domingo, 1 de fevereiro de 2009

Consultório médico

O nosso associado, Prof. Doutor Fernando de Carvalho Araújo, Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Infecciologista pela Ordem dos Médicos, responderá, de maneira simples, concisa e coloquial, às perguntas, sobre DOENÇAS INFECCIOSAS, que os associados da CTMAD e seus familiares lhe queiram dirigir. Para tal, deverão fazer chegar as suas perguntas à CTMAD, Campo Pequeno, 50-3º E, 1000-081 Lisboa ou a ctmad.lisboa@gmail.com



M. M. E. Cruz (Lisboa), pergunta:


A chamada "Febre da Carraça" só se apanha quando as pessoas contactam com os cães portadores daqueles parasitas? É que eu tenho uma sobrinha, recentemente internada num hospital de Lisboa, com esta doença e, todavia, ela nunca lidou, de perto ou de longe, com aqueles animais!... Como se explica isso?


R - A "Febre da Carraça" é uma doença endémica (isto é: uma doença infecciosa, mas não contagiosa de pessoa a pessoa, existente, com relativa frequência, em determinadas regiões e países, sobretudo da zona mediterrânica, na qual, em certa medida, Portugal está incluído.


No nosso País, esta doença designa-se (em termos médicos) por Febre Escaro-Nodular (F.E.N.), em sinal de homenagem ao grande médico Higienista Dr. Ricardo Jorge, notável especialista que lhe dedicou uma atenção de imenso relevo, e que lhe deu esse nome mercê de duas características clínicas, muito sugestivas, presentes na pele dos doentes com F.E.N.: um exantema (erupção cutânea) nodular, constituído por pequenos nódulos, de tom rosado, generalizado por toda a superfície do corpo, abarcando, inclusivamente, o couro cabeludo, a palma das mãos e a planta dos pés e (a outra característica) uma escara, de cor escura - a chamada "mancha negra" - rodeada por um halo inflamatório, avermelhado, correspondente ao local da pele onde a carraça "picou", a qual (escara) é, no entanto, de aparecimento inconstante (observa-se, apenas, em 30-40% dos casos), e pode ser múltipla.


Acompanhando estes sinais clínicos, existem, quase sempre, febre elevada (39-40ºC), violentas dores de cabeça, dos músculos e das articulações e congestão ocular.


A doença é provocada por um microrganismo bacteriano, da família das Rickettsias, que infecta as carraças (sem que elas adoeçam) e a transmitem à espécie humana, por picada ou mordedura.


Passando, agora, ao cerne da sua questão, gostaria de a informar de que (por um lado) os cães não são os únicos animais susceptíveis de serem parasitados por carraças. Com efeito, estes aracnídeos podem, igualmente, parasitar (além dos cães afectivos ou domésticos), cães e gatos "vadios", "porquinhos-da-índia", carneiros, cabras e ovelhas, coelhos bravos e caseiros, lebres, raposas, lobos e, até, certas aves; e (por outro lado) podem "vaguear" livres, na Natureza, enquanto buscam (ao acaso) qualquer "hospedeiro" de sangue quente (e, por conseguinte, o próprio Homem), para a ele se "agarrarem" e o "morderem" e, assim, lhe sugarem o sangue, que é o principal alimento que lhes assegura a sobrevivência. As carraças são, por isso mesmo, chamadas de artrópodes hematófagos.


Essas carraças errantes (infectadas com a tal Rickettsia - o agente microbiano que provoca a F.E.N. no Homem) sobem às árvores, caem no chão, "frequentam" os parques, as tapadas, as matas, os campos e os bosques, os jardins com relva e árvores (das grandes moradias e estâncias de veraneio), "fazendo pela sua vidinha", na procura das "vítimas", que, alheadas do risco que correm, se lhes tornarem mais acessíveis, como sucede com os caçadores, os fãs dos piqueniques ou dos churrascos ao ar livre, os pastores, os militares acampados, os praticantes de caravanismo "selvagem", etc., etc.





A. P. Morais (Vila Real), pergunta:


As acentuadas alterações climáticas, trazendo para as nossas latitudes temperaturas mais elevadas, podem aumentar a ocorrência e propagação de doenças infecciosas?


R - Na minha resposta à sua interessante e oportuna pergunta, bastaria reproduzir "tim-tim por tim-tim", o seu respectivo texto, substituindo, unicamente, o ponto de interrogação final (?) por um ponto de exclamação (!).


Na realidade, como (até finais do séc. XXI) se presume que a temperatura ambiental média, do nosso planeta, deverá aumentar entre 1,5ºC e 3,5ºC, nunca foram tão verdadeiras as "profecias" anunciadas pelos Infecciologistas e Epidemiologistas de todo o Mundo, quando consideraram que as consequências desse fenómeno - a elevação da temperatura global - poderiam ser dramáticas para certas regiões e certos países.


Com efeito, conforme, hoje, se admite, essa alteração climática provocará (se não for contida a tempo) uma notável modificação no comportamento biológico dos animais vectores que transportam, em si próprios, os agentes microbianos infectantes pré-existentes (e predominantes) em latitudes distantes, como sucede relativamente a certas doenças infecciosas graves, como a Febre-amarela, o Dengue, a Febre do Nilo Ocidental e as infecções causadas pelos Hantavirus.


Parafraseando o distinto e ilustre Infecciologista português, Prof. Henrique Lecour, "Um mundo mais quente será, certamente, um mundo mais doente".




NOTA: Sempre que os leitores entendam não ter ficado esclarecidos sobre as questões que apresentaram, não hesitem em comunicar, outra vez, connosco.


EDITORIAL - Um ano chegou ao fim. Outro se segue na seta do tempo.

Antes do mais, os meus votos de um Bom Ano para todos os leitores e seus familiares.
Foi há cerca de 10 meses e meio que assumimos a grande responsabilidade pelos destinos da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.


Sabíamos não ser fácil pegar e continuar a obra que a anterior Direcção levara a cabo. Por esse motivo, hierarquizámos objectivos, estabelecemos rumos, repartimos tarefas e seguimos em frente com a consciência das dificuldades, mas ao mesmo tempo com a autoconfiança necessária para as vencer com a sinergia resultante de um trabalho verdadeiramente cooperativo em que numa interdependência positiva, todos e cada um por si foram responsáveis pela qualidade do trabalho produzido. Os factos «falam» por si.

Prevendo os Estatuto que as reuniões da Direcção sejam quinzenais, deveríamos ter realizado no ano que findou cerca de 19 reuniões. Ora a Direcção reuniu 32 vezes e com uma média de presenças dos seus membros de 82 % e, em algumas das reuniões, com a presença de membros de outros órgãos sociais e de associados cuja presença se reclamava pela natureza das tarefas a levar a cabo.

Ao longo destes 10 meses e meio foram realizadas para cima de 45 actividades, o que dá uma média de mais de 4 actividade por mês, ou seja de mais de uma actividade por semana. Conta-se, evidentemente, com tudo o que aconteceu na nossa Casa, dentro ou fora da sua Sede.

Temos a consciência tranquila pelo dever cumprido, o que não significa que não estejamos conscientes que é sempre possível fazer-se mais. Todas as actividades, independentemente do local e dos protagonistas, foram importantes e contribuíram, no seu todo, não só para o enriquecimento cultural e humano de muitos associados, mas também para que o número dos que pagam as quotas tenha aumentado cerca de 15 % em menos de um ano, o que é bom. Conseguimos, graças ao dinamismo introduzido na nossa Casa, valorizar a Sede, com a melhoria substancial introduzida nas instalações sanitárias e na cozinha, o que permitiu uma reanimação da zona de convívio da Casa com actividades tão diversas como tertúlias quinzenais e almoços e jantares de confraternização. Mas, por outro lado, valorizámos também o património da Sede, com a aquisição de um data show que já desempenhou o seu papel fundamental, não só no excelente debate que ocorreu em torno do desenvolvimento sustentável do Vale do Tua, mas também na excelente apresentação multimédia apresentada pelo Dr. Altino Cardoso e ainda na tertúlia cultural moderada pelo Dr. António Chaves que se antevê mobilizadora de cada vez mais associados interessados no desenvolvimento sustentado da nossa região.

Na sempre angustiante questão da nova Sede, os ventos que sopram dos lados da Câmara Municipal trazem boas notícias: Já foi ultrapassada a fase de discussão pública do novo loteamento sem que houvesse qualquer contestação ou levantamento de problemas que ferissem os nossos interesses, mas o «apetite» devorador de grandes poderios económicos na mais valiosa área de Portugal para a qual a nossa nova Sede está prevista leva-nos a ser prudentes e a não «cantar de galo» antes de «o preto no branco» se concretizar.

Adivinha-se um ano complicado para o nosso país e não só. É natural que a crise se venha a reflectir na nossa Instituição, mas se ela puder contar com o apoio de todos os seus associados, a começar pelo pagamento atempado das suas quotas deste ano e de anos anteriores se ainda o não fizeram, estamos certos que o nosso «barco» poderá oscilar mas manter-se-á a «bolinar».

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Tomada de posse do Conselho Regional

Decorreu no passado dia 11 de Dezembro, a tomada de posse do CR - Conselho Regional.
O salão nobre da Casa foi pequeno para acolher os que a ela se deslocaram para participar ou assistir ao solene acto.

Nos termos estatutários, presidiu ao acto e deu posse aos respectivos conselheiros, o presidente da Assembleia-geral da CTMAD, Prof. Guilhermino Pires coadjuvado pelos vice-presidente e secretária da Mesa, respectivamente Drs. Artur do Couto e Anabela Martins.

Iniciaram-se os trabalhos com palavras proferidas pelos referidos presidente e vice-presidente e ainda pelo presidente da Direcção Prof. Jorge Valadares. Todos eles chamaram a atenção para a importância de que este órgão da CTMAD se reveste, nomeadamente enquanto órgão consultivo da Direcção e fórum interlocutor da Casa com os 35 concelhos que a compõem.

Após os formalismos da tomada de posse, seguiu-se a primeira reunião do CR para eleição da Mesa que há-de dirigir as suas reuniões. Foram eleitos, por largo consenso dos presentes, como presidente, Dr. Duarte Guedes Vaz, de Santa Marta de Penaguião, como vice-presidente, Dr. Serafim de Sousa, de Vila Real e como secretário, José Teixeira Castro, de Chaves.

No final da primeira reunião do CR, seguiu-se um jantar/convívio com representantes dos outros órgãos sociais da CTMAD.

À margem da notícia:
Lamentavelmente, nem todos os concelhos trasmontano/altodurienses se fazem representar no CR.
Esta Direcção não se tem poupado a esforços para atrair associados para o Conselho, contactando inclusivamente os municípios respectivos para que sugerissem elementos que pudessem integrar o CR. Alguns desses contactos deram frutos, outros foram disponibilidades espontâneas de associados, outros ainda resultaram de desafios lançados pela Direcção a outros associados.
Mesmo assim existem municípios que não estão representados no CR. De acordo com o regulamento deste órgão, o número ideal de representantes concelhios deve ser três.
Destacando pela positiva os concelhos que estão plenamente representados, teremos de nos referir a Bragança, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Vila Real.
Quatro concelhos têm dois representantes, doze são representados por um conselheiro e quinze concelhos não se fazem, ainda, representar no CR.
Foi esta a tónica posta nas intervenções atrás referidas, devendo os conselheiros recém empossados bem como a Direcção da Casa, continuar a demanda na procura de mais elementos para este órgão, enriquecendo-o em qualidade e quantidade.

Fica o apelo.

"Novo Cancioneiro do Alto Douro" vol. II

Um livro de Altino Cardoso


A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa promoveu na Sede, em 13 de Dezembro último, a apresentação multimédia do segundo volume do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO*, do associado Altino Moreira Cardoso, violinista do antigo Grupo de Cantares da Casa. Além de muitas e variadas músicas tradicionais, foram projectadas belas fotos do Douro e importantes dados histórico-literários.

Às cantigas da Vinha do primeiro volume juntam-se agora músicas instrumentais de Tuna, de Natal, de Reis, de Embalar, Rimances (a maior parte medievais), cantigas do Trabalho, Religiosas, Desgarradas (cantigas ao desafio).


Trata-se de um projecto apaixonante, erguido em largos anos, com cerca de 1150 músicas, letras e um grande estudo histórico-literário, em 3 grossos volumes, cada um com 640 páginas.

Do Volume III, a sair brevemente, constará uma análise histórico e literária dos poemas mais valiosos das nossas cantigas, nomeadamente o enquadramento dos vestígios das Cantigas Populares de Amigo medievais nas circunstâncias históricas que, quase providencialmente, ligaram a fundação de Portugal ao Conde D. Henrique (natural da Borgonha e primo de São Bernardo, o implantador de Cister no vale do Varosa e depois em Alcobaça) e a Egas Moniz, senhor destas terras, em cuja Casa, em Britiande (Lamego), foi criado D. Afonso Henriques (órfão aos 3 anos) e seu filho D. Sancho I.

Acresce ainda que nessa mesma altura foi erigida a Catedral de Santiago de Compostela, cuja força militar está sobejamente documentada na ajuda a Portugal e, culturalmente, na difusão das belíssimas Cantigas do galego-português estudadas nas nossas Escolas - que ainda hoje mantêm vestígios flagrantes de continuidade em muitas letras das nossas cantigas populares, como este Grande Cancioneiro demonstra de modo muito claro.

A presença da Borgonha significa que as melhores castas, tecnologias vitivinícolas e organização empresarial ('boa cepa', a Borgonha) vieram com S Bernardo e a Ordem de Cister para o Douro de Egas Moniz, já desde o século XII.

Os 'vinhos de Lamego' precederam a saga dos 'vinhos do Porto', antes da demarcação da Região, logo que a excelente e abundante produção do vale do Varosa começou a ser comercializada e exportada, através da barra do Douro. Centenas ou milhares de pipas, ainda na Idade Média.

Torna-se evidente que os mosteiros e empresas cistercienses do eixo Lamego-Tarouca assumem um estatuto cultural, económico e patriótico ímpar na História, na Economia, na Gestão do novo Reino e na Cultura de Portugal.

Ainda hoje o espumante Murganheira conserva no seu logotipo a nobre Flor-de-lis do Conde D. Henrique e dos Duques de Borgonha e Reis de França.

Na nossa Terra existe uma Cultura de grande profundidade histórica, em todos os aspectos da actividade humana; e o nosso Douro não é só o vinho, das vinhas saibradas pelos galegos, mas também as suas e nossas belas e milenares cantigas tradicionais.

Divulgar o que é nosso é um Dever de pessoas de cultura e comunicação.

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*Edições Amadora-Sintra

Reconhecimento e agradecimento a colaboradores da CTMAD

por António Cepêda

Realizou-se no passado dia 5 de Dezembro, na Sede da CTMAD, um jantar de homenagem a alguns dos colaboradores que, desinteressadamente, têm dado o seu imprescindível contributo para que os eventos da Casa agradem a quem neles participa.

É justo, pois, destacar e louvar a acção de todos quantos, na sombra, organizam, preparam e distribuem as iguarias com que nos regalamos nas nossas festas sempre com um sorriso na face, como se de um negócio chorudo para eles se tratasse. E no entanto é apenas a solidariedade e amizade que os move, é o espírito de bem servir e de dedicação que os anima, são somente chamas de boa vontade e de amor pela nossa causa regional que depois fazem aquecer de alegria os corações de quantos nos visitam.

Estou-vos a falar de um grupo de amigos, liderado pelo nosso Vogal da Direcção Manuel Augusto Martins e constituído pelos Srs. Avelino Ferreira, José Gomes, Manuel Guedes, Nelson Morais, Pedro Contente e Tiago Ferreira, a quem prestamos, deste modo singelo, um preito de homenagem, reconhecimento e gratidão por tudo quanto têm feito pela nossa Casa desde há já mais de 4 anos.

Convidados, também, para tal jantar estiveram presentes os elementos do GRUPO MARANUS, nossos associados de há muito reconhecidos como embaixadores musicais da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro e que não podiam faltar num acontecimento que visava agradecer, igualmente, quem tanto tem feito pela divulgação e animação da nossa associação regionalista.

Bem hajam, pois, Araci Martins, Artur Alves, Marcolino Pinheiro e José Augusto Coelho, pelo vosso continuado e indefectível apoio. Nunca é demais felicitar-vos pelo dinamismo que emprestam a todos os convívios promovidos pela CTMAD Faltam palavras para exprimir o quanto a nossa Região vos deve por darem voz às cantigas do nosso povo e oxalá não vos falte o ânimo para continuarem a ser porta vozes do cantares transmontanos e alto durienses.

Foi um jantar onde o que menos contou foi a refeição. O importante foi a atmosfera ali vivida. No ar perpassaram sentimentos de gratidão para com quem tem ajudado a CTMAD a ser o que sempre foi e que continuará a ser: um espaço aberto às causas regionalistas e ao convívio das suas gentes. O ambiente, naquela noite de 5 de Dezembro parecia o de Natal. Um jantar de amigos que mais amigos ficaram, onde a fraternidade imperou e a amizade se cimentou.


Comenius Regio

Novo Programa de incentivo à Mobilidade Escolar

por António Chaves

No passado mês de Novembro foi apresentado, em Bruxelas, o Programa Comenius Regio, que possibilita aos alunos portugueses - do ensino pré-primário ao final do secundário - a deslocação temporária, para estudo, numa região de outro país da União Europeia. No âmbito deste programa é possível não só contactar com estudantes locais, como acontece noutras acções de intercâmbio escolar, mas também participar nas actividades de um clube desportivo, frequentar uma biblioteca, ou visitar um museu, ou ainda actuar em grupos de trabalho ligados a sectores económicos com potencial no mercado de trabalho, ou simplesmente conhecer melhor o sistema de ensino do país anfitrião. O programa envolve também os professores que em contacto com os seus pares e estabelecimentos de ensino podem tomar contacto com boas práticas de ensino e diferentes experiencias de formação. Esta participação abrange, também, os próprios funcionários das escolas.

O Comenius Regio está inserido no quadro geral do Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida 2007 - 2013 da União Europeia, que já incluía, nomeadamente, os seguintes subprogramas: Comenius (ensino pré-escolar e ensino escolar até ao final do ensino secundário), Erasmus (ensino superior), Leonardo da Vinci (ensino e aprendizagem em estabelecimentos e organizações que oferecem ou promovem essa educação e formação) e Programa Grundtvig (ligado a todas as formas de educação para adultos).

Este novo programa de incentivo à mobilidade, diferentemente do programa Comenius, já existente, tem como vocação o fomento de novas oportunidades de cooperação regional, a nível de ensino. Neste caso o objectivo "não é envolver directamente os alunos, mas sim promover o desenvolvimento de cooperação estruturada entre as regiões parceiras do programa", englobando, neste processo, outros agentes de educação que vão disseminar no processo educativo, os benefícios colhidos no Comenius Regio.

As parcerias estão limitadas a duas regiões (uma delas tem de fazer parte da UE), que acordam o tema a abordar, em função do meio em que cada escola se insere. Educação para o empreendorismo, redução do abandono escolar, novas abordagens educativas - são, apenas, alguns exemplos, dentre um vasto leque de opções.

As candidaturas ao Programa Comenius Regio devem ser entregues até 20 de Fevereiro de 2009; os candidatos vão ser seleccionados durante o Verão e as acções efectivas podem arrancar em Agosto. As candidaturas devem contar com uma autoridade local ou regional, pelo menos uma escola e uma ou mais instituições exteriores à mesma, mas relevantes para a Educação (clubes de jovens, associações de pais, clubes desportivos, empresas, etc.).

Aprender a aprender, aprender em parceria e aprender ao longo da vida são as traves mestras deste programa com um orçamento anual de 16 milhões de euros e uma duração de dois anos. Na opinião de Jan Figel, Comissário responsável pela área, esta é "a melhor forma de aproximação política" entre os povos e constitui uma boa contribuição para a modernização do sistema escolar europeu.

Experiencias nesta linha de aproximação dos povos têm já uma relevante trajectória de sucesso. O subsídio de férias apareceu em primeiro lugar em França em 1936, e a partir daí generalizou-se rapidamente a todos países da Europa Ocidental. Daqui resultou um incremento enorme do turismo e um contacto directo entre pessoas de diferentes culturas e origens como não seria possível imaginar antes. O desenvolvimento das comunicações e o turismo foram os principais vectores de aproximação das pessoas comuns ao logo do século xx, fazendo cair ideias feitas e preconceitos cimentados ao longo de séculos.

Posteriormente à Segunda Grande Guerra, a França e a Alemanha desenvolveram um intenso intercâmbio de contactos entre jovens com a finalidade de amortecer os ódios e sequelas do conflito bélico que se saldou em 56 milhões de mortos. A União Europeia é já responsável pelo mais longo período de paz na Europa. A ideia de que o Estado Nacional nos salva está completamente desajustada. É o preconceito preestabelecido por quem manobrou, com base no medo, a ordem social e política.

A verdadeira liberdade resulta da capacidade da sociedade civil resolver os problemas que lhe vão surgindo pela frente.

Por isso incito os transmontanos a aproveitar esta singular oportunidade que privilegia as novas experiências, o conhecimento, o contacto concreto entre pessoas reais, sem crivos ou preconceitos. É cada vez mais claro que as regiões mais periféricas e enfraquecidas estão contaminadas pelo vício do subsídio tóxico, ao mesmo tempo que se instala na democracia local uma espécie de ditadura branda que dita o que está certo ou errado e onde apenas os grupos e personalidades instaladas têm o efectivo direito à liberdade de expressão.

Os principais beneficiários deste tipo de programas não são, normalmente, os que mais deles necessitam, mas os que revelam capacidade e iniciativa para elaborar e apresentar projectos elegíveis. Aí está uma boa oportunidade para os agentes de educação evidenciarem, na prática a sua efectiva identificação com as necessidades e anseios das comunidades locais e regionais em que se integram.

Dentro do espaço comunitário europeu, Portugal continua a sobressair, pela negativa, nas percentagens de jovens com baixa literacia, no abandono escolar (antepenúltimo), nível de ensino concluído (em último lugar) e aprendizagem ao logo da vida (sexto a contar do fim). Conhecendo as diferenças de nível de desenvolvimento do interior norte relativamente à média nacional, é fácil concluir que não é possível deixar perder oportunidades como esta, se verdadeiramente lutamos pelo progresso das nossas terras, ou nos limitamos às tiradas de circunstância, para fins nem sempre confessados. É também uma excelente oportunidade para as forças partidárias locais mostrarem que estão realmente ao serviço do povo e não apenas interessadas no exercício do poder.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Regresso à terra

Há muitos anos que deixou de se utilizar a expressão "ir à terra". Esta expressão servia de arreliação aos naturais de Lisboa ou Porto por não terem "terra". Estas grandes massas de população que desenvolvem as capitais e as preenchem, nunca perdem a vontade de periodicamente voltarem ao sítio onde nasceram, onde reencontram as suas raízes e quantas vezes regeneram a alma para regressar ao bulício das grandes cidades. Mas nestes encontros de muita gente, os naturais das grandes cidades não entendiam muito bem este sentido do "ir à terra". E nós, ou eu particularmente, dizia-lhes que eles não tinham "terra". Lisboa e Porto não são "terras". Aqui parece ilustrar-se bem o termo saudade. Talvez por essa necessidade de sentir a proximidade às "terras" permitiu o desenvolvimento das Casas Regionais.

Esse movimento não se aplica, contudo, à minha pessoa. Tenho um sentido de voltar à "terra" orientado por outras práticas que não, forçosamente, deslocar-me ao sítio. Em Lisboa tenho a presença constante de Trás-os-Montes e Alto Douro através de uma prática continuada ligada à cozinha e à mesa. Se é de Folar, ou de Bola Sovada, abasteço-me na Nilde. E já sei também onde encontro porco bísaro e vitela mirandesa, se as saudades são de outro apetite. Lá vou cozinhando em casa, ou presenteando-me em casa de outros patrícios com refeições que bem me fazem lembrar a "terra". A sorte de ter sido educado, até ser adulto, em Bragança, e ter havido ainda a tradição das refeições em família, instalei, instintivamente, umas fórmulas decorrentes da educação do gosto, que ainda mantenho. A tradição da mesa é dos capítulos com que os portugueses, de uma maneira geral, celebram as saudades das suas origens. Por isso mantem-se uma bolsa de tradições alimentares um pouco por todo o mundo. O exemplo mais recente de instalação de uma tradição portuguesa que entrou nos hábitos alimentares de um país, é o nosso Bacalhau à Gomes de Sá (traduzido por Gratin de Morue), que é quase um prato nacional do Luxemburgo. Não sabem o que estão a perder estas novas gerações que, por comodismo, e alguma preguiça educacional, rapidamente decoram o número de telefone do distribuidor de pizzas!

Este ano, pelo Natal, voltei à "terra". Época de fartura, que relembra a quebra do jejum imposto ainda na época medieval, que obrigava à penitência da gula durante um tempo alargado. Por isso na véspera ainda comemos o bacalhau e o polvo, e a partir da meia-noite, ou depois da Missa do Galo, começava-se com as carnes. O peru que veio, por moda, substituir o galo ou o capão. A alteração carnívora mudou, por facilidades? Ou um simples acesso à novidade? Estes festejos natalícios são bem o exemplo da absorção pelos crentes dos festejos profanos do antigamente. Neste data celebrava-se o solstício invernal até à fixação do dia 25 como a data da comemoração do nascimento de Cristo pelo Papa Júlio I no século IV.

Os doces com a grande variedade que agora se apresenta, será uma tradição instalada a partir do século XVI com a chegada a Portugal do açúcar de cana do Brasil. E claro o Bolo-rei mais recente, século XIX, que se transformou num doce nacional.

Repito que para mim "voltar à terra" não é necessária a deslocação geográfica. Mais importante é o manter das tradições que me deslocam emocionalmente. E com grande incidência à MESA.

Mas este ano "voltei à terra" para passar o Natal. Assisti a alguns progressos e comentei em laia de lamento alguns aspectos. Aplausos para a divulgação cultural dos cinco museus em Bragança. Mas porque fecham todos à segunda-feira? Às segundas não podem visitar museus? E porque não um ou dois fecharem às terças-feiras? Assim, quem sabe, muitos turistas não ficariam mais um dia? Já em anterior visita aplaudi a cafetaria do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. Fiquei surpreendido com a oferta de doçaria com incidência em castanhas, e com qualidade. Lá voltei e não havia nada com castanhas. Teria que encomendar. Não é assim que se marca uma referência que atrai clientes e se fidelizam. Já agora, a propósito de castanhas, a nossa terra foi pródiga em abastecimento até que estas foram destronadas pelas batatas. Não havia um receituário de doçaria que as incluísse. Nestes tempos de nova tendência culinária, em que a essência da qualidade passa que excelência dos produtos, acho muito bem que se inventem todas as receitas com castanhas aí produzidas. Lembro-me bem do Ouriço de Castanha e também do Marron Glacé. E porque não abandonar estar designação clássica da doçaria francesa, e como as nossas são diferentes, e chamar-lhe Castanha Glaceada com Chocolate?

Não pensem que estou a referir apenas desgraças. Há vários restaurantes que gosto bem de frequentar e são uma referência gastronómica regional. Cada um no seu género mas os meus preferidos são o "Geadas" e o "Manel".

Mas a região tem evoluído bastante e vou referir apenas dois restaurantes que já são uma marca a nível nacional: "Flor de Sal" em Mirandela e "D.O.C." entre a Régua e o Pinhão. Estes dois restaurantes representam a nova modernidade e também a forma como defender os produtos do "terroir" com confecções novas mas oriundas da tradição. Só consegue fazer cozinha contemporânea, ou moderna, aquele que dominar as artes tradicionais. No "Flor de Sal" pontua o Chefe Manuel Gonçalves e no "D.O.C." o Chefe Rui Paula que recentemente publicou um encantador livro no qual apresenta a sua cozinha. Curiosamente apresenta duas receitas com a designação da região: "Milhos à Transmontana" e "Cabritinho Transmontano".

Recentemente foi apresentado em Lisboa o livro "Palavras do Olival" da autoria de António Manuel Monteiro, editado por João Azevedo Editor, ambos de Mirandela. Tive a honra de apresentar esta obra a pedido do autor. Para mim este livro é um dos melhores três livros de 2008. Findos os discursos foi a vasta assistência presenteada com um cocktail, verdadeiro banquete de degustação à volta da azeitona e do azeite e que deixou os lisboetas boquiabertos com a variedade e excelente confecção. Para isso contribui o Chefe Manuel Gonçalves, a Escola de Hotelaria de Mirandela e a Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para vos levar a salivar neste início de ano vou citar as iguarias servidas: Sopa de abóbora com gengibre e um fio de azeite extra virgem de Trás-os-Montes e lascas de queijo Terrincho, Alcaparras de azeitonas transmontanas, Pasta de azeitonas, Bola sovada, Almôndegas de negrinhas de Freixo, Tronco de alheira, Pudim azeitado, Palitos azeitonados, Pães de azeite e azeitona, Marmelada de madurais, Bola de porco bísaro, Tostinhas com alheira, Queijo Terrincho em azeite, Torradas com azeite novo, Rojões de porco bísaro, Torta de laranja com pasta de azeitona, Bolachas de azeite e azeitona e Chá de rebentos ladrões das verdeais. Claro que com vinhos da região a acompanhar. Transmontanos no seu melhor!

Afinal como iniciei esta crónica verificamos que tão bom pode ser ir "à terra" como a "terra" vir até nós. E muito mais haveria para escrever.


BOM ANO e BOM APETITE !

© Virgílio Gomes, virgiliogomes@virgiliogomes.com
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