segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Regresso à terra

Há muitos anos que deixou de se utilizar a expressão "ir à terra". Esta expressão servia de arreliação aos naturais de Lisboa ou Porto por não terem "terra". Estas grandes massas de população que desenvolvem as capitais e as preenchem, nunca perdem a vontade de periodicamente voltarem ao sítio onde nasceram, onde reencontram as suas raízes e quantas vezes regeneram a alma para regressar ao bulício das grandes cidades. Mas nestes encontros de muita gente, os naturais das grandes cidades não entendiam muito bem este sentido do "ir à terra". E nós, ou eu particularmente, dizia-lhes que eles não tinham "terra". Lisboa e Porto não são "terras". Aqui parece ilustrar-se bem o termo saudade. Talvez por essa necessidade de sentir a proximidade às "terras" permitiu o desenvolvimento das Casas Regionais.

Esse movimento não se aplica, contudo, à minha pessoa. Tenho um sentido de voltar à "terra" orientado por outras práticas que não, forçosamente, deslocar-me ao sítio. Em Lisboa tenho a presença constante de Trás-os-Montes e Alto Douro através de uma prática continuada ligada à cozinha e à mesa. Se é de Folar, ou de Bola Sovada, abasteço-me na Nilde. E já sei também onde encontro porco bísaro e vitela mirandesa, se as saudades são de outro apetite. Lá vou cozinhando em casa, ou presenteando-me em casa de outros patrícios com refeições que bem me fazem lembrar a "terra". A sorte de ter sido educado, até ser adulto, em Bragança, e ter havido ainda a tradição das refeições em família, instalei, instintivamente, umas fórmulas decorrentes da educação do gosto, que ainda mantenho. A tradição da mesa é dos capítulos com que os portugueses, de uma maneira geral, celebram as saudades das suas origens. Por isso mantem-se uma bolsa de tradições alimentares um pouco por todo o mundo. O exemplo mais recente de instalação de uma tradição portuguesa que entrou nos hábitos alimentares de um país, é o nosso Bacalhau à Gomes de Sá (traduzido por Gratin de Morue), que é quase um prato nacional do Luxemburgo. Não sabem o que estão a perder estas novas gerações que, por comodismo, e alguma preguiça educacional, rapidamente decoram o número de telefone do distribuidor de pizzas!

Este ano, pelo Natal, voltei à "terra". Época de fartura, que relembra a quebra do jejum imposto ainda na época medieval, que obrigava à penitência da gula durante um tempo alargado. Por isso na véspera ainda comemos o bacalhau e o polvo, e a partir da meia-noite, ou depois da Missa do Galo, começava-se com as carnes. O peru que veio, por moda, substituir o galo ou o capão. A alteração carnívora mudou, por facilidades? Ou um simples acesso à novidade? Estes festejos natalícios são bem o exemplo da absorção pelos crentes dos festejos profanos do antigamente. Neste data celebrava-se o solstício invernal até à fixação do dia 25 como a data da comemoração do nascimento de Cristo pelo Papa Júlio I no século IV.

Os doces com a grande variedade que agora se apresenta, será uma tradição instalada a partir do século XVI com a chegada a Portugal do açúcar de cana do Brasil. E claro o Bolo-rei mais recente, século XIX, que se transformou num doce nacional.

Repito que para mim "voltar à terra" não é necessária a deslocação geográfica. Mais importante é o manter das tradições que me deslocam emocionalmente. E com grande incidência à MESA.

Mas este ano "voltei à terra" para passar o Natal. Assisti a alguns progressos e comentei em laia de lamento alguns aspectos. Aplausos para a divulgação cultural dos cinco museus em Bragança. Mas porque fecham todos à segunda-feira? Às segundas não podem visitar museus? E porque não um ou dois fecharem às terças-feiras? Assim, quem sabe, muitos turistas não ficariam mais um dia? Já em anterior visita aplaudi a cafetaria do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. Fiquei surpreendido com a oferta de doçaria com incidência em castanhas, e com qualidade. Lá voltei e não havia nada com castanhas. Teria que encomendar. Não é assim que se marca uma referência que atrai clientes e se fidelizam. Já agora, a propósito de castanhas, a nossa terra foi pródiga em abastecimento até que estas foram destronadas pelas batatas. Não havia um receituário de doçaria que as incluísse. Nestes tempos de nova tendência culinária, em que a essência da qualidade passa que excelência dos produtos, acho muito bem que se inventem todas as receitas com castanhas aí produzidas. Lembro-me bem do Ouriço de Castanha e também do Marron Glacé. E porque não abandonar estar designação clássica da doçaria francesa, e como as nossas são diferentes, e chamar-lhe Castanha Glaceada com Chocolate?

Não pensem que estou a referir apenas desgraças. Há vários restaurantes que gosto bem de frequentar e são uma referência gastronómica regional. Cada um no seu género mas os meus preferidos são o "Geadas" e o "Manel".

Mas a região tem evoluído bastante e vou referir apenas dois restaurantes que já são uma marca a nível nacional: "Flor de Sal" em Mirandela e "D.O.C." entre a Régua e o Pinhão. Estes dois restaurantes representam a nova modernidade e também a forma como defender os produtos do "terroir" com confecções novas mas oriundas da tradição. Só consegue fazer cozinha contemporânea, ou moderna, aquele que dominar as artes tradicionais. No "Flor de Sal" pontua o Chefe Manuel Gonçalves e no "D.O.C." o Chefe Rui Paula que recentemente publicou um encantador livro no qual apresenta a sua cozinha. Curiosamente apresenta duas receitas com a designação da região: "Milhos à Transmontana" e "Cabritinho Transmontano".

Recentemente foi apresentado em Lisboa o livro "Palavras do Olival" da autoria de António Manuel Monteiro, editado por João Azevedo Editor, ambos de Mirandela. Tive a honra de apresentar esta obra a pedido do autor. Para mim este livro é um dos melhores três livros de 2008. Findos os discursos foi a vasta assistência presenteada com um cocktail, verdadeiro banquete de degustação à volta da azeitona e do azeite e que deixou os lisboetas boquiabertos com a variedade e excelente confecção. Para isso contribui o Chefe Manuel Gonçalves, a Escola de Hotelaria de Mirandela e a Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para vos levar a salivar neste início de ano vou citar as iguarias servidas: Sopa de abóbora com gengibre e um fio de azeite extra virgem de Trás-os-Montes e lascas de queijo Terrincho, Alcaparras de azeitonas transmontanas, Pasta de azeitonas, Bola sovada, Almôndegas de negrinhas de Freixo, Tronco de alheira, Pudim azeitado, Palitos azeitonados, Pães de azeite e azeitona, Marmelada de madurais, Bola de porco bísaro, Tostinhas com alheira, Queijo Terrincho em azeite, Torradas com azeite novo, Rojões de porco bísaro, Torta de laranja com pasta de azeitona, Bolachas de azeite e azeitona e Chá de rebentos ladrões das verdeais. Claro que com vinhos da região a acompanhar. Transmontanos no seu melhor!

Afinal como iniciei esta crónica verificamos que tão bom pode ser ir "à terra" como a "terra" vir até nós. E muito mais haveria para escrever.


BOM ANO e BOM APETITE !

© Virgílio Gomes, virgiliogomes@virgiliogomes.com

Consoada 2008

Decorreu no passado dia 19 de Dezembro, na nossa Sede, a tradicional ceia de Natal para associados e amigos. Os participantes, imbuídos do espírito da quadra, começaram a chegar cedo, ansiosos que estavam de rever amigos e actualizar conversas.

Como Virgílio Gomes diz no seu espaço nesta edição do jornal, há muitas formas de um trasmontano ir à terra. E uma delas, muito fácil e barata, é vir à Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro. Frequentá-la e participar nas suas actividades, estimulando dessa forma todos os que aqui trabalham, a fazer mais e melhor. E vão ver como a terra fica perto. Voltando à noite especial, verificada a distribuição pelas mesas, dirigiram-se os presentes para os salões que rapidamente se encheram, para petiscar as entradas, antes do típico bacalhau cozido, com o acompanhamento habitual. Pena foi que se tivessem gorado todos os esforços para se conseguir, também, raba para cozer.

É que dias antes, para o jantar da tomada de posse do Conselho Regional, o nosso associado Dr. Abel Moutinho teve a "infeliz" ideia de trazer, da sua terra, uma raba de quase 4 kg. A maior parte dos presentes, que nunca tinha comido este delicioso tubérculo, exigiu que para a ceia, tudo fizéssemos para juntar raba à ementa. Tudo fizemos de facto, mas quanto a raba...nada (por favor respeite o leitor as reticências e não leia rabanada, que essas lá estavam no final para serem convenientemente acompanhadas por espumante).

No final, trocaram-se prendas, ouviram-se loas natalícias, e depois, já de corpo satisfeito e espírito aquecido e reconfortado, todos nos despedimos com votos de Boas Festas e Próspero Ano Novo.

Tinha assim chegado ao fim esta espécie de ensaio para a tão desejada CEIA EM FAMÍLIA que chegaria dali a cinco dias.

sábado, 24 de janeiro de 2009

"Gostaria de morrer naquela noite"

Um livro de Fernando Chiotte

por Antònio Cepêda


Acompanhado do seu editor Alexandre Gabriel da Zéfiro, esteve o autor na nossa Casa, no passado dia 6 de Novembro, tal como anunciado no anterior nùmero do NTMAD, para lançar e promover o seu mais recente livro, intitulado "Gostaria de morrer naquela noite".

Embora a assistência pecasse por reduzida, nem por isso se escusou Fernando Chiotte a falar-nos, em tom familiar e coloquial, sobre os acontecimentos que sustentaram a atmosfera criada no seu romance. Na sessão, que não podia deixar de enfatizar as suas raìzes brigantinas, foram tecidas resumidamente as principais tramas que enformam o livro e ficou aberta a a garrafa de onde brotarâo, para os leitores, as sensaçôes e as vivências que o autor pretende transmitir.

A CTMAD só pode estar agradecida a Fernando Chiotte por nos ter escolhido para a divulgação da sua magnífica obra que, desde então, se encontra à venda na nossa sede, ao preço de 15 €.

Parabéns, caro conterrâneo e votos de continuaçãoda sua profícua produção literária, a par, é claro, da exemplar e muito conceituada actividade médica que vem desempenhando.

____________________________
Fernando Jorge Chiotti Tavares nasceu em Bragança a 11 de Novembro de 1936, tendo-se licenciado em 1967 pela Faculdade de Medicina de Lisboa. É especialista em Oftalmologia pela Ordem dos Médicos. Fez o cursos de pós-graduação em Laserterapia Oftalmológica, como assistente no Hospital Universitário de Gent, Bélgica. É Chefe de Serviço de Oftalmologia no Hospital de Santa Maria, aposentado. É também Presidente da Sociedade Portuguesa Interdisciplinar de Laser Médico. É sócio da SOPEAM - Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos. Autodidacta, trabalhou durante dois anos sob a orientação dos pintores Manuela Pinheiro e Vitor Belém. Os seus trabalhos figuram em colecções particulares em Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Bélgica. Dedicou-se à escrita, e publicou o seu primeiro romance em Março de 2000, O Fechar do Círculo. Com esta obra ganhou o Prémio da Revelação-Ficção e Ensaio 1999 da SOPEAM. O seu segundo romance, com o título Cova de Lobo foi publicado em Outubro de 2001. Foi apelidado de "obra de fôlego" pelo Júri de Selecção de Novos Autores Portugueses 2001 do IPLB. Em Dezembro de 2003 foi publicado o seu terceiro romance Soltam-se as Amarras, tendo recebido a primeira menção honrosa da SOPEAM.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

sábado, 3 de janeiro de 2009

Ola' Minha Gente

por José Augusto Coelho


Olá minha terra minha gente
Olá brisa que te comi com pão
De sementeiras de um trigo fulgente
Semeado a pulso dolente
Nas aradas rasgadas à mão

Minha eira de chão lambido
Pelo marasmo do tempo que passa
Pão e lágrimas em ti esquecido
Onde estás trigo vestido
Com grãos da minha fogaça

Suor escaldante no rosto
Que o vento norte lambia
As rugas da gente de Agosto
Nas esquinas de sol-posto
Trilhavas o pão de cada dia

Minha terra minha gente
Meu cântico adormecido
Candeia da minha mente
Luz da minha semente
Fonte do meu sentido

Onde estás quartilho de vinho
Que entravas no forno da alma
Na taberna do meu caminho
Fazias dançar o copinho
No rosto da tarde calma

Horizontes que tocam o céu,
Escondem lágrimas suor e castigo
As searas ondeavam ao léu
Num aroma a feno que é teu
De ti meu canto de abrigo

Trindades da madrugada
Afonia sem madrigal
Já não chamam
Já não clamam
Por ti minha gente leal

sábado, 20 de dezembro de 2008

INAUGURADO O MUSEU DO DOURO, NA RÉGUA

A sede do Museu do Douro, localizada na Casa da Companhia, no Peso da Régua, foi inaugurada hoje, 20 de Dezembro. A cerimónia contou com a presença do Primeiro-Ministro, José Sócrates.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Contrato da Concessão da Auto-Estrada Transmontana assinado um ano após lançamento do concurso

Do "Notícias de Vila Real" online transcrevemos:

O Primeiro-Ministro, José Sócrates, presidiu ontem, dia 10 de Dezembro, em Bragança, à cerimónia de assinatura do Contrato de Concessão da Auto-Estrada Transmontana, um ano após o lançamento do concurso.

O evento teve lugar 15 dias após a assinatura do Contrato da Concessão do Douro Interior, que ocorreu a 25 de Novembro. Passados apenas 12 meses sobre o anúncio do Concurso, torna-se possível avançar para a concretização do Projecto com a assinatura do respectivo Contrato. A entidade adjudicatária é o grupo intitulado Auto-Estrada XXI, liderado pela empresa Soares da Costa.

A AE Transmontana foi bastante disputada: apresentaram-se a concurso seis consórcios, envolvendo 44 empresas. Com uma extensão total de 186 quilometros, 130 dos quais são de nova construção, a Concessão da Auto-Estrada Transmontana beneficiará directamente os concelhos de Amarante, Vila Real, Sabrosa, Murça, Alijó, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança, abrangendo cerca de 250 mil habitantes.

O lanço a construir vai ligar Vila Real a Bragança em perfil de Auto-Estrada e unir-se-á a vias de menor dimensão já em serviço: a que liga Amarante a Vila Real, a Variante de Bragança e a Ponte de Quintanilha (as três integram o actual IP4, somando 56km), que se mantêm em regime de exploração. O investimento com a construção inicial por parte do adjudicatário está estimado em 440 milhões de euros (valor inferior ao anunciado pelo Governo no lançamento do processo concursal), prevendo-se que o total ronde os 800 milhões de euros.

A construção desta via deverá induzir uma redução da taxa de sinistralidade grave na ordem dos 65%. Se tivermos em conta os 30 anos da Concessão, significará uma diminuição média de 19 mortos por ano; por outro lado, a redução de 65% dos feridos graves traduzir-se-á em menos 23 feridos graves por ano. A Auto-Estrada Transmontana trará ainda uma diminuição de 45% dos feridos ligeiros: nos 30 anos concessionados isto representará em média cerca de menos 147 feridos sem gravidade por ano.

Um empreendimento com estas características deverá gerar à volta de nove mil empregos. A redução do tempo de percurso é outra vantagem da AE Transmontana. Vejamos alguns exemplos:
- A viagem entre o Porto e Bragança diminuirá 44 minutos (29%);
- O percurso Porto/Vila Real baixará 8 minutos (14%);
- Vila Real/Bragança passará a fazer-se em menos 36 minutos (38%);
- Bragança/Viana do Castelo permitirá uma economia de tempo de 30 minutos
(16%);
- Bragança/Guarda passará a ser um percurso com menos 40 minutos (27%);
- Bragança/Viseu será uma viagem 36 minutos mais curta (26%);
- Bragança/Macedo de Cavaleiros será feita em menos 7 minutos (26%);
- Vila Real/Macedo de Cavaleiros será um percurso com menos 15 minutos.

Saliente-se que mais 70.000 habitantes (de 104.590 para 173.390) ficarão a menos de uma hora de Bragança. Em relação à zona de influência de Vila Real, mais de 1,2 milhão de habitantes (90%) ficarão a menos de uma hora da capital de distrito. O primeiro lanço da AE Transmontana estará pronto em Novembro de 2010, devendo a Concessão ficar concluída em Julho de 2011.

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