparentemente, desenhadas no rosto, desaparecem, ao primeiro impacto humano.

A CTMAD não é só sardinha assada, magusto e fumeiro, Douro, Porca de Murça e Valpaços, elementos que fazem parte dos nossos genes. É também, e felizmente com frequência, exaltação dos nossos valores, exaltação e elogio das nossas personalidades e gentes, o dar conhecimento dos nossos e não só nossos escritores, bem como a divulgação das suas obras, cuja casa se tem mostrado pequena para a assídua e viva assistência.

É também, ultimamente, esforço e objectivo da nova Direcção " reactivar o mais possível o Conselho Regional."

Todavia, ainda não é Teatro, embora exista o Grupo de Teatro, há três anos, ressuscitado, animado e levado a palco, pelo nosso sócio Fernando Marinho. Fez a sua apresentação e divulgação na Junta de Freguesia de S.João de Brito com poesia e leitura de extractos da peça, em três actos, "Casa de Pais"de Francisco Ventura que, depois, levou a Palco, durante três dias, no Auditório Carlos Paredes da Junta de Freguesia de Benfica e um dia, no Salão dos Bombeiros Voluntários de Queluz. Os Cenários foram pintados por um casal, actores, que nem transmontanos são, e transportados, montados e desmontados com a ajuda do próprio Grupo. Acontecendo o mesmo, na recente apresentação, durante dois dias, no mesmo Auditório, das Peças " O Doido e a Morte" de Raul Brandão e "Uma Anedota" de Marcelino Mesquita.

Se agradecemos a presença simpática e estimulante de alguns elementos da Direcção bem como de poucos sócios, lamentamos a ausência dos outros, apesar de, ao contrário das outras representações, haver abundante publicidade, inúmeros panfletos, no nosso Jornal, na Agenda Cultural da Cidade, na Internete. - As Festas da Cidade..... - E o que é nosso, não conta?

Alguém disse que "o Teatro não dá dinheiro". E eu escrevi: "Quem assim fala não é transmontano". Será que é?

Espero que as minha linhas talvez azedas como os azedões e as acelgas, acres como as arrabaças, sejam recebidas com o aconchego, a humildade verdejante e fresca da meruja, quatro elementos da Nossa Terra, a que eu chamo acepipes, manjares ou mesmo especiarias frescas da mesa transmontana que ainda falta desenvolver e divulgar. Transmontanos e respectivos amigos, venham ao TEATRO.

(veja notícias do Grupo de Teatro da CTMAD aqui)

Grupo Coral

por Maria Helena Moutinho


Nascemos em Junho 2007 quando a pianista Patrícia Gavinhas visitou a Escola de Leitura e Escritq que funciona, às segundas-feiras, na Associação Portuguesa de Escritores.

A sua presença despertou, nos membros daquela Escola, a enorme vontade de formarum grupo com o único objectivo de cantar.

O sonho ganhou forma. Tínhamos grupo, Directora Musical e muita força de vontade. Faltava apenas o espaço para albergar o projecto.

É então que aparece a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro que nos facultou, gratuitamente, o espaço para os ensaios. Como contrapartida, damos a nossa disponibilidade sempre que a CTMAD nos solicitar. Reiniciaremos os nossos ensaios a partir do próximo dia 7 de Setembro, sempre às sextas-feiras, pelas 21 horas.

O grupo é constituído por cerca de 15 elementos de diferentes experiências em termos musicais e os géneros escolhidos pela nossa Directora têm revelado essa mesma diversidade. De momento, damos relevo à música popular, embora tentemos fazer algumas incursões por outros géneros musicais.

Deixamos aqui um convite para todos aqueles que nos queiram acompanhar nesta caminhada coralista.

Grupo Coral

por Maria Helena Moutinho


Nascemos em Junho 2007 quando a pianista Patrícia Gavinhas visitou a Escola de Leitura e Escritq que funciona, às segundas-feiras, na Associação Portuguesa de Escritores.

A sua presença despertou, nos membros daquela Escola, a enorme vontade de formarum grupo com o único objectivo de cantar.

O sonho ganhou forma. Tínhamos grupo, Directora Musical e muita força de vontade. Faltava apenas o espaço para albergar o projecto.

É então que aparece a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro que nos facultou, gratuitamente, o espaço para os ensaios. Como contrapartida, damos a nossa disponibilidade sempre que a CTMAD nos solicitar. Reiniciaremos os nossos ensaios a partir do próximo dia 7 de Setembro, sempre às sextas-feiras, pelas 21 horas.

O grupo é constituído por cerca de 15 elementos de diferentes experiências em termos musicais e os géneros escolhidos pela nossa Directora têm revelado essa mesma diversidade. De momento, damos relevo à música popular, embora tentemos fazer algumas incursões por outros géneros musicais.

Deixamos aqui um convite para todos aqueles que nos queiram acompanhar nesta caminhada coralista.

Coincidências e lembranças

É como a história da existência das bruxas..., que eu nunca encontrei, mas de que muitos confirmam a sua presença.

Normalmente as histórias das bruxas têm que ver com actos, ou sequência de Vida, pouco animadores. Desastres acontecidos. Infelicidades e amores contrariados. O nosso fado!

As minhas histórias são mais animadoras e geralmente associadas aos prazeres da mesa. Das bruxas colecciono algumas receitas de culinária, e a famosa receita da "Queimada das Bruxas" que, de certo, já aqueceu muitos transmontanos em noites frias.

Da mesma forma que me afirmo agnóstico, também não acredito nas bruxas, figuras do imaginário quantas vezes inventadas para desculpar, ou culpar, comportamentos.

As coincidências quando são boas admitem-se como associadas à sorte, mas pela negativa quantas vezes se invocam as bruxas ou os maus-olhados, e outros, com resignação, simplesmente aceitam o destino! E quantas vezes, na história, se condenaram as bruxas por interesses variados? Agora que parece já não haver esses perigos, habituemo-nos a olhar as bruxas com ternura, e guardemos delas os elementos positivos que nos deixaram, como as receitas de cozinha. Sobre as quais escreverei noutra oportunidade.

Este palavreado, à laia de intróito, para no final da crónica ilustrar o texto com duas coincidências.

Nasci, e fui educado em Bragança até ser adulto. Poucas vezes venho à terra. O facto de passar longos períodos de ausência, quando regresso, sinto sempre com maior facilidade, as diferenças urbanas.

Ainda está na memória de todos a quase revolução popular, e de má hospitalidade, aquando da inauguração do Museu Abade de Baçal, depois de profundas obras de remodelação que transformaram o Museu num espaço de nova dinâmica museológica, quer dizer, um Museu contemporâneo. Não digo moderno pelas más interpretações que são atribuídas a este termo. Como bragançano não entendia os comentários, e acções, que naquele tempo se fizeram contra o Museu e especialmente contra a Presidente do Instituto Português de Museus, Simonetta Luz Afonso. E sobretudo pela forma agressiva como foi recebida na "minha" cidade, quase sendo obrigada a fugir.

Mal tive oportunidade de vir a Bragança, fui imediatamente visitar o Museu. Já tinha uma ligeira opinião pois tinha visto os projectos de remodelação, em planta, em Lisboa.

Surpresa! Finalmente uma obra em Bragança, ligada à cultura, com um modelo, e estética, associado aos novos métodos de apresentação museológica, exaltando as peças mais nobres e permitindo a rotação das peças em reservas, deixando de ser um Museu estático para adquirir, pela instalação, uma postura dinâmica. Gostei muito. Claro que a primeira coisa que fiz foi parabenizar a minha amiga Simonetta, pessoa que aprendi a respeitar ao longo da minha vida profissional e que permitiu estarmos ligados a grandes projectos de gastronomia. O primeiro foi a grande exposição da Vida em Portugal no "Século XVIII", no Palácio de Queluz em 1987. Foi possivelmente esta minha participação que me obrigou, e depois fascinou, ao estudo da alimentação em Portugal. O segundo grande projecto foi a Europália, em Bruxelas em 1991. Portugal foi o primeiro país a apresentar a gastronomia como património cultural, com manifestações múltiplas em três cidades. O terceiro grande projecto foi a instalação da gastronomia portuguesa no Pavilhão de Portugal na EXPO 98, com várias frente servindo em diversas oportunidades e espaços, mas sempre a cozinha regional portuguesa. Uma grande mulher com quem tive o prazer, e a honra, de trabalhar associado a programas e que foi responsável pela obra de maior modernidade que se tinha feito em Bragança. A propósito do Museu Abade de Baçal, e de comida, quero lembrar três obras de pintura que figuram na exposição permanente: "Cozinha Transmontana" de Berta Nery Durão Ferreira, "Os Petiscos de Bragança" tríptico de Henrique Tavares e uma encantadora "Natureza Morta - Cebolas" de Silva Porto.

Naquele tempo dizia eu que as obras mais importantes de Bragança eram o Museu e a ampliação da Pousada de S. Bartolomeu. Tendo esta sido encerrada para obras durante um longo período, e as suas obras de arte dispersas por outras pousadas, empenhei-me pessoalmente, tendo que lutar contra certas oposições dentro da empresa, para que a maior parte dos seus elementos decorativos regressassem, designadamente: "Cena do Mercado", "Mulher e Criança" e "Taça com Frutos" de Júlio Resende e ainda "Natureza Morta" de Jorge Pinheiro. Regressaram todas as peças, e com o ritmo de garantir a ligação ao local, ainda adquirimos a tapeçaria "A Menina e o Anjo" de Graça Morais, pois parecia-me despropositado a Pousada de S. Bartolomeu não ter uma obra da sua artista plástica que mais pinta e desenha a sua terra e as artífices anónimas que cultivam a Natureza. As minhas ligações gastronómicas a Graça Morais são longas e variadas. Possivelmente recordam ainda a crónica, que aqui escrevi, sobre a função dos alimentos na pintura e como ela se reflecte na pintura de Graça Morais. Recentemente Bragança teve a oportunidade de lhe dedicar um espaço "Centro de Arte Contemporânea Graça Morais", na zona nobre da cidade e que, de certo, vai ajudar a dinamizar a Baixa tão pouco frequentada. Curioso reparar que na cafetaria do Centro são apresentadas como sugestões doces de castanhas, de alto gabarito.

Quero ainda referir outra mulher que me liga a Bragança e aos movimentos gastronómicos: Rosalia Vargas. Enquanto responsável nacional do programa Ciência Viva, criou um sector "A Cozinha é um Laboratório", com grande sucesso e do qual sou admirador e frequentador. A partir de pequenas demonstrações, e de coisas simples como estrelar um ovo ou entender o crescimento do pão pelo fermento, muitas crianças aprendem a gostar de física e outras matérias, e a levar a curiosidade para as salas de aula. Essa curiosidade é muitas vezes o motor para aumentar o nível qualitativo das escolas. Temos um projecto em conjunto que ambos esperamos concretizar brevemente. A gastronomia passou já a ocupar cinquenta por cento do tempo das nossas conversas.

Nenhuma destas três mulheres tem a ver com as bruxas que citei no início do texto.

A primeira palavra que utilizei em título foi coincidências. Importa agora escrever sobre elas, ou simplesmente citá-las.

A primeira foi a inauguração em Bragança do pólo da Ciência Viva no dia 30 de Junho de 2007. A segunda foi a inauguração do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais no dia 30 de Junho de 2008. Duas grandes inaugurações na minha terra no mesmo dia e mês, e anos consecutivos! Costuma-se dizer que não há duas sem três...! E duas inaugurações de duas amigas minhas com as quais também consolido a Amizade pelos temas permanentes da comida. Não vou dizer que foram elas que escolheram as datas. Ironias de conveniências políticas...? Sim, que tiveram honras de Governo.

Se tivessem sido desgraças alguém teria já invocado um bruxedo, ou maldição de alguma bruxa. Como foram coisas boas, esquecem-se as contra-bruxas. Não são as fadas, essas não passam das histórias infantis. São as bruxas boas, que quiseram brincar comigo fazendo inaugurações em Bragança, duas consecutivas, no dia do meu aniversário, e darem-me o pretexto de vos dirigir estas palavras, de fim de Verão.

BOM APETITE para os espaços de Bragança que referi.


© Virgílio Gomes
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