A sede do Museu do Douro, localizada na Casa da Companhia, no Peso da Régua, foi inaugurada hoje, 20 de Dezembro. A cerimónia contou com a presença do Primeiro-Ministro, José Sócrates.
sábado, 20 de dezembro de 2008
sábado, 13 de dezembro de 2008
Contrato da Concessão da Auto-Estrada Transmontana assinado um ano após lançamento do concurso
Do "Notícias de Vila Real" online transcrevemos:
O Primeiro-Ministro, José Sócrates, presidiu ontem, dia 10 de Dezembro, em Bragança, à cerimónia de assinatura do Contrato de Concessão da Auto-Estrada Transmontana, um ano após o lançamento do concurso.
O evento teve lugar 15 dias após a assinatura do Contrato da Concessão do Douro Interior, que ocorreu a 25 de Novembro. Passados apenas 12 meses sobre o anúncio do Concurso, torna-se possível avançar para a concretização do Projecto com a assinatura do respectivo Contrato. A entidade adjudicatária é o grupo intitulado Auto-Estrada XXI, liderado pela empresa Soares da Costa.
A AE Transmontana foi bastante disputada: apresentaram-se a concurso seis consórcios, envolvendo 44 empresas. Com uma extensão total de 186 quilometros, 130 dos quais são de nova construção, a Concessão da Auto-Estrada Transmontana beneficiará directamente os concelhos de Amarante, Vila Real, Sabrosa, Murça, Alijó, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança, abrangendo cerca de 250 mil habitantes.
O lanço a construir vai ligar Vila Real a Bragança em perfil de Auto-Estrada e unir-se-á a vias de menor dimensão já em serviço: a que liga Amarante a Vila Real, a Variante de Bragança e a Ponte de Quintanilha (as três integram o actual IP4, somando 56km), que se mantêm em regime de exploração. O investimento com a construção inicial por parte do adjudicatário está estimado em 440 milhões de euros (valor inferior ao anunciado pelo Governo no lançamento do processo concursal), prevendo-se que o total ronde os 800 milhões de euros.
A construção desta via deverá induzir uma redução da taxa de sinistralidade grave na ordem dos 65%. Se tivermos em conta os 30 anos da Concessão, significará uma diminuição média de 19 mortos por ano; por outro lado, a redução de 65% dos feridos graves traduzir-se-á em menos 23 feridos graves por ano. A Auto-Estrada Transmontana trará ainda uma diminuição de 45% dos feridos ligeiros: nos 30 anos concessionados isto representará em média cerca de menos 147 feridos sem gravidade por ano.
Um empreendimento com estas características deverá gerar à volta de nove mil empregos. A redução do tempo de percurso é outra vantagem da AE Transmontana. Vejamos alguns exemplos:
- A viagem entre o Porto e Bragança diminuirá 44 minutos (29%);
- O percurso Porto/Vila Real baixará 8 minutos (14%);
- Vila Real/Bragança passará a fazer-se em menos 36 minutos (38%);
- Bragança/Viana do Castelo permitirá uma economia de tempo de 30 minutos
(16%);
- Bragança/Guarda passará a ser um percurso com menos 40 minutos (27%);
- Bragança/Viseu será uma viagem 36 minutos mais curta (26%);
- Bragança/Macedo de Cavaleiros será feita em menos 7 minutos (26%);
- Vila Real/Macedo de Cavaleiros será um percurso com menos 15 minutos.
Saliente-se que mais 70.000 habitantes (de 104.590 para 173.390) ficarão a menos de uma hora de Bragança. Em relação à zona de influência de Vila Real, mais de 1,2 milhão de habitantes (90%) ficarão a menos de uma hora da capital de distrito. O primeiro lanço da AE Transmontana estará pronto em Novembro de 2010, devendo a Concessão ficar concluída em Julho de 2011.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Recado a Agrochão
Agrochão!... Ó bela Aldeia onde vi primeiro do dia a luz!
Berço de almas tantas e generosas; berço da minha Mãe!
Por teus hortos, fontes, idílicos recantos, passou Jesus,
E como desejou ter nascido em Ti, mais que em Belém!...
Linda Aldeia!... onde as casinhas de xisto, são ao Luar
Mais belas!.. aconchegadas em redor da Igreja, (um Primor!)
E aos pés daquele Cabeço, onde o mesmo Jesus está a vigiar,
Pregado naquele madeiro e caído de joelhos naquele andor!
Verdes são os campos na Primavera! Cinzentos olivais!
Castanheiros frondosos! Roxos vinhedos outonais!
Fontes cristalinas!... símbolos do Amor e da Saudade!...
Beija-te o sol radioso, quando nasce por detrás da Serra;
Reza contigo a Senhora do Areal!... Ó linda Terra,
Deixa que eu morra em Ti, e descanse no Senhor da Piedade!
Agrochão
(fins.707@gmail.com)
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Desenvolvimento sustentavel de Tras-os-Montes e Alto Douro
I - O vale do Tua
Desde a sua fundação que, primeiro no Club Transmontano, e nas últimas décadas na nossa casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, esta instituição tem procurado debater e aprofundar ideias sobre as questões estruturais relacionadas com o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida na nossa região.
Nesse sentido, e numa primeira iniciativa da presente direcção, a Casa Regional de Trás-os-Montes e Alto Douro e o Instituto da Democracia Portuguesa (IDP) vão organizar no próximo dia 13 de Dezembro, Sábado, pelas 15 horas, uma Sessão-debate sobre o desenvolvimento sustentável do Vale do Tua, o qual abrange e diz respeito aos seguintes 5 municípios: Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor.
A nossa Instituição está aberta a toda a discussão e a todos os pontos de vista acerca do desenvolvimento da região (e de outras da nossa querida área natural, sobre outros temas que oportunamente possam surgir).
Foram convidados os Presidentes dos Municípios do vale do Tua, já que, com todo o seu conhecimento e experiência, muito poderão contribuir para o debate do projecto apresentado pelos técnicos especialistas do IDP.
Apelamos à presença de todos os associados que se manifestem interessados no desenvolvimento sustentável da nossa região. A sessão será antecedida de um almoço que decorrerá na nossa Sede, situada no Campo Pequeno, Nº 50-3º Esq.
Por razões logísticas solicitamos a todos os que pretendam participar no almoço que se inscrevam previamente pelo telefone 217939311.
Vale de Gouvinhas
A cerca de 20 Km para NNO de Mirandela, entre os rios Tuela e Rabaçal na margem direita e esquerda, respectivamente encontramos a freguesia Vale de Gouvinhas. Tem actualmente cerca de 500 habitantes, números bem diferentes dos censos de 1950, tinha 942, dos quais 477 eram do sexo masculino e 465 do feminino.
É uma terra em constante movimento e já com sinais claros de algum desenvolvimento quer ao nível de formação superior das suas gentes, quer a nível de infra-estruturas. Apesar dos tempos difíceis para generalidade das nossas aldeias transmontanas tentamos, também nós, remar contra a maré no sentido de estancar aquela que é a maior calamidade dos tempos modernos, ou seja, a desertificação do interior.
Terra que apesar de não ter tido grande imigração, tem parte dos seus naturais, cerca de 350, a residir na área da grande Lisboa, Porto e uma pequena população espalhada pelo resto do mundo.
É uma terra de algum sucesso, pois sempre investiu na educação, prova disso são os cerca de 170 licenciados nas mais diversas áreas e que de alguma forma estão em estreita ligação com a freguesia.
Terra por excelência de bom azeite, tem ainda hoje alguns jovens a investir na actividade, escolha sempre difícil é verdade, mas que felizmente está a dar bons resultados. O facto de terem sido os mais jovens, pessoas já dotadas de melhor formação, levou-os a adoptar uma estratégia não só de produção mas também de comercialização, bem exemplo disso é o aumento significativo da produção de azeitona/azeite seguido de aumento da qualidade. Mas terá sido na cura e comercialização de azeitona de conserva que conseguiram arranjar uma verdadeira alternativa ao mercado tradicional de venda de azeite a baixo custo, direccionado assim a sua actividade mais para esta vertente, estando já uma boa parte a ser exportada.
A Junta de Freguesia, apesar das dificuldades, não olha a meios para manter vivos os valores, as tradições e costumes de outrora sem nunca perder de vista o futuro. Tudo faremos para continuar a equipar de mais e melhores infra-estruturas a nossa terra de modo a irmos de encontro às necessidades e anseios da população. A vertente social é hoje a nossa maior preocupação, bem exemplo disso foi o apoio dado a todos os níveis para criação da "Associação Terras do Marião". Ainda jovem é verdade! mas já reconhecida como IPSS e com um projecto para a construção de um Lar apresentado à Segurança Social para comparticipação financeira.
Também na área cultural em parceria com a Associação Cultural temos entre outras actividades, desde há 3 anos, a funcionar um posto público de Internet. Sendo normal verem-se crianças e adultos a servirem-se das valências que esta oferece.
Mas como parar é morrer, diz o ditado, outras áreas existem onde o investimento se tem feito notar.
A sede de freguesia e a anexa de Quintas encontram-se actualmente a receber obras de remodelação das redes de abastecimento de água e saneamento básico, bem como a construção de ETAR'S mais amigas do ambiente. Brevemente terá também lugar a repavimentação do acesso de Valbom Pitêz.
Na rede viária temos feito um enorme esforço. Com efeito a Junta de Freguesia inaugurou no passado dia 18/11/2007 a estrada e respectiva ponte sobre o rio Tuela "PONTE DO MOLEIRO" que liga as aldeias de Vale Maior a Mosteiró estabelecendo-se, deste modo, a ligação definitiva entre as populações de ambas as margens outrora de costas voltadas por falta destas infra-estruturas, ligando neste local as freguesias de Vale de Gouvinhas, Torre D' Chama, Múrias, Mascarenhas e outras. Esta obra de grande envergadura reveste-se de grande sentimentalismo para as populações locais.
É ainda de salientar que esta ligação reduz em cerca de 15km a distância entre estas últimas a Valpaços.
A obra foi financiada pelo Ministério da Agricultura e Câmara Municipal de Mirandela, sendo um bom exemplo de gestão como fez questão de relembrar o Sr. Director Regional Agricultura do Norte Arqº Carlos Guerra.
Como complemento a estas obra pretendemos a construção duma praia fluvial e a criação da "Rota do Moleiro" a candidatar ao QREN.
De destacar foi também a homenagem que se pretendeu fazer a todos os moleiros que durante tempos imemoriais tanto contribuíram para o bem estar das populações locais, daí o nome "PONTE DO MOLEIRO".
E porque o tempo não espera, temos forçosamente que o acompanhar para que os caminhos do futuro nos tragam o progresso que tanto ambicionamos e desta forma combater a malvada desertificação. A freguesia de Vale de Gouvinhas através das suas gentes, associações e autarquia continuarão a trabalhar para construir um futuro melhor e mais próspero por forma a dar à sua população a qualidade de vida que todos merecem.
Um abraço amigo das gentes da Freguesia de Vale de Gouvinhas.
O Presidente da Freguesia
Rui Sá
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
A chegada do inverno
Por muitas e variadas propostas que tenha em mente para redigir estas crónicas, quando chega o dia em que as devo concretizar, não me recordo delas e pior, não sei como começar. A disciplina da escrita desenvolve, por vezes, algumas ansiedades até que o escrito fica pronto. Hoje estou num desses dias, e o começo da chuva traz-me inspirações repetitivas como a matança do porco, as castanhas e os magustos, as sopas completas, as chegadas à lareira com os enchidos de remédio convivial, ... e a lembrança de que já escrevi sobre todos esses temas.
A região de Trás-os-Montes e Alto Douro é pródiga em feiras nesta época do ano. A que causa mais admiração é a famosa Feira dos Gorazes de Mogadouro. Para provocar a resposta que eu já sei pergunto algumas vezes, a oriundos do Sul, se sabem o que é esta feira, indico a localização e praticamente a totalidade me responde com perguntas sobre a razão de uma feira de peixes, porque razão o "goraz" é tema de feira nesta localidade e todos ficam surpreendidos com a minha resposta. De facto até muitos transmontanos desconhecem a origem desta designação. Ao que sei "goraz" era o nome dado à taxa, contribuição, para poder participar com produtos para venda nesta feira onde se comercializava tudo. Claro que com a evolução o âmbito da feira alargou-se, tem espectáculos e é possivelmente o evento mais importante de Mogadouro. Para além das vendas variadas há um importante capítulo de actividades lúdicas. Inicialmente estas feiras eram dedicadas aos produtos alimentares e comércio de gado, e outras actividades agrícolas.
Mas o panorama de animações de feiras, e mostras, está a aumentar. Fiquei agradavelmente surpreendido com a Festa das Sopas e Merendas em Freixo de Espada à Cinta. E porque somos ainda um País de Sopas, sopas completas que constituem uma refeição, e de merendas... felizes aqueles que ainda as podem fazer.
No programa, prevê o dia de abertura, uma manifestação especial, degustação, apresentada por um trio que garante, cegamente, o seu sucesso: Restaurante Flor de Sal, Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro e a Escola de Hotelaria de Mirandela. Quando esta crónica for publicada já, de certo, esta degustação foi devolvida à Natureza. No entanto, corro o risco de vos abrir o apetite e não esquecer a próxima edição desta festa.
Ora aqui vai o cardápio: "Aveludado de Abóbora Menina, com Gengibre raiado de Azeite de Trás-os-Montes e palitos de Queijo Terrincho Velho". Bem, podemos ficar espantados com estas misturas. Fora de questão está a utilização de três produtos tipicamente locais, podemos é estranhar a utilização do gengibre. Este, assumido como um fármaco até ao século XVIII, tem uma função importantíssima nesta preparação que é aumentar o sabor da abóbora, habitualmente adocicada por natureza.
"Almôndegas de Azeitona Negrinha de Freixo na Companhia de Migas de Bispo". Quanto a esta confecção tenho que remeter os leitores para as obras de receituário do meu Amigo António Monteiro, designadamente os registos do livro "O Azeite e as Azeitonas" e ainda para o recente, e excelente, livro "Palavras do Olival", ambos do João Azevedo Editor. Apenas vou referir a curiosidade das Migas do Bispo. Parece que assim são designadas por ser um prato rico confeccionado durante as visitas episcopais, e que teriam uma grande variedade de legumes, feijão-frade, ovos, vinho...
"Rabos de Polvo das Bruxas em Torradas de Azeite e Alho". Sem novidades excepto a sua apresentação que será, possivelmente, como um petisco. Desde cedo que o polvo marcou presença entre nós pela sua capacidade de conservação, em seco. Recentemente, em encontro gastronómico com nuestros hermanos da Galiza, afirmavam eles que um dos elementos comuns connosco é o polvo. Sim, que eles preferem e acham-se mais parecidos com o Norte de Portugal do que com a Espanha! Das "Bruxas" acho muita graça, e com seriedade, pois eu sou um devoto das Bruxas conforme terão percebido os que leram a minha última crónica na qual apresentava o meu conceito de "Bruxas Boas", que são as fadas dos adultos.
"Ensopado de Perdiz em Tomatada". Aparentemente sem história mas, às vezes, o mais simples é o mais complexo. Garantida que esteja a qualidade do pão, perdiz selvagem e o tomate bem tratado.
"Cabrito com Marmelos e Figos, e Crocante de Amêndoa". Ora aqui temos um exemplo de influências da permanência dos "mouros" entre nós. Não podemos esquecer que após a sua expulsão fomos tolerantes e deixámos ficar todos aqueles que estavam ligados à alimentação designadamente os comerciantes que andavam de feira e que eram os únicos, até á descoberta do Brasil, que comercializavam o açúcar de cana. Hoje em dia é fácil encontrar em todo o Magreb o cabrito assado com marmelos. Pena é que nós apenas o usemos para fazer marmelada. E os "Marmelos Assados no Forno com Mel e Canela"? Estão quase a desaparecer. E os "Marmelos em Calda"? Os lisboetas ainda podem comer no restaurante "Farta Brutos" no Bairro Alto. Figos de todos os países do Mediterrâneo mas que, nestas coisas de comer, os mares sobem facilmente até às montanhas. A cozinha de fusão, hoje identificada, foi um processo lento e que confirma como as questões do quotidiano evoluíram num cruzamento de prazer para a vida das sociedades.
"Papos de Anjo de Azeitonas com Gelado de Vinho Moscatel". Fecham com chave de ouro. Os mais cépticos já enrugaram a testa com a perversão das azeitonas nos Papos de Anjo. Os anjos, pelas suas virtudes saberão acolher e valorizar todos os que pretendem protecção. Viva a imaginação! E não esqueçamos os versos populares, cantados em dias de feira ou romaria, de outra especialidade celestial: "O nome toucinho-do-céu/ tem a sua explicação/ toucinho pelo ingrediente/ do céu pela satisfação." Olhemos para as azeitonas adoçadas, com mais ternura.
Genericamente sobre "Sopas e Merendas" parece-me que seria bom parar um pouco e reflectir sobre o inferno das acelerações diárias, com pequeno-almoço rápido e deficiente, almoços ainda piores e o abandono da refeição do meio da tarde, que é a merenda. Sem querer armar-me em nutricionista, nem dietista, há pequenos conselhos que deveríamos por em prática. Um pequeno-almoço tranquilo e equilibrado garante um dia melhor. Às refeições sempre sopa. Quantas vezes uma boa sopa, sopa completa, faz uma verdadeira refeição. Por alguma razão nos quartéis e hospitais a sopa era parte obrigatória nas refeições e quase sempre o melhor componente. Comam sopa pela vossa saúde.
E agora as Merendas. Quantas vezes associadas a passeios ao campo, apetite entre refeições, e que no passado serviam para revigorar forças nos trabalhos do campo. Ainda me lembro de merendar pão de centeio com uvas. Pão de mistura com enchidos ou bom presunto.
Para não variar, cá estive eu a desviar o tema que me propus tratar. Mas tudo em louvor das nossas terras. E nesta época de Inverno saudemos a feiras ou festas dos nossos bons produtos, da castanha, da abertura do vinho novo ou dos célebres enchidos.
Mesmo ao terminar esta crónica, acabo de receber a notícia que as Equipas Olímpicas Portuguesas da Culinária acabaram de receber duas medalhas de bronze, em disputa na Alemanha entre cinquenta e três países. Portugal está representado por um equipa sénior da qual faz parte o nosso conterrâneo Manuel Bóia, e uma equipa júnior chefiada pelo nosso também conterrâneo António Bóia, ambos naturais de Santulhão e que são irmãos. Parabéns a todos.
BOM APETITE!
© Virgílio Gomes
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Crónicas em mirandês
O mirandês é uma língua astur-leonesa, que pertence ao grupo das línguas românicas. Durante séculos foi uma língua de transmissão oral, tendo sido dada a conhecer à comunidade científica e estudada pela primeira vez por José Leite de Vasconcelos, no fim do séc. XIX. Estima-se entre 7 e 10 mil o número actual de falantes, incluindo os que habitam no Concelho de Miranda do Douro, em três aldeias do Concelho de Vimioso e os i/emigrantes. Foi oficialmente reconhecida pela lei nº 7/99, de 29 de Janeiro, aprovada por unanimidade pela Assembleia da República.
Com o objectivo de contribuir para manter viva esta língua, o Centro Nacional de Cultura decidiu destacar semanalmente neste portal as crónicas em mirandês publicadas no semanário regional, A Voz do Nordeste pelo Dr. Amadeu Ferreira, presidente da Associaçon de Lhéngua Mirandesa.
Çparaba rajadas de bersosTenie, cumo you, catorze anhos i andábamos dambos a dous ne l Seminário de Bergáncia, ne l quarto anho, l que agora le cháman uitabo anho. Anque andubíramos juntos hai quatro ou cinco anhos, lhembra-se-me nessa eidade porque mos sentábamos an carteiras ua al lhado de la outra. Siempre le admirei la marrafa bien puosta al para trás, que you nunca fui capaç de la adominar por bien auga que le botasse al pelo, a quantas mais fazer óndias cumo l del! Inda hoije, l'eimaige que guardo del ye essa: la bida lhebou-lo, pouco tiempo apuis, por outros caminos i a mi deixou-me-lo siempre moço.
La sala de studo custaba a calcer ne l eimbierno, inda que fúramos arrimado a cien. Por bien calhados i quietos, bundaba ua tossidela, un lápeç a caier, un cerrar menos lhebe la tapadeira de la carteira, un arrastrar de pies, un albantar - senhor purfeito puodo ir a la retrete? tire-me eiqui ua dúbeda, puodo ir al miu colega a pedir uns apuntamientos?, - ou algo assi para que aqueilha sala nunca fura calhada cumo la missa. Cada carteira era un mundo, que até segredos chegaba a guardar. El era siempre l purmeiro a acabar la traduçon de lhatin, i lhougo ampeçaba a çparar rajadas de bersos acontra l fondo de la carteira, que mal se oubien: la capa negra cun que mos tapábamos nun deixaba l sonido salir para fuora, mas sentie-lo cumo se alredror s'albantara un airico a beilar; nin un mirar pa l lhado anunciaba la hora de ls bersos, nin ua fuolha anriba la carteira ls podie arrecolher, táticas de camuflaige que l poeta tubo que daprender zde cedo. Ls bersos éran la nuossa guerra, siempre cuntados na punta de ls dedos, ambaixo la carteira. Yá bien bezes habiemos dezido que nun balie cuntar puls dedos, mas eilhes nunca aceitában quedar de fuora de la fiesta. Mui ralo le ganhaba, na métrica, nas eimaiges guapas, ne ls temas, na spuntaneidade cun que l berso le salie. A soutranho, yá nun quedemos juntos, que deixou l seminário. Nun l tornei a ber. Muitos anhos apuis, inda an Bergáncia, soube la nobidade: matórun a Nuno Galvão na guerra, an Moçambique. Cuntaba-se que yá tenie ua rapazica pequerrixa, que nunca coinci. Alguns anhos a seguir, bieno l 25 de Abril i acabou cula guerra quelonial: tamien you stube nesse die i lhembra-se-me de pensar que l sangre se habie arrecolhido al burmeilho de ls crabos, l sangre tamien de Nuno Galvão i outros: siempre mirei pa esses crabos dun modo special. A el inda l beio, moço, a cuntar bersos cumo quien çpara ua matralhadora, que ls poetas nunca se muorren, nunca ls bersos se cálhan, que sous bózios nunca cáben nas fuolhas. Quien me dira inda tener aqueilhas fuolhas de papel als quadricos - de quei screbiemos nós cun catorze anhos? - i neilhas ampalpar que nin todo era malo.
Scribo esta crónica cumo houmenaige al miu amigo i poeta Nuno Galvão, de Milhão, porque hai dies me lhembrei del, al ler algo que me eimocionou. Nua palhestra subre l 25 de Abril, un garotico de 7 anhos preguntou-le al tiu de MFA que alhá staba a falar: porque nun fazistes l 25 de Abril mais cedo? Assi, yá nun haberien matado na guerra a miu abó, nin miu pai quedado sin pai quando tenie la mie eidade.


