segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Barragem do Tua e os esforços para impedir a sua construção

por António Costa

Realizou-se no passado dia 25 de Julho na Casa Regional dos Transmontanos e Alto Durienses do Porto uma debate sobre a problemática da construção da barragem prevista para a foz do rio Tua, promovida por esta Casa e pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. A sessão presidida pelo Presidente da Assembleia Municipal de Mirandela, Dr. José Manuel Pavão, contou com diversos oradores a seguir indicados: Gaspar Martins Pereira, Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; José Manuel Lopes Cordeiro, Professor Universitário e Presidente da APPI - Associação Portuguesa para o Património Industrial e membro da Direcção do TICCIH - The Industrial Committee for the Conservation of the Industrial Heritage; Manuel Matos Fernandes, Professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; Manuel Tão, Professor Universitário e Doutor em Economia de Transportes; Dra. Manuela Cunha, Assessora do Grupo Parlamentar Os Verdes e Dirigente do Partido Ecologista "Os Verdes" e Viviana Rodrigues, Arquitecta Paisagista. Na assistência encontrava-se ainda uma deputada do Bloco de Esquerda, no meio de mais de 130 pessoas que acompanharam com grande interesse o debate, e intervieram quando tiveram essa possibilidade.

O debate caracterizou-se por uma grande identidade de pontos de vista sobre a necessidade de impedir a construção da barragem. Uma tal construção descaracterizará completamente o vale do Tua tal como o conhecemos hoje; destruirá a respectiva linha ferroviária, pois deixará de haver ligação por via reduzida à estação do Tua, e consequentemente à rede ferroviária nacional; permitirá uma grave destruição do património cultural das populações que hoje se revêem no vale e na linha do Tua; empobrecerá populações cujos rendimentos agrícolas desaparecerão devido às suas terras serem alagadas; e será feita ao arrepio da necessidade de valorizar a ferrovia face à rodovia, devido aos recentes acontecimentos associados ao disparo do preço do petróleo.

António Armando da Costa, vogal da direcção da CTMAD esteve presente no debate intervindo no sentido do reforço das posições expressas e manifestando o interesse de que um debate semelhante se realizasse em Lisboa, organizado pela Casa, em conjunção com o Movimento Cívico pela Linha do Tua.

sábado, 25 de outubro de 2008

D. Maria Pia de Sabóia

por Armando Jorge Silva



Que tem esta senhora a ver com Trás-os-Montes e Alto Douro? Nada de especial que se saiba. Neste momento, porém, algo lhe vem associado. Vejamos:

D. Maria Pia, era italiana da casa aristocrática de Sabóia, filha do rei Victor Manuel. Casou com o rei português D. Luís sendo mãe do rei assassinado D. Carlos e avó do último rei D. Manuel II. Foi, portanto, a penúltima rainha de Portugal. Morreu exilada na sua Itália, em 5 de Julho de 1911.

José Manuel Pavão foi deputado, preside à Assembleia Municipal de Mirandela, é médico pediatra, dirigiu durante seis anos o Hospital de Crianças Maria Pia, no Porto, e... é transmontano.

Como ele pessoalmente nos confessou e escreveu, durante os muitos anos que trabalhou naquele hospital sempre o retrato daquela distinta senhora ali exposto o acolheu e estimulou a saber mais da sua vida. Para o efeito, convidou o amigo João Cerqueira, licenciado e mestre em História de Arte e solidariamente publicaram o livro biográfico Maria Pia Rainha e mulher.

O livro foi lançado em Lisboa, no dia 24 de Junho, no Palácio Nacional da Ajuda, onde Maria Pia viveu. E é aqui que surge a tal associação da nossa terra transmontana com Maria Pia de Sabóia. Pelo autor do livro, que é transmontano, e porque a nossa CTMAD colaborou activamente no evento. Muitos associados nossos marcaram presença e, na mesa, ao lado do Senhor D. Duarte e do Sr. General Ramalho Eanes, que apresentou os autores e obra, sentaram-se e intervieram com breve comunicação os presidentes da Assembleia Geral e da Direcção da nossa CTMAD, respectivamente, Dr. Guilhermino Pires e Dr. Jorge Valadares.

O nosso associado Vasco Saldanha (Ni), grande entusiasta da iniciativa e sua amiga Emanuelle Afonso recriaram com trajes da época as pessoas do rei e da rainha.

Deste bem sucedido evento cultural damos notícia e apresentamos as seguintes imagens:




Maria Pia no Palácio da Ajuda

por José Manuel Pavão*

Não são ainda muito claras e por isso pouco convincentes, as razões que impediram o casal real, D. Luís e D. Maria Pia, de voltar ao Palácio da Ajuda, a casa onde viveram a sua vida de consortes e de monarcas, para devidamente representados participarem no lançamento duma quase biografia da penúltima rainha de Portugal.

É nossa convicção que por detrás dos argumentos, estarão algumas mal disfarçadas e recalcadas aversões à monarquia, ou então, o mais provável, as habituais reticências e entraves ora postas a nu por alguns quadros da nossa Administração Pública quando são tocados por um conhecido mal, potencialmente epidémico e para já sem terapêutica, chamado burocracite crónica.

Cumprida a exigência, qual máscara censória, do prévio envio do livrinho, nem mesmo o facto do apresentador ser uma ilustríssima figura da República, quiçá a mais ilustre dado ter sido o obreiro da estabilidade democrática, foi suficiente para ultrapassar o "não enquadramento do acto na programação do Palácio".

Não se engalanou portanto o Palácio, nem o seu Director mandou desfraldar bandeira e estender tapete aos ilustres...

Assim, foi na biblioteca que o Sr. General Ramalho Eanes perante uma numerosa assistência, com o rigor de análise que o caracteriza, fez a apresentação do livro "Maria Pia, rainha e mulher", da autoria de José Manuel Pavão e João Cerqueira.

E teve absoluta razão o ex-Presidente da República quando afirmou não ter sido a rainha a criadora do Hospital de Crianças do Porto, que durante mais de um século levou o seu nome como patrono, e que ora está em vias de desaparecimento por decisão política do actual Governo.

De facto, deve-se à coragem de um grupo de Homens Bons do Porto, que preocupados com a situação social da sua cidade, fundaram um Hospital para crianças pobres e doentes, e onde existiu uma escola médico-cirúrgica de enorme prestígio.

Como dissemos no livro, a Rainha Maria Pia, reconhecidamente gastadora, deixou também testemunhos de grande sensibilidade social e por isso a chamavam de "Anjo da Caridade", mas onde mais incidimos a nossa atenção foi na sua figura de mulher no habitat da corte, depois perante a trágica enormidade do regicídio e ainda as alterações comportamentais que se seguiram.

Mesmo sabendo haver quem não goste de rever a história, neste caso duplamente real por ser de reis e de verdade, é nossa convicção que a iniciativa, mesmo sem jornais e sem TV, foi um contributo, ainda que modesto, para a animação cultural da cidade alfacinha.E isso, enche-nos de alegria. Mas no final, o que perdura, é o grito de alma dessa mulher-rainha a caminho do exílio, quando disse não ter já Família nem Pátria

Ora quando isso acontece, tal como o Romeiro de Garrett, não somos de facto Ninguém.

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*médico, ex-director do Hospital Maria Pia

domingo, 19 de outubro de 2008

Ares da Serra - Ti Zé Miguel contador de histórias

por António Augusto Fernandes

Naquela zona mitificadora da memória onde se enovelam maravilhosos fiapos da infância, entre os fantasmas amigos de antanho, aparece-me, vago e em tons de sépia, o Ti Zé Miguel.

Ti Zé Miguel, o homem das sete mulheres, a legítima mais seis filhas! Era também o meeiro a quem meu pai confiara as parcas leiras herdadas da avó Adriana da Portela, homem mais pachorrento e caladão que os bois com quem lidava de sol-a-sol e a quem atribuía uma vaga alma de gente. Com um sorriso imperceptível gasalhado sob o bigode talhado à maneira da primeira grande guerra, o rosto tisnado e a cabeça ligeiramente tombada sobre o ombro direito, no jeito paciente dos bem-aventurados das pagelas que se vendiam nas romarias, assim ele me surge, ainda hoje, do nevoeiro da memória, no seu passo lento e bamboleado como os dos patos, de aguilhada ao ombro à frente da galharda junta de bois que meu pai comprara na feira dos Chãos, espalhando um olhar manso como o deles. No Outono víamo-lo aparecer do nevoeiro, como um elfo, à frente do carro carregado de toros e trazendo no feltro do chapéu e no rectângulo do bigode pérolas minúsculas, farrapos das névoas que vogavam pelas touças do Cabeço Cercado, e, no cotim coçado da jaqueta, argalhos de giestas e o cheiro dos mentrastos. Era capaz de passar um dia inteiro por lá com uma côdea negra de centeio, um naco de toucinho e meia dúzia de palavras. Com um toco de Kentucky apagado ao canto da boca, derramava, de longe em longe, um esboço de sorriso calado sobre a gente e as coisas. O seu espírito perdia-se por lá numa comunicação vegetativa com os soutos, as touças, as searas, mais do que com as bisbilhotices da aldeia.

Desjungia os bois, botava-lhes um braçado de feno e vinha sentar o seu silêncio sobre uma tripeça, à lareira, fitando as brasas. E, enquanto as pantalonas puídas pelos anos fumegavam da humidade dos lameiros, executava, com delícias de sultão bizantino, o cerimonial do cigarrito antes da ceia: começava por alisar uma mortalha na palma da mão, desfazia-lhe em cima quatro ou cinco piriscas avaramente guardadas no bolsinho do colete, alinhava o tabaco ao longo da folhita de papel, catando com minúcia os fiapos de tabaco desalinhados da fieira, enrolava-o em escrupuloso e fino cilindro, humedecia a fímbria da mortalha com a ponta da língua, e umas fagulhas de volúpia chispavam-lhe já dos olhitos miúdos. Entalava a obra de arte nos lábios. Com a tenaz aproximava uma brasa, sugava o fumo com sofreguidão e largava as primeiras baforadas com mais delícia que sultão fumando o seu narguillé.

Depois da cigarrada, a tia Isabel Caldeireira, a mulher, gritava pela filharada - eram sete! - e o rancho familiar abancava em volta da arca grande onde se guardavam os largos pães centeeiros da semana e os nacos de toucinho com que se adubava o caldo e se acaudatava o carolo da merenda. Ao centro fumegava o cogulo das batatas farinhotas e couves tronchas em travessa esmaltada de figurações cor de lagarto, vasta como gamela, acolitada por um prato fundeiro com alho picadinho sobre azeite diluído com a água do caldo - se o litro de azeite custava duas jornas de sol-a-sol!... - onde à vez cada um ia molhando a batatinha e o talo de couve.

E a mim, menino debiqueiro arribado da cidade, aguavam-se-me os olhos por aquelas batatas besuntadas naquele rico molho de pobre. E nunca deixava que me repetissem o convite para também eu empunhar heroicamente o meu garfo de ferro e arranchar com a malta alegre dos Caldeireiros a que aliás pertencíamos por parte da mãe, provindos de um galego Caminha arribado dos lados de Arzua. E o caldo verde adubado com uma colher de unto e um naco de toucinho! Santo Deus! que delícias de Sardanapalo! Algumas nalgadas apanhei eu à conta dessa minha desavergonhada pironguice, quando a Amélia, a nossa empregadita, se descaía a contar a minha mãe estes faustosos banquetes!

***

Este Ti Zé Miguel deve ter sido um dos últimos contadores de histórias e um dos artistas-mores da castanha assada nos velhos assadores feitos de tiras de folha-de-flandres entrelaçadas. Nas noites assanhadas de invernia, com o vento uivando desesperadamente lá fora e a chuva a crepitar sobre a telha vã da cozinha, depois da ceia, Ti Zé Miguel pousava-se sobre a sua tripeça lustrosa do uso como pitonisa que se dispõe a presidir a um ritual. Do bolso do colete sacava o macinho de Kentucky e, com ar beato de sibarita moderado, puxava as primeiras fumaças com que a Sibila de Cumas pedia a inspiração de Apolo. Depois, com gestos sábios, cogulava o assador com as castanhas reboludas do Souto de Cadavez, enganchava-o no cadeado e metia mais uma giesta na fogueira. Era o sinal: a gaiatada, alapava-se em redor sobre mantas velhas estendidas no soalho, de queixo no ar e olhos no Ti Zé Miguel. O velho Homero puxava outra fumaça, pigarreava e soltava a voz mansa e cava, ligeiramente enrouquecida do tabaco de vastos anos: Era uma vez...

Lá fora zurrava temporal desfeito. A chuva assanhava-se sobre a telha de meia cana, o vento resfolegava no sabugueiro do outro lado da rua, uma golfada de ar frio infiltrava-se sob a telha, apagava a candeia e enovelava o fumo acre dos cavacos de carvalho mal secos e fazia-nos lacrimejar. Deixá-lo!... Era uma vez... E nas palavras arrastadas vinham emergindo, das sombras e fumos que se adensavam pelos cantos da cozinha mal alumiada, mundos fantásticos de bruxas e fadas, reis e princesas, bandidos e almocreves, pícaros e trágicos.

As paredes enegrecidas pela fuligem esvaíam-se e do negrume surdiam florestas escuras donde fosforesciam os olhos do lobo mau, onde perpassava o rabicho cedilhado do coelho casquilho; ou os burros tropiqueiros dos ciganos, os cavalos pimpões dos cavaleiros que matavam dragões e gigantes para salvarem princesas que, choronas e apaixonadas, do janelo de suas torres, alongavam os olhos pelos caminhos donde surgiria o galhardo salvador.

De quando em vez, sustinha a narrativa, sacudia, em ligeiros golpes de mestria, a asa do assador, e a pequenada, de narinas frementes, aspirava com volúpia o perfume da pele esturricada das castanhas... E de novo voltava a magia da palavra, criadora de mundos, como o Verbo inicial saído a boca de Jeová: ele era a história do Conde das Arcas decepado das mãos e frigido em caldeirão de azeite, por espanhóis ou mouros (para o caso tanto faz); ele era o Pastorinho Perdido nos longes da serra e perseguido por lobos maus, ou ainda O Arre, Burro, Caga Dinheiro!, burrico sobredotado que se alimentava de patacões velhos do tempo dos afonsinos e largava luzidias moedas de ouro que faziam rico a seu dono. Havia também a história das Três Maçãzinhas de Ouro, tesouro avaramente escondido pelos mouros debaixo da Fraga Grande da Ladeira, um avantesma de penedo que, talhado, daria para erguer outro bairro da Portela, e que uma moira encantada trouxera para o Alto da Ladeira, à cabeça, numa noite de luar, enquanto fiava estrigas de oiro em roca de oiro, com um fuso de oiro. E debaixo da fraga desmesurada sepultou ela as três maçãzinhas de oiro, furtando-as à cobiça dos nazarenos. E ainda lá estão à espera que alguém descubra as palavras mágicas que irão baldear a fraga gigantesca.

Eram, enfim, luminosos mundos de fantasia que moravam connosco, que se erguiam já ali, por detrás do áspero granito que nos separava da treva e das cordas de água que desabavam lá fora.

***

Depois era a festa da castanha, dos bilhós a nascerem loiros e perfumados do negrume das cascas tisnadas. Com risadas, riscos de fuligem pela cara e o jogo do arrebunhana em que se faziam e desfaziam fortunas daquele oiro que os soutos da serra pobre nos tinham dado e faziam de nós os reis do mundo.

Irremediavelmente, como perdemos a infância, assim os perdermos a eles, aos contadores de histórias e ganhámos em sua substituição esses outros contadores de outras histórias, a desengraçada e chatíssima subespécie dos políticos, prováveis parentes afastados do Barão (o onagrus baronius de Garrett) que impudentemente nos entram casa dentro pela janela mágica de McLuhan, prometendo-nos o bacalhau a pataco e bufarinhando com a nossa consciência.

Que é feito da graça, da imaginação, da simprez do Ti Zé Miguel que nada prometia, nada pedia e aos mundos fabulosos das suas histórias acrescentava a dádiva das suas castanhas, as melhores castanhas do mundo!?

E quando as pálpebras pesavam já com o sono, acontecia de arranchar também na dormida e por ali nos amontoávamos aos quatro e cinco em cada uma daquelas camas de bancos, ajaezadas com lençóis de estopa mais áspera que a estamenha com que os eremitas medievais ganhavam o paraíso, e grossos cobertores de papa tecidos no tear palreiro da Zulmira com a lã por ali crescida, nos gados do Frederico ou do João Santo e cobertas com as mantas de trapos que os cesteiros ambulantes trocavam pela cesta de batatas.

E em sonhos continuávamos as histórias do ti Zé Miguel, visitados por cavalos brancos arreados a ouro e cavalgados por princesas gentis, ou assustados por lobos maus que saltavam, de olhos em brasa, das touças cerradas do Cabeço Cercado. Assim sonhávamos as histórias do ti Zé Miguel e não era raro que, ao amanhecer, nos víssemos presenteados, sobre as mantas de trapos, com montículos de prata que ou fadas tecedeiras ou anões moleiros peneiravam das nuvens pela peneira da telha vã.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

1º ENCONTRO DAS CASAS REGIONAIS EM LISBOA

A Associação das Casas Regionais em Lisboa (ACRL) leva a efeito no próximo dia 11 de Outubro 2008, a partir das 20:30 h, no Salão de Festas no Vale Fundão da Junta de Freguesia de Marvila, o 1º ENCONTRO DAS CASAS REGIONAIS, com folclore, cavaquinhos, e música tradicional.

A ACRL convida os Orgãos Sociais e todos os associados da CTMAD e das outras Casas Regionais a participar neste evento.


Contactos da ACRL:

Rua Augusto Rosa, 58 - 1º, 1100-059 Lisboa.
E-mail: acrl.lisboa@gmail.com


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Novo romance de Fernando Chiotte na CTMAD

"Gostaria de morrer naquela noite" é o título do novo romance de Fernando Chiotte, que será lançado no próximo dia 6 de Novembro, às 18:30 na sede da CTMAD.

Editado pela Zéfiro, em 240 páginas, Fernando Chiotte traça um retrato claro da amizade, dos novos afectos, do romper de outros, de paisagens africanas, das guerras – aquela que viveu e da 2ª Guerra Mundial que vivencia através da memória dos que a viveram, dos ritos judaicos, das leis da sobrevivência, da corrupção, da libertação possível, da destruição que liberta.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Trindade Coelho

Uma Vida Exemplar, uma Obra Multifacetada

Nascido em Mogadouro em 18 de Junho de 1861, Trindade Coelho partiu cedo, por desejo próprio, a 9 de Junho de 1908.

Evoca-se, pois, este ano de 2008, o centenário da sua morte em que a convergência de várias Instituições será enriquecida para essa evocação.

Desde já várias autarquias: Mogadouro onde nasceu, a povoação de Travanca, então a 15 Km da sua terra natal, onde fez os estudos primários frequentando a escola régia dessa localidade com seu irmão, vivendo ambos em casa do professor, com fama de leccionar muito bem.

Por este facto foi afastado prematuramente da família, de que o seu temperamento sensível se ressentiu sempre, particularmente sentidas as saudades de sua mãe cuja morte decorreu durante essa estadia.

Porto e Coimbra foram cidades onde Trindade Coelho fez respectivamente os estudos secundários e o Curso de Direito. Como magistrado iniciou carreira no Sabugal. Em Portalegre exerceu a sua actividade durante quatro anos onde o jovem magistrado transmontano manteve a sua integridade, perante o caciquismo que tentava muitas vezes atar as mãos à justiça. Após transferência para Ovar, por período breve, foi finalmente colocado em Lisboa, último local da sua carreira numa fase política bastante acidentada em Portugal, na sequência do Ultimato Inglês. E ainda em Lisboa, viu-se temporariamente sem ocupação e numa situação angustiante, dado a extinção do tribunal onde realizava a ingrata tarefa de fiscalizar a imprensa de Lisboa. Foi posteriormente nomeado para Sintra, em 1895, num tribunal exclusivamente fiscal.

Em quatro campos distintos se situou a actividade de Trindade Coelho como escritor: o jornalismo, as obras de carácter jurídico, as de intervenção cívica e as de carácter propriamente literário.

Do seu livro "Os Meus Amores" (Contos e baladas) pareceu-nos interessante e oportuno, dado a abertura do ano escolar, transcrever o início do conto " Para a Escola", que certamente estará na lembrança de muitos leitores.

Este conto "Para a Escola" foi escrito por Trindade Coelho em Coimbra, no dia da sua formatura e termina esse conto evocando a sua dedicada ama Helena:

"...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei esse dia. Não volto mais à Escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo, dulcíssimo beijo aquele! - que tu então me deste."

Maria Virgínia Rodrigues


PARA A ESCOLA

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de pri­meiras letras. A porta lá estava, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam.,. Já tinha principia­do a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um si­lêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço verme­lho, atado em nó sobre a testa:

- Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.

Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à es­cola. Ali estava a encomendinha!

- Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

E, enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito com­prometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo e disse-me adeus.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

- Não, agora o menino fica - disse-me a Helena. - Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. - E agachando-se, diante de mim: - Olhe tanto menino, vê?

(Do livro os" Meus Amores" de Trindade Coelho).

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