O nosso amigo e conterrâneo Costa Pereira de Mondim de Basto publicou no seu blog Portugal, minha terra um artigo excelentemente ilustrado sobre o magusto da nossa Casa, ao qual pode aceder clicando aqui.
sábado, 22 de novembro de 2008
EDITORIAL - A nossa vetusta "Dama" fez 103 anos
Foi com muita alegria que diversos associados estiveram envolvidos num fraternal convívio comemorativo de mais um aniversário da nossa vetusta «Dama» que é a CTMAD. Vetusta significa exactamente respeitável pela sua antiguidade e a nossa «Dama» merece que a veneremos e que façamos por ela tudo o que merece.
A nossa «Dama» tem, como qualquer ser vivo, momentos de melhor e pior saúde. A nossa, ao longo dos seus 103 anos de vida, não fugiu à regra. Teve momentos de franco progresso, outros de estagnação e outros mesmo de tão trágica situação que quase a conduziram à morte. Conheceu sucessos e insucessos, mas felizmente sobreviveu, está bem viva e recomenda-se.
Tal como um ser humano, a nossa «Dama» também vive de projectos, uns concretizados outros não. Foi exactamente o que sucedeu nestes primeiros meses em que a actual direcção, a que me orgulho de pertencer, tomou conta dos seus destinos. Lembro os prezados leitores (e leitoras, não o esqueço!) que nada prometemos para além do trabalho e dedicação, pois como se costuma dizer, «de promessas está o Inferno cheio».
Pautamo-nos por grandes objectivos e nunca os tirámos do pensamento. Pelo contrário, focámos neles toda a nossa atenção e vontade de cumprir. Mas o pior é que nem sempre o cumprimento dos objectivos está inteiramente nas nossas mãos. Por isso, nestes cerca de 8 meses de governação, conseguimos acelerar o passo no caminho de algumas metas, mas ao mesmo tempo esbarrámos com grandes dificuldades para progredir a caminho de outras. Assim, por exemplo, se por um lado conseguimos organizar e participar em diversas actividades de carácter cultural, cumprindo o desígnio de fazer da nossa Casa uma fonte disseminadora da cultura da nossa região, por outro lado não conseguimos até ao momento, contrariamente ao que prevíamos, por a funcionar o Conselho Regional, isto independentemente do esforço nesse sentido desenvolvido por alguns diligentes associados de que destaco os nomes do nosso Colega de direcção António Costa, agora ausente em Glasgow enquanto dura a sua licença sabática e substituído neste interinamente pelo colega Carlos Cordeiro e do sempre dedicado e entusiasta Dr. Guedes Vaz que como é sabido foi o Presidente do Conselho Regional cessante. Que outros associados lhe sigam o exemplo é um desejo que aqui deixo expresso. Infelizmente os sucessivos apelos que eles e outros têm feito para a participação nesse importante órgão ainda não encontraram a merecida resposta pelo que teremos de arrancar com os que já se dispuseram a colaborar, na esperança de que com o arranque do funcionamento do mesmo outros associados de outras autarquias ainda sem representantes se disponham a integrar o mesmo.
Voltando à questão das metas para que se caminha muito, pouco ou nada, sei que também estarão a pensar no objectivo fulcral que é a nova SEDE. Acreditem que de modo algum está esquecido e a Colega da direcção Drª Maria de Lourdes Marques tem-lhe dedicado todo o cuidado e atenção que merece. Mas algum de vós pensará que temos connosco uma varinha mágica que nos permita de repente resolver esse já demasiado prolongado problema?! À nossa voz respondem ecos bem audíveis de que as coisas estão muitíssimo (mais do que muito!) bem encaminhadas, mas como já tantas promessas se fizeram a que se seguiram enormes desilusões, preferimos ficar por ora calados até vermos concretizado tudo aquilo que ouvimos, «preto no branco.»
Quero terminar este meu breve editorial com uns justos agradecimentos e merecidas felicitações a todos aqueles que contribuíram para a Festa de aniversário da nossa «Dama».
O primeiro agradecimento, puro e simples, mas muito sincero, vai para todos os Colegas de Direcção que comigo têm partilhado momentos alegres a par de momentos de angústia. Bem hajam pela entrega à vossa missão e felicito-vos publicamente por a cumprirem o melhor que vos tem sido possível. Prometemos ser uma comunidade de pensamento e acção dentro da nossa CTMAD, unido em torno dos nossos objectivos e creio que o temos conseguido. Um oportuno e particular agradecimento ao nosso Presidente da Assembleia Geral, Prof. Guilhermino Pires a cuja intervenção se deveu a oferta gratuita das instalações do local onde decorreram as festividades, ao Vice-Presidente da direcção António Cepeda, ao vogal Manuel Martins e aos que com eles contribuíram para a organização desta última Festa que, pelos ecos que se ouviram, foi do agrado de todos quantos nos deram o prazer de estar presentes, ao Dr. Armando Jorge por ter aceitado o convite para realizar a palestra sobre Trindade Coelho, ao Dr. Altino Cardoso pela sua prestimosa colaboração na Missa, ao Dr. Serafim Sousa pela organização da Missa e colaboração no Leilão e ao Grupo Maranus pela alegria que nos proporcionaram, como sempre aliás.
Por fim mas não por último, felicito também e exprimo a minha gratidão como Presidente da Direcção a todos os sócios que foram agraciados pela sua condição de associados de longa data. A nossa «DAMA» precisa, como do «pão para a boca», de associados como vós. Ajudem-na todos no seu engrandecimento angariando mais associados. Precisamos de crescer para atingir a «massa crítica» que nos fará «voar mais alto» de modo a garantir que tal vetusta «Dama» tenha uma habitação mais digna.
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NA NOSSA FESTA DE ANIVERSÁRIO COLABORARAM GENEROSAMENTE:Rua Tomás da Anunciação nº29 A - 1350-322 Lisboa telefone: 21 397 34 94 fax: 21 397 59 61 garrafeiracourique@mail.telepac.pt
QUEIJO TERRINCHO
D.O.P.
DE RUI TADEU
5360-493 VILAS BOAS - VILA FLOR
ADEGA COOPERATIVA
DE SÃO JOÃO DA PESQUEIRA
"VINHOS FRAGA DE OURO"
5130-323 - S.João da Pesqueira
BENJAMIM JORGE DIEGUES
VILA BOA - VINHAIS
PÃO-PRESUNTO-FUMEIRO
5320-000 Vinhais
GRUPOS CORAL E DE CORDOFONES DA PT TELECOM
O METRO TOMBOU AO RIO !
Uma vez mais, a quarta desde Janeiro/2008, o Metro de Mirandela, tombou na linha, semeando a morte!!... ceifando vidas!!.... "caiu numa pequena ravina de 4 metros!!!....", segundo ouvi num dos noticiários da Televisão, nem importa em que canal!!...
Tendo o mais profundo respeito pela vida, e pela morte, bem como pela pessoa humana, não deixo de realçar que o metro já tombou quatro vezes, em oito meses, e que a ravina, no caso vertente, tinha quatro metros, (suponho de profundidade!!...), e foi dita de pequena!!... o que será uma grande ravina!!??...
Desde que me conheço, tenho um fascínio por comboios!.. por ventura, pelas suas linhas em perspectiva, convergindo lá longe... não sei bem!...
Com que saudades recordo o comboio parado e a fumegar na bela estação de Mirandela!!... imagens que a memória guardou no tempo, no meu tempo!!... que bela imagem aquela, fumegante!!.. que fantástica perspectiva!!... que saudades!!...
Durante anos, décadas, o comboio subiu e desceu o vale, acompanhando o rio Tua!... deambulou pelo planalto bragançano, de Mirandela a Bragança!... silvando, assustou, avisou, cumprimentou, deu as "boas horas"... a todos quantos o viam passar!!... transportou tudo e tantos!!... transportou saudades e lágrimas, sorrisos e esperanças!!... marcou o tempo!!!..
Mas os tempos mudam!.... "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...", como escreveu, sabiamente, o glorioso Poeta, Luís de Camões... e, por conseguinte, o comboio, o saudoso comboio.... diluiu-se, desapareceu, chorou, sangrou fogo.... e, enfim , a "economia", a sábia economia, fê-lo desaparecer, como que o assassinou!!... ao que parece a "economia" também mata!!!...
Não sei porquê, nem como, talvez fruto dos tempos, da evolução dos tempos,.... eis que aparece a circular nos mesmos carris, no caminho do comboio, o metro de superfície, o metro de Mirandela... que, contrariando a definição de "metro padrão", se tornou maior, esticou, chegou de Mirandela a Carvalhais, depois de Mirandela ao Tua, e de Mirandela a Bruxelas!!... "e se mais houvera lá chegara!".... São, enfim, os segredos da física, os segredos da ciência, os segredos... certamente os segredos!!....
Ostenta a côr verde, o verde dos campos, o verde da esperança!!?.... mas, esperança de quê!?... de simular o comboio!?... de substituir o comboio!?.. não sei, e certamente não entendo, nem tenho que saber!!... mas, enfim, dado que não há comboio, pois vejamos o "metro" passar!!... mas, já que passa, pois que ele passe, que viaje, em segurança!... com segurança!... no respeito inquestionável pelas vidas que transporta!!... isso é absolutamente necessário!!... é um imperativo!!.. e para que isso aconteça são requeridas condições!!... sim, são necessárias condições de segurança!!...
Não sei porquê, não entendo porquê, mas ... o "metro" tombou ao rio, ou numa pequena ravina de quatro metros!!!... e, pasme-se, desde Janeiro até Agosto já sofreu quatro acidentes, e fez mortes!!... fez mortes!!... matou pessoas!!.... semeou a morte no campo!!.... no mesmo campo onde devem plantar-se e cultivar-se flores!!...
O metro tombou ao rio!!...pergunta-se porquê, e como!!??...
O que se passa!?... não sei!!... nem entendo!!... ninguém entenderá!!... nem quero propor nenhuma explicação técnica!!... alguém o fará, ou fez, no espaço e no tempo certos, e com o rigor cientifico que a vida e a morte reclamam!!...
Suponho que o comboio, velhinho e sangrando ferrugem, onde quer que esteja, gelou!!.. chorou!!.. enraiveceu-se, por certo!!!... quis voltar aos carris e devolver essas vidas ceifadas!!... o rio Tua fez parar as suas águas!!... "....correu ao mar, o Tejo duvidoso!...", como bem escreveu o genial Poeta!!!...
Neste momento de nostalgia, em que a tristeza me invade o peito, em que a incerteza do futuro me angustia a alma..... fico a pensar e pergunto-me, buscando respostas:
- Que é feito do Rio Tua!??... talvez exista apenas nas lágrimas de saudade, de quantos lhe engrossam a corrente!!...
- Que é feito do Vale do Tua!??... talvez seja um vale de lágrimas, ou nisso se vá tornando, por sua desventura!!..
- Que é feito da linha do Tua!??... talvez esteja no desalinho de mentes desalinhadas, oxidadas, ou assombradas pela economia!!...
- Que é feito do comboio do Tua!??... talvez esteja apodrecendo, algures, devolvendo-se à Terra, em óxidos, apodrecendo com a saudade, das saudades que deixou!!...
- Que é feito dos Homens!?... que é feito dos Homens!?... sim, que é feito dos Homens!!??...
103º Aniversário
Decorreram no passado dia 27 de Setembro, nas Oficinas de S. José em Lisboa, as comemorações do 103º aniversário da nossa Casa.
Após a missa em sufrágio dos associados já falecidos, seguiu-se uma saudação de boas vindas aos presentes proferida pelo vice-presidente da Mesa da Assembleia-geral Dr. Artur do Couto no auditório, completamente lotado.
De seguida tomou a palavra o associado Dr. Armando Jorge que, a propósito do centenário que agora decorre sobre o trágico desaparecimento de Trindade Coelho, proferiu uma interessante palestra sobre a ligação deste autor mogadourense e a CTMAD.
Seguiu-se um intermezzo musical a cargo do grupo coral da PT Telecom que deliciou os presentes com as suas harmonizações de geografias tão diversas fossem elas o Alentejo, a Argentina, os Açores, a Itália, a África do Sul.
Procedeu-se seguidamente ao agraciamento dos associados mais antigos com a entrega de diplomas e medalhas evocativas, após o que o presidente da Direcção, Prof. Jorge Valadares encerrou esta cerimónia com palavras de agradecimento a todos quantos tornaram possível a festa de aniversário.
Teve então lugar o jantar de confraternização que começou com queijos, fumeiro, presunto, centeio e vinho das nossas terras dando depois lugar a um saboroso e tenro polvo "à lagareiro" com salada.
Mais para o fim do jantar leiloaram-se quadros dos pintores Maria Priscila e João Garcia que tiveram a simpatia de os oferecer, para esse efeito, à Casa e foram também à praça produtos regionais. Foi então a vez do Grupo de Cordofones, também da PT, animar o corte do bolo e o ambiente, para logo de seguida, os Maranus darem início ao momento do pé de dança.
No final, a opinião foi unânime. Tratou-se de uma festa de aniversário bem organizada, variada e animada.
Para o ano, haverá mais.terça-feira, 18 de novembro de 2008
Ares da serra - Terras de pão
por António Augusto Fernandes
'A memória de meu Pai, um homem duro mas justo.
(...) Mais informa da intervenção da P.I.D.E. para tentar descobrir os autores do arrancamento de algumas árvores na serra de Nogueira: "Foram descobertos um ou dois e os Serviços entregaram depois novas árvores que a população que as tinha arrancado se encarregou de colocar de novo:" (Extracto do Processo movido a Aquilino Ribeiro pela publicação de Quando os Lobos Uivam, romance que tem por tema a florestação dos baldios. 07.04.59, [fls. 43 a 44]) [1]
Corria quente aquele Verão de 1958.
O misto resfolegava esfalfado sobre as duas fitas de aço, lançando baforadas de fumo negro, depois de quatro horas a lutar com os cem quilómetros que subiam da foz do Tua até ali, à cota mais alta da CP, na estação de Rossas. Parou consolado à sombra fresca da meia dúzia de nogueiras a que o chefe da estação dedicava os bastos ócios que o trânsito madraço de quatro composições diárias lhe permitia.
Da segunda classe saltou um adolescente espigadote balouçando a maleta de cartão. De fato preto, gravata preta, boina preta, era o provável seminarista, em tudo conforme com os regulamentos seminarísticos dos anos cinquenta, de regresso para as férias de Verão. Depois de um ano de ausência, desde a estação de Salsas que os seus olhos augados da terra vinham espiando as alturas da serra de Nogueira onde Rebordainhos se fora encarrapitar. E quando o comboio atacou a recta dos Roubões, antes de encostar à plataforma da gare, já o olhar se lhe prendia às alturas do Alto da Cabeça, onde jogara à bola com os da sua igualha, à Eira da Cabecinha onde se avistavam os primeiros medeiros da aldeia e o Armindo barbeiro lhe cortava as melenas. E suspirou de alívio.
Na plataforma da estação deserta, sufocada pela canícula da tarde e pelas poeiras que o suão levantava dos campos ressequidos, procurou com o olhar erradio a comitiva familiar que devia esperá-lo. Nada. Só depois de o comboio arrancar e dobrar a curva que desce para o túnel de Arufe é que reparou no mano mais novo que atravessava a linha. Crestado dos ares bravios da serra, a camisa de popelina listrada pela cruz de santo André das alças que lhe seguravam as pantalonas de cotim já um pouco curtas, avançava indeciso. Estava bem crescido o dianho do moço! Mas estranhou-lhe os modos. Ele sempre zombeteiro, a magicar na próxima partida que lhe iria pregar, parecia constrangido, quase hirto. Sem um gesto, sem desenterrar as mãos dos bolsos, desferiu-lhe à queima-roupa, como quem quer desincumbir-se rapidamente de recado que lhe frige a alma: - O pai esteve na cadeia!
Ora essa! Assim, sem mais! A notícia deu-lhe um baque na alma sensível de seminarista. Em boa verdade, com o feitio arrebatadiço que se lhe conhecia, não seria muito de estranhar que tivesse quebrado as trombas a algum bebedolas menos conforme com as etiquetas do soto onde governava a vida, ou pregado um par de lostras nalgum moinante que lhe moesse o juízo. Mas tais percalços não eram de estranhar e estavam em conformidade com os brandos costumes da serra. Não era decerto por tal ninharia que ia um cristão malhar com os ossos na cadeia! Ainda por cima o Jaime polícia! Lá rebentio de génio era ele, mas enfim, nunca seria caso para prisão!...
E, enquanto demandavam a aldeia pelo carreirão de Arufe ia rememorando aqueles escassos cinco anos de vida na aldeia, quando o pai, indisposto com os nepotismos da polícia onde as promoções eram regidas por empenhos e conivências, voltara à aldeia natal trazendo consigo revivida aquela fome antiquíssima de terra, uma fome herdada dos antepassados, funda como as raízes fundas que nela tinham lançado. Atirara-se com afã a desfazer os bocados que andavam a monte na Corredoura, na Ladeira, no Pórto, onde quer que pudesse colher mais dois alqueires de centeio.
O Pai tinha os seus repentes, bem entendido, mas no fundo era um sentimental capaz de verter a sua lagrimazita às escondidas e, sobretudo, era um homem com profundo sentido de justiça. Nesses anos magros a seguir à guerra, fora dele a iniciativa de aumentar para doze mil e quinhentos réis a jorna aos cavadores, recordado ainda dos tempos que ele próprio levara agarrado ao cabo do enxadão. E, por essa memória, a pobreza dos mais pobres merecia-lhe um grande respeito e a fome de quem trabalha o dos outros via-a como a mais negra das injustiças num mundo mal feito. Exigia trabalho que se visse e escolhia os trabalhadores mais valentes, mas tratava-os com a consideração devida a quem trabalha. Seria ríspido e não se ensaiava para dar um recado. Mas era generoso se um pobre lhe batia à porta com fome e ironizava os seus confrades nas Conferências de S. Vicente de Paula quando na saqueta das esmolas abundavam as moedas de cobre: não é assim que os pobres tiram a barriga de misérias...
Era também a ele que a ciganada recorria quando faziam questão em baptizar algum filho. - Ó homem, não seja por causa disso que o lacru fica mouro! E à conta disso se viu padrinho de para cima de meia dúzia de ciganitos. Tinha um sentido de humor um tanto sardónico e mais que um lhe ficou a dever a alcunha. Amigo dos seus amigos, era correntio e folgazão nos jogos de ar livre aos domingos, quando ameaçava os adversários do chincalhão de os levar em pó e vento, e homem de força quando era preciso dominar pelos cornos um bezerro bravo recalcitrante ao jugo.
A vida não lhe fora nada meiga. Criado com muita estreiteza pela tia Antonha Pastora já viúva, naquele casinhoto negro do Covelo, não se envergonhava de confessar que muitas fominhas rapara e só aos vinte anos, quando assentara praça, deixara os socos de amieiro para estrear os primeiros sapatos. Enfim, o pouco que subira na vida subira-o a pulso e honradamente.
E o seminarista estimava-o e admirava-o por tudo isso. E ainda pela recordação supremamente grata de lhe ver a compenetração com que aos domingos acendia a vela do altar de Santa Maria Madalena, ajoelhando sempre diante do altar da grande pecadora arrependida, padroeira da freguesia, cuja imagem mandara restaurar a expensas suas num santeiro de Braga.
Por tudo isso lhe custava encaixar essa história da prisão do pai. E, de repente, passou-lhe pela mente o grande desarranjo: podia lá chegar a padre, sendo filho de pai preso!? Ele bem estranhara que, durante uns tempos, as cartas chegadas ao seminário não mostrassem aquele belo cursivo de quem redigiu muitos autos de zaragatas nas feiras do 12 e dos 21, em Bragança, de quem apontou muito calote no rol dos fiados, mas sim a caligrafia titubeante da mãe, com menos arte para relatar coisas e loisas da aldeia. Lá tentara explicar para consigo o desacerto na correspondência com o aperto dos afazeres da lavoura somados às preocupações dos calotes abusivos que a magreza do viver aldeão multiplicava como tortulhos no Outono. Não, que a vida na serra andava cada vez mais cainha e muito complicada para todos: os filho nasciam bastos como os cabeçudos na charca do Espinheiro, os rendimentos da lavoura eram mais que escassos, ainda que andassem de sementio até a pedriça do Alto do Sirgo e os pedregulhais das Curreliças que mal davam sustento ao tojo rastiço, quanto mais às paveias de centeio. Ainda por cima, para ajudar o pai que é pobre, coelhos e perdizes iam retraçando o pouco que a terra dava.
E só à hora do caldo veio a saber que a história era bem outra!
As coisas tinham começado alguns meses antes. Uns engenheiros, armados de fitas métricas e teodolitos, dados a muitas inquirições sobre matrizes e estremas, iam cravando bandarilhas de mau agouro pelo longo dorso que vai da Malhada Velha aos cumes da serra, às Três Marras, ponto de encontro dos concelhos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.
Os aldeanos olhavam toda essa estranha movimentação de soslaio. A coisa cheirava-lhes a esturro, porque era certo e sabido que o governo só se lembrava deles para os cardar. Ora, mandar que suas excelências, os senhores engenheiros, viessem sujar as botas de calfe nas poeiras da serra não havia de ser no interesse dos lapoiços que a escarduçavam por mor de mais umas pousadas de pão. Quanto a inquirições, eles bem se fechavam em copas: - sei lá de quem são as terras, onde ficam as estremas! Não sabiam eles outra coisa! Estas invasões dos baldios não vinham nos jornais e disso não falava a Emissora Nacional, não, que andava tudo bem açaimado pelo senhor Governo! Mas, pelo que corria à boca pequena por feiras e romarias, futuravam eles que o acontecido lá para baixo, para as Beiras, mais tarde ou mais cedo lhes iria bater à porta. O que eles sabiam muito bem era que aqueles pedaços de terra por cima da Malhada Velha até à cota dos mil e duzentos metros, do Vale dos Azebros ao Cabeço do Pau e ao Lombo das Terças, quando calhava de o Inverno trazer dois ou três nevões que matassem a bicheza, adubassem as terras delgadas e fizessem borbulhar as nascentes, as espigas faziam dobrar as hastes do centeio, de gradas, porque lá reza o ditado: ano de neve, paga o pobre o que deve, ou o outro que diz o mesmo por outras palavras: ano de pão, sete neves e um nevão. E era também dali que saía a melhor batata certificada: nas covas mais lentas e de húmus mais gordo medravam os batatais com direito a que se lhe especasse uma tabuleta com algarismos pintados a zarcão, conferindo-lhes o direito a ser vendida como batata de semente certificada, o que dobrava o preço.
Ali, naquelas alturas lançando a vista para o horizonte, sobre o vale de Macedo de Cavaleiros, em frente, ou, sobre a direita, ao planalto de Miranda, enfarinhado no azul da distância, atrás de um coelho ou agarrado à rabiça do arado, um homem sentia-se de alma lavada e como se fosse dono do mundo. Era um espaço de liberdade, dessa liberdade tão cara ao serrano. Naqueles descampados, ceifados os pães, os gados pasciam livremente as espigas perdidas pelos segadores ou a relva tenra que brotava com as primeiras águas do Outono. As giestas e urzes que despontavam pelo pedregulhal eram de quem as quisesse arrancar para com elas fazer carvão, esquentar o forno ou atiçar o lume nas manhãs de codo. Aquela corda de outeiros, isentos de senhorio, eram de todos, mas eram sobretudo dos mais pobre que não tinham de seu leira de jeito ou touça para acender a lareira no Inverno. Eram terrenos baldios? Pois que fossem, mas era deles o proveito! Já assim era no tempo dos avós e dos avós dos avós, e nunca ninguém se incomodara com isso! Esses baldios eram bem o símbolo da sua liberdade e independência, já que não podiam ser coutados nem sisados pelo poder central. E se há coisa odiosa para o serrano é que lhe toquem na terra que sente como sua, ou que alguém venha de fora pôr-lhe o cangote debaixo do jugo. Por mor de um migalho de terra quantos não se tinham já perdido!
É bem verdade que aquilo ficava longe que nem seiscentos diabos, lá para cima, a dois passos da capelinha da Senhora da Serra no picoto mais alto da Nogueira, onde no tempo dos mouros (ou seria de Carlos Magno e dos Doze Pares de França?), Nossa Senhora aparecera a uma pastorinha muda, de tamancos, que Nossa Senhora não tem engulho dos pobres, e depois marcara com neve, no dia mais quente de Agosto, o sítio e modos como queria que lhe fizessem uma capelinha. Era a Nossa Senhora deles, que os de Rebordãos bem quiseram mudar a capela para onde a avistassem da aldeia, mas obra feita de dia esborralhava-se milagrosamente durante a noite. E ao fim de muito caturrarem, a capelinha bem que teve de ser feita onde Nossa Senhora a queria, que era a olhar para Rebordainhos, que Ela, pelos modos, preferia aos de Rebordãos.
Pois é, um homem demorava uma manhã inteira para ir regar quatro sucos de batatas e, no tempo das acarrejas, tinha que jungir os bois ainda com escuro, se queria o carreto pronto antes de ir comer as batatas do almoço. Mas deixá-lo! Era deles, e... o tempo dá-o Deus de graça!
Até o tio Zé Çuca, monárquico convicto, que era fino, lia A Voz e desempenhava, como por descendência dinástica, o cargo de Presidente da Junta desde que lhe morrera o pai, o ti António Caminha, embora apoiasse a Situação e admirasse Salazar, desta vez achou que a Situação exorbitava, borrifou-se para o Salazar e acrescentou a sua indignação à dos demais.
Os Serviços Florestais começaram por construir uma casita toda liró, bem melhor que as da aldeia: reluzindo de branca, enconchadinha numa ruga da serra, com uma nascentinha de água leve e fria à ilharga, voltada a sul donde no Inverno espreita o sol criador e com vistas desafogadas para meio mundo, mais feita para poeta contemplativo que para Guarda-florestal.
E logo nos começos do Inverno as máquinas invadiram os corutos da serra e vá de arrotear o maninho, de afundir nos covachos milhares de pinheiritos tenros, de abetos, de bétulas... Se ainda aldemenos os Serviços se lembrassem de plantar carvalhos e castanheiros que era o que a serra reconhecia como seu desde que o mundo é mundo! Mas não... vinham lá com essas esquisitices da Terra Quente... - Rais os partissem a todos mais à pata que os pôs!
Máquinas e engenheiros já tinham partido e o sossego parecia ter regressado à serra. Aos domingos, no adro, depois da missa, não se falava de outra coisa e, enquanto as mulheres corriam a esverçar o caldo de couves, os homens davam uma saltada até à Cruzinha, levantando os olhos para aquela lombada da serra, na esperança de que a sarna tinha secado. É o tinhas! Ao longo de toda a cumeeira, os pinheiritos tinham pegado com arreganho e a rabugem verde-escura começava a pintar os terrenos onde dantes crescia o centeio e a batata. E, intrigados, quedavam-se em conjecturas: e agora?... e de quem é aquilo? e que torna e que deixa... A coisa começava a cheirar a esturro.
Até que um domingo, depois do almoço, os sinos se puseram num bimbalhar doido de toque a rebate. Acudiam as gentes a indagar onde era o fogo. Sobre o muro do adro onde no Inverno se arrematavam os chispes e orelheiras prometidas ao S. Sebastião, alguém ia despachando quem chegava: que desandassem em busca de enxada, de sachola, de picareta e ala para a Malhada Velha que a serra havia de ficar como era dantes.
A gemte começou de sse juntar e era tanta que era estranha cousa de se veer - diria o Cronista se ao sucedido assistira.
Munindo-se cada qual de ferramenta mais azada para o efeito e muitos também de uma pinga, que nestas alturas dá sempre jeito, esquentando-se mutuamente os ânimos com vozes façanhudas e esporádicos gorgolejos nas botelhas galegas de pele de cabra, quando passaram a Ribeira, na subida para os Vales, já se evocavam os grandes feitos guerreiros com que na escola se enfeitava a história pátria: espanhóis e Aljubarrota, mouros e Afonso Henriques, Índia e Vasco da Gama, tudo abundava no exemplo de como as coisas têm que ser feitas quando vêm mexer com quem está quedo. E era deveras inflamado o espírito belicoso das hostes. Tomaram o caminho dos Vales que, apesar de mais empinado, os punha lá riba em três tempos. Um nevoeiro cerrado abatera-se sobre a serra como manta cúmplice que os acobertasse de olhos coscuvilheiros, que estas coisas querem-se feitas a recato, como negócio entre homem e mulher. Enquanto o diabo esfrega um olho, imolaram a maior parte das hastezinhas tenras que lhes tinham invadido as terras de pão e alguns dos feros arrancadores trouxeram-nas à laia de troféus justamente arrebatados a inimigo vencido em valorosa peleja.
Viveram-se tempos de incerteza. Será que o Governo os tinha esquecido outra vez e tudo voltava ao que era dantes? Agora esquecera! Os polainudos da GNR começaram a rondar a aldeia, entravam nas tabernas com falinhas mansas, ofereciam o seu copo: quem tinha tocado o sino a rebate?... quem tinha acicatado os fregueses na arranca dos pinheiros?... quem tinha cometido o desacato contra o Estado?... Ninguém fora, ninguém ouvira nada, ninguém sabia de nada. Desistiram, encalhados na pertinácia serrana.
As inquirições pareciam ter dado em águas de bacalhau e os ânimos iam serenando. Sempre valera a pena o finca-pé!...
Até que um dia apareceu um jipe do Estado com uns sujeitos de ar sinistro. Nem parou. Atravessou a aldeia e pelos caminhos dos carros de bois subiu até aos Vales, como quem sabe ao que vem. Sem dizer água-vai os sujeitos de má catadura catrafilaram o Raul e enfiaram-no no jipe, que regressou à aldeia e estacou no Largo do Prado em frente da Taberna de Baixo. Com o mesmo despacho deram voz de prisão ao Jaime que nesse momento tinha vindo à porta do soto inquirir da novidade. Era o que eles receavam: a PIDE, não podendo prender uma povoação inteira, deitava os gatázios a quem muito bem entendia para escarmento dos demais: ao Jaime porque, sendo dono da taberna, pelas conversas que se soltam entre os fregueses depois de uns quantos quartilhos empinados, devia ter ouvido pela certa alguma coisa mais sobre o assunto da Floresta. Ademais, sendo polícia, embora de licença sem vencimento, tinha obrigação de informar os seus superiores de todos os movimentos sediciosos da população. Ao Raul, porque, morando no ermo dos Vales, a dois passos da zona florestada, tinha de saber pela certa quem lhe passara à porta para ir vindimar os pinheirinhos. Esta lógica caseira não convencia ninguém e serviu apenas para camuflar canhestramente os autores da feia delação. Veio-se a saber mais tarde que os dois sacrificados nas aras da sanha policiesca tinham sido denunciados por motivos bem pouco políticos e ainda menos patrióticos: o Jaime pelo guarda-florestal recentemente nomeado, fraca rês vinda da Terra Quente, a quem recusara alongar o rol dos fiados. O Raul por um vizinho da Quinta dos Vales que com ele mantinha pendências de estremas mal definidas ou marcos manhosos que se movimentavam a coberto da noite. E lá os levaram para a cadeia da Rua do Heroísmo, no Porto.
Viveram-se dias negros, pois que todos, quem mais, quem menos, se sentiam na pele dos dois caçados pela polícia política e em todos doía a consciência colectiva dessa aleivosia. A tia Lídia viera ocupar o lugar do marido na Taberna de Baixo chorosa e aflita. Lá de baixo a correspondência dos dois reclusos ia contando que não eram maltratados e a comida era razoável. Não fora o desarranjo trazido aos negócios de cada um pela ausência forçada, animavam eles, desdramatizando a situação, quase se podiam dizer umas férias à conta do Estado. O que deveras lhes doía na alma eram as grades da prisão. O serrano, preso nem com uma linha se quer ver! Periodicamente eram abordados blandiciosamente pela polícia: - que nada tinham contra eles... que bastava dizerem quem fora o da ideia, que a eles nada acontecia. O Raul entrincheirava-se na sua escusa: que mal saía daquele fim do mundo que eram os Vales, o que é que ele podia saber? Em tal dia até andava a lavrar lá p´rós lados de Lanção!... O Jaime insistia no seu álibi: nesse dia tinha ele ido ao vinho lá para a Terra Quente. Até tinha factura passada e tudo... Ninguém se descosia, nada feito.
Pela aldeia, os dias passavam macambúzios, pela indecisão do caminho a tomar, até que o Pe Amílcar achou por bem descer à cidade a encontrar-se com o Pe Caminha, cunhado do Jaime, que, enquanto Director da Escola Profissional de Santa Clara, tinha entrada franca no Ministério do Interior. Passaram-se semanas caturrando dum lado e doutro, mexeram-se todos os pauzinhos e num domingo depois da missa, o Pe Amílcar, ainda antes de se desparamentar, dava notícias aos paroquianos:
- Tudo na mesma. O senhor Jaime e o senhor Raul não dizem nada e a polícia só os deixa vir embora se o povo plantar de novo as árvores arrancadas.
Cá fora, no adro, discutiu-se rijamente. Por um lado, aquilo cheirava-lhes a forte humilhação, como se o povo não tivesse razão em defender o que era seu. Por outro lado, que mais culpados eram aqueles dois que os outros, para irem malhar com os ossos na cadeia!?... Depois de muito parlamentar, a muito custo optaram pela humilhação.
De novo subiram aos altos da Malhada Velha, mas agora com a amargura de quem sobe ao calvário. Cheios de má vontade lá foram replantando quanto tinham arrancado. E tudo pegou gorando, para seu espanto, a confiança que depositavam nas leis da botânica: bicheza brava aqueles pinheiros! pegavam, mesmo com um nó na raiz!
Depois de dois meses de cárcere, os deportados eram depositados no Largo do Prado. O Raul correu a matar saudade do seu casal dos Vales. O Jaime, naquele seu feitio um tanto arisco temperado pelas agruras da vida, entrou pela porta do seu soto com o ar de quem tinha ido ali a Bragança encomendar umas mercearias no armazém do Domingos Lopes. E ofereceu uma rodada aos presentes. Como tinham cedido na replantação dos pinheiros, nem dava para se sentirem heróis ou caudilhos de um levantamento. Sobrava apenas uma leve amargura, como de moinha de Outono, a ensombrar-lhes a alma.
Em resumo:
Para regar a hortinha da Vale-da-Frunha-d'Além ainda por lá andava, nesse Verão, um sachito com que o mano participara na odisseia da floresta, crismando-o de arranca-pinheiros.
Para sossego de consciência do seminarista, não houvera morte de homem, a sedição acabara em bem, com o acatamento da autoridade e a floresta medrava lá em cima à lei da natureza...
Finalmente, rezam as crónicas, não foi por causa de pai preso que ele não veio engrossar as fileiras dos ministros do Senhor.
Hoje a floresta faz cinquenta anos, está frondosa e até que alindou o dorso nu da serra. Para consolo dos ecologistas encartados constitui notável contributo para a preservação do lobo ibérico que lá vai abocanhando ao desfastio alguma canhona distraída que lhes passe a jeito. E também do javali que cata meticulosamente as castanhas tombadas do ouriço e cabouca os batatais que lhe ficam à mão.
Mas permanece como a pegada de um governo que exerceu o seu poder autocraticamente e ao arrepio dos direitos comunais - memória de chaga mal sarada na alma da comunidade.
Os poucos velhos que se recusam a abandonar a aldeia e os jovens agricultores, que o Governo louva mas não ajuda, persistem em agricultar essa terra que sobrou da floresta, sabendo que trabalham para sustentação do lobo ibérico, que está de saúde se recomenda, e do javali, que os figuros da cidade adoram ostentar como troféu das suas caçadas. E, se não vier alguma trovoada à moda antiga, ainda sobra qualquer coisita para o pobre do lavrador que, não sendo espécie protegida, está em risco de extinção.
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[1] in Em Defesa de Aquilino Ribeiro, organização de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, Edições Terramar, Lisboa 1994.
O processo em questão fora movido ao autor pela publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que tem por tema a florestação dos baldios na Serra da Nave, saído em finais de 1958.
N.Ed. As fotografias que ilustram a narrativa são da autoria de António Fernandes.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
As barragens transmontanas
É de todos bem conhecida a dependência energética do País.
Os que analisam na generalidade o assunto e aqueles que minimamente se interessam por esta questão sabem quão desejável é reduzir tal dependência dum modo saudável e sustentável, como agora é moda dizer, e nesse campo as energias renováveis lideram as alternativas.
Dentro destas, Portugal dispõe de vento, sol e água fluvial e marítima que é imprescindível explorar para podermos continuar a manter os padrões de qualidade de vida atingidos pela generalidade da população portuguesa.
No potencial hídrico, aquele que agora me interessa detalhar, é sabido estarmos a 50% do seu aproveitamento, sendo evidente a necessidade de captar a respectiva energia ainda disponível a qual, ainda por cima, proporciona o armazenamento de um bem que, no futuro, se adivinha escasso.
No nosso País 85% da energia tem origem em matérias fósseis, na sua maioria importadas, o que se traduz numa pesadíssima factura energética nacional. A redução da dependência do petróleo e a redução das emissões de gases de estufa obrigam à tomada de opções que valorizem a energia limpa e renovável.
O programa governamental de construção de barragens com elevado potencial hídrico prevê 10 novos empreendimentos os quais, a concretizarem-se até 2020, como planeado, conduzirão ao aproveitamento de 70% das nossas capacidades hídricas.
Não constando de tal Plano a Barragem do Baixo Sabor por já estar adjudicada, para a nossa Região estão antevistas as Barragens da Foz do Tua, Pedroselos, Alto Tâmega, Daivões e Gouvães, ou seja, uma contribuição significativa de Trás-os-Montes e Alto Douro (tal como no passado, quando da construção das barragens do Douro) para o desenvolvimento sustentável do todo nacional.
Vozes velhas (que se dizem novas), erguem-se contra este plano com argumentos diversos tentando impedir a sua implementação num coro de opiniões que passaremos a tentar dissecar servindo o que adiante se disser, de um modo geral, tanto para a Barragem do Baixo Sabor como para a Barragem da Foz do Tua.
1º As Barragens não devem ser construídas porque não são acautelados os interesses das populações.
Eu terei que perguntar forçosamente se acaso alguma aldeia ou lugar irão ficar submersos, se haverá proprietários de terrenos, no futuro submersos, que não serão indemnizados, se existirá algum atravessamento (ponte ou passagem) que ficará sem alternativa no futuro.
Discutirei, também, a questão da perda de rendimento das populações. Infelizmente são escassos os terrenos em exploração que irão ser afectados pelas albufeiras. É sabido que as encostas das nossas linhas de água há muito deixaram de ser fabricadas e os leitos em planícies agricultáveis são em área insignificante. Duvido, igualmente, que no âmbito do pacote indemnizatório não seja possível atribuir, durante o período de vida dos actuais proprietários residentes, um subsídio financeiro de acordo com a rentabilidade da actual exploração.
2º As barragens constituem um aleijão à Paisagem e á Biosfera.No tocante às ofensas às paisagens, eu gostaria de perguntar aos que me lêem se, comparando as paisagens do Douro Nacional e do Douro Internacional, antes e depois da construção das barragens de Miranda, Bemposta, Picote, Pocinho, Valeira, Régua, Carrapatelo e Crestuma, se acham que tudo foi pervertido, que o que era antes tinha sido uma dádiva da Natureza que o homem imbecilmente destruiu?
Digam-me com franqueza se as não acham agora com uma beleza incomparavelmente acrescida e, mais do que isso, com capacidade para melhor serem usufruídas a partir dos barcos navegando nas albufeiras das ditas barragens.
Quanto ao impacte na Biosfera, digam-me em que é que um plano de água é mais agressivo para a atmosfera do que a chaminé de uma central termoeléctrica?
Aparecem agora, contudo, referências malévolas quanto à produção de metano a partir das albufeiras, assegurando que este gás é 21 vezes mais contributivo para o aquecimento global do que o dióxido de carbono. Meus caros ambientalistas: digam-me em que parte do globo é que fizeram tais estudos e analisem se no Sabor ou no Tua tal será possível, sabendo-se da capacidade regenerativa destes cursos de água com nascentes na cadeia montanhosa galaica sempre alimentada por forte pluviosidade.
3º A albufeira vai engolir milhões de plantas, de animais e a terra dos homens.Observemos o caso do Sabor. Tirando o alagamento duma área por certo pouco maior do que o maior dos latifúndios alentejanos (ou será que fiz mal as contas?), não vejo qualquer óbice a que na restante área em encosta, afecta ao empreendimento, se continuem a desenvolver as espécies florestais nativas (cerejeiras, sobreiros, carrascos, buxo, etc.) ora em recrudescimento.
Também não vejo qualquer impedimento, derivado do alargamento e aprofundamento do curso de água, para o crescimento e reprodução das espécies animais ora existentes. Quero crer que em ambas as margens do Douro Internacional continuam a existir lobos, raposas, lebres, coelhos, javalis, corças, esquilos, etc. Poderão ser animais portugueses ou espanhóis mas também, no futuro, poderá haver lobos de Alfândega, lebres de Mogadouro e javalis de Moncorvo. E se acaso houver perigo na extinção de alguma espécie (lontras?) porque não obrigar a EDP a criar um centro de criação, reabilitação e de repovoamento de tal espécie?
4º Há outras alternativas mesmo na energia hídrica; em vez de grandes barragens devem ser construídas mini-hídricas.
Esta questão traz-me à memória o retardamento da construção da Barragem do Alqueva, onde idêntico argumento foi estudado até à exaustão durante mais de 40 anos, o que levou alguém mais expedito, frontal e já desesperado a pintar, no paredão de uma obra acessória daquele grande empreendimento: "CONSTRUAM-ME, P_ _ _ _"!
Infelizmente não tenho, de momento, dados técnicos que me autorizem a desmontar categoricamente este argumento mas o conhecimento que possuo acerca da mini-hídrica de Gimonde (Bragança) permitem-me extrapolar os dados de que disponho. A noção que tenho é que a energia ali produzida e vendida actualmente pela Autarquia à EDP, daria para o abastecimento de uma população de cerca de 2.000 habitantes. O problema é que seriam precisas mais de 50 mini-hídricas equivalentes para alcançar a energia que virá a ser disponibilizada pela futura Barragem do Baixo Sabor e não há espaço para implantar tanta mini-hídrica nos 120 Km do Sabor.
5º As barragens são muito dispendiosas e são desastrosas para o ambiente (pela erosão e perda de solos, retenção de sólidos finos, mau comportamento nos períodos de seca, etc.).
A relação custo/benefício dos empreendimentos hidroeléctricos é reconhecidamente uma das suas vantagens quando comparamos os diversos modelos produtores de energia. Ao inicial pesado investimento, desde logo com uma forte componente de mão-de-obra local e incorporação de materiais e equipamentos de origem nacional, segue-se um longo período de vida útil com despesas quase nulas de operação e manutenção.
Invocar erosão ou perda de solos no caso das barragens transmontanas parece querer trazer à baila problemas característicos de outras regiões, planas e aluvionares, que não são, de todo, os casos em apreço.
Chamar a atenção para a possível insuficiência na afluência de caudais é subestimar os estudos que forçosamente se levam a cabo na fase inicial de análise da viabilidade de qualquer investimento no domínio hídrico. É certo que em períodos de grande seca se reduz a produção deste tipo de energia, mas esta é mais uma razão para diversificar as fontes de energia e incluir nelas também a hídrica, sempre tão disponível, nessas alturas de crise, para ajudar a combater os incêndios florestais e para suprir as sedes de muitas bocas e de muitas terras aráveis.
Nem tudo são rosas e não há intervenção humana que, de uma forma ou de outra, não prejudique a Natureza. No caso que venho expressando em defesa da construção de muitas e disseminadas barragens pelo País fora, o caso da retenção de sólidos é um dos (poucos, na minha opinião) aspectos malévolos das barragens pois impede o seu deslocamento e deposição, contrariando o seu natural andamento. Mas também aqui, se houver uma gestão adequada da sua recuperação via dragagens, ou outra, se poderá economicamente contribuir para a valorização do curso de água com mais uma fonte de rendimento não despicienda.
Oxalá em próximos números do nosso jornal apareçam novos argumentos contra a construção das barragens transmontanas que aqui estarei para os voltar a atacar.
António Cepeda
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
A Casa de Bragança - dois episódios
Sobre esta temática irei alinhavar uns brevíssimos apontamentos sobre dois extraordinários episódios acerca de dois Duques de Bragança.
Os episódios em causa : um, de gelar o sangue, tal a loucura do acto; o outro que, pela grande coragem do seu jovem autor, muito espantou os seus contemporâneos, portugueses e não só, e ainda hoje suscita a nossa admiração.
São duas "histórias da História", das muitas que o meu pai me contava e me deslumbravam . Esse deslumbre acentuou-se quando, já estudante em Coimbra, tive durante dois anos o privilégio de ser aluna do grande Professor Damião Peres que, homem sábio, apaixonado pelo saber, fazia a História ganhar vida própria.
Chega de conversa e vamos então ao 1º episódio que me propus contar-vos:Foi 4º Duque de Bragança D. Jaime, nascido em 1479 e falecido em 1532. Era filho do 3º Duque, D. Fernando, que em 1483 foi acusado de traição e, por ordem de El-rei D. João II, decapitado em Évora. Não se sabe se o duque-menino , D. Jaime , apenas com 4 anos, terá visto a execução de seu pai. Sabe-se que à casa de Bragança foram confiscados todos os bens em favor da Coroa. Sua mãe, D.Jaime e irmãos refugiaram-se em Castela onde foram bem recebidos.
Após a morte de D. João II, aclamado rei D. Manuel I (27.10.1495), assina este a "Carta de Reabilitação" da Casa de Bragança (18.06.1496) declarando nulos os efeitos do processo de execução do Duque D. Fernando e manda regressar a Portugal D. Jaime e toda a família. Então, como 4º Duque de Bragança, entra D. Jaime na posse de todos os seus bens e mercês.
Era D. Jaime muito dado a práticas religiosas que, por vezes, implicavam mesmo o martírio. Em 1502, tinha então 23 anos e estava já acertado o seu contrato de casamento com D. Leonor, filha de D. Luís de Guzmão, 3º Duque de Medina Sidónia e grande nobre de Espanha, decidiu D. Jaime fugir do palácio para se tornar frade. El-rei D. Manuel teve de intervir, ordenando que o trouxessem de volta e obrigando-o a honrar o seu compromisso.
Para além desta faceta de grande religiosidade, parece que era de seu natural um acentuado pendor melancólico, revelando aqui e ali algum desequilíbrio psíquico.
Casou, pois, D. Jaime com D. Leonor e desse casamento houveram dois filhos.Era pagem de seu filho um fidalgo de sua casa, António Alcoforado, jovem de 17 anos.
As intrigas e a maledicência fervilhavam no palácio e terá D. Jaime suspeitado, ou algo lhe fora soprado ao ouvido, acerca da infidelidade da esposa com o pagem. Tresloucado de ciúmes, mandou prender o jovem e ordenou ao capelão que o confessasse. Após a confissão mandou-o matar no próprio palácio de Vila Viçosa.
A Duquesa, avisada do acontecido, correu com os filhos para os seus aposentos e aí os encontrou D, Jaime. Ordenou que o capelão fosse novamente chamado para a confessar. Parece que D. Jaime teria ainda hesitado, mas a intriga e o mórbido ciúme foram mais fortes e, num acesso de loucura, apunhalou a esposa, D. Leonor de Bragança. Isto aconteceu no dia 2 de Novembro de 1512, Dia de Finados.
O rei D. Manuel mandou instaurar um processo contra o Duque de Bragança, mas este refugiou-se em Évora-Monte e pode dizer-se que um silêncio espesso caiu sobre o caso. Com o silêncio veio o esquecimento. Talvez porque D. Jaime continuava a entregar-se a rigorosas penitências para expiar os seus crimes perante Deus e reparar perante os homens o mal que praticara.
Muito mais haveria certamente a dizer sobre D. Jaime (a ele se deve a construção do Palácio Ducal de Vila Viçosa, a reconstrução dos castelos de Ourém e de Porto de Mós, entre outros feitos), mas há que poupar espaço para o 2º episódio prometido.
Refere-se este ao 7º Duque de Bragança, D. Teodósio II, filho do 6º Duque, D.João e de sua mulher e prima D. Catarina. Nasceu D. Teodósio em Vila Viçosa e veio a falecer em 1630. Tinha apenas 10 anos e assistia aos preparativos de seu pai para, com 600 cavaleiros, 2.000 infantes de suas terras e 30 navios, tomar parte naquela que viria a ser a infelicíssima expedição a Alcácer-Quibir em 1578.
Porém, seu pai, tomado de sezões, não pôde embarcar. Por isso, enviou em seu lugar o pequeno duque para acompanhar El-rei D. Sebastião.
Nos primeiros recontros o duquesinho seguiu sempre o rei a cavalo. Porém, vendo que o perigo aumentava, D. Sebastião ordenou que se afastasse para devida segurança. D. Teodósio fingiu obedecer mas, no auge da batalha, montou novamente a cavalo e, seguido pelos seus soldados, juntou-se a D. António, Prior do Crato, e tomou parte na luta. Ferido na cabeça, foi feito prisioneiro com muitos dos seus servidores.
Seu pai, o Duque D. João de Bragança, mandou imediatamente tratar do resgate, custasse o que custasse. Filipe II de Espanha terá escrito ao rei de Marrocos que, vendo que se tratava de uma criança, mandou libertar o pequeno duque, não aceitando qualquer resgate.Penso que este episódio da nossa História, com destaque para a Casa de Bragança, merece ser lembrado pela carga de coragem, lealdade, amor e tolerância evidenciados por todos os intervenientes e que, ainda hoje, pode servir de lição de vida para todos nós.
Nota - Também desta vez peço a quem, nestas duas breves "histórias da nossa História", achar algo a acrescentar, completar e/ou corrigir, o favor de o fazer. Todos teremos a ganhar, aprendendo com quem é mais sabedor.
__________________FONTES:
Joel Serrão, "Pequeno Dicionário de História de Portugal", Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976;
Joaquim Veríssimo Serrão, "História de Portugal", Vol. II: "Formação do Estado Moderno" (1415-1495), 2ª ed., Lisboa, 1978;
Abade de Baçal, "Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança" , 2ª ed., Bragança, 2000;
Jean-François Labourdette, "História de Portugal", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2003;
Informação colhida na Internet, por ex. : em "O Portal da História" e em "GENEA" .
Leiria, 2008-09-26. Júlia Barros Guarda Ribeiro (Biló)


