terça-feira, 23 de junho de 2009

O GOSTO EDUCADO PELAS ORIGENS

por Virgílio Gomes


Escrevo do Brasil, em vésperas do Carnaval. Curioso como esta época faz fervilhar toda a gente para os festejos. Eu entretenho-me pacatamente como observador, mas incapaz de me envolver nessa azáfama. Lembro-me dos festejos carnavalescos da minha juventude, meio desorganizados, um pouco espontâneos, mais água menos farinhas, alguns ovos destruídos e quarta-feira de Cinzas com a Morte e o Diabo a atormentar sobretudo moças jovens, e as mais envergonhadas, as maiores vítimas. O Carnaval era como a mistura da alegria dos primeiros dias de Sol entremeados com algum frio, a euforia e desregulamentação da alimentação em relação ao jejum quaresmal. E neste período se comiam os últimos “buchos”, “butelos” e “azedos”. Esperavam-nos quarenta dias sem comer carne às sextas-feiras. Sim, que já tínhamos saído da época medieval, quando o jejum era para todo o período. Claro que aqueles mais abonados, pagando a bula à Igreja, lá eram autorizados a manter os prazeres carnais na alimentação. Sem pecado.

Quando vou para férias alargadas levo comigo sempre três ou quatro livros, da pilha de algumas dezenas à espera de vez de leitura. Tenho uma relação compulsiva com os livros. Quando os vejo, e tenho intenção de ler, compro-os e vão ficando à espera de oportunidade. Na bagagem para esta estadia trouxe um livro que pensava ler logo que o comprei, há talvez meia dúzia de anos. Trata-se de relato, estudo, sobre um grande transmontano que tive a oportunidade de ter conhecido e até participado num evento que organizei numa sexta-feira treze. A famosa “Queimada da Bruxa” de que guardo o manuscrito original da receita, para fazer em palco. Intitulado “António Fontes, Causas e Casos de um Padre Barrosão” o seu autor é João Gomes Sanches, outro transmontano ilustre da nossa cultura. Aí se pode ler que o “Padre Fontes bebeu o vinho pela mesma cabaça que as pessoas que com ele trabalharam e comeu no prato em que os outros comeram”, e conviveu com aqueles que “costumavam matabichar, com nozes e aguardente, …”. Foi decerto essa educação de igual que lhe permitiu envolver-se com o seu rebanho e, como igual, se impôs sem nunca o querer. Se calhar, se houvesse mais Padres Fontes não se atribuiriam tantas responsabilidades “ao atraso económico de tantas regiões”. Sou suspeito ao elogiar este livro pois o conceito de tenho de homens da Igreja se ajusta quase inteiramente com os comportamentos e atitudes do Padre Fontes. Se calhar, se eu tivesse encontrado vários Padres Fontes não teria perdido a Fé e tornar-me num tranquilo agnóstico. Não é este, porventura, o espaço para estas delongas individuais. A leitura deste livro fez-me recordar uma frase, que possivelmente estou plagiando: “Pode tirar-se um homem de Trás-os-Montes. Não se consegue é tirar Trás-os-Montes de um homem.” E levou-me a reflectir como esta máxima se enquadrava em mim. Apenas vou referir, pecados desta minha crónica, a educação do gosto e as tradições alimentares adquiridas enquanto lá vivi.

Tive ocasião de referir na última crónica que, para me sentir transmontano, não necessito de me deslocar à terra. Tenho, de tal forma, enraizados hábitos e sensibilidades que mantenho e me transportam para lá. Tive a sorte de ter sido educado com muita liberdade. E esse direito, e o respeito à liberdade, me permitiram esta postura. Apetece-me citar o famoso poeta islâmico Ibn Muqãna (séc. XI), o filho de Alcabideche, que escreveu: “o amor à liberdade faz parte do carácter nobre”. Foi essa liberdade, associada a rituais de repetição, que me permitiu conscientemente instalar em mim um sentido do gosto alimentar que me faz referenciar ainda e desenvolver os paralelismos com a minha alimentação. Do simples guisado de batatas com bacalhau, que sempre pedia a minha Mãe, com embirração dos meus irmãos, ao ainda hoje, saudoso, arroz de repolgas (pleurótos) que acompanhava um leitãozinho assado no menu obrigatório das refeições que fazia a sós com o meu avô Nogueiro. Só mais tarde percebi o quanto a liberdade me educou o palato. Até pela dificuldade em fazer melhor. Lembro-me ainda, já mais velho, e pela liberdade de poder não me apetecer o jantar feito, ser autorizado a fazer alternativa na cozinha. Nunca saía melhor…!

Mais tarde me dei conta que o gosto, ou a prática de alimentação das origens, também é um acto de conforto, de aconchego. Coincidência… estou a ouvir Ney Matogrosso que não consigo reproduzir na totalidade e que parece dizer “…medo dá choro, que é uma necessidade de carinho ou um abraço…”. Possivelmente em períodos mais fragilizado também sinto necessidade, e me aconchego na cozinha transmontana. Não estou a ser piegas, nem a criar mitos. Racionalmente, e pela liberdade que sempre tive, penso que, de facto, ainda tive a sorte de comer em casa, comer os bons produtos, assistir ao mesmo prato variando de família para família mas mantendo o essencial que lhe dá autenticidade e genuinidade. Ainda me lembro de reconhecer a origem das alheiras pelo tempero que as denunciava. Sim, porque naquele tempo trocavam-se alheiras, uma cortesia de tradição e também em vias de extinção. Os mitos tendem a fugir… Como escreveu Fernando Pessoa, em Mensagem, “O mito é o nada que é tudo”. Não tenho mitos tenho a consciência da educação do gosto, a liberdade para aceitar a evolução e os aplausos para a modernidade baseada nos produtos da terra com qualidade e, sobretudo, com sabor.

Vamos entrar no jejum quaresmal. O jejum devia levar-nos a pensar naqueles que não têm que comer. Não nos faz mal, a todos, reflectirmos, também, sobre a qualidade alimentar que por vezes somos vítimas nas grandes cidades. Não é preciso frequentar curso de nutricionismo. Mas já é fácil termos um nutricionista por perto Das heranças alimentares recebemos muitos ensinamentos. E o principal é que a sopa é um alimento fundamental e regenerador e, que por si só, pode constituir uma refeição. É fundamental que as crianças compreendam que a sopa é um bom alimento, e não um castigo. E as saladas? E a fruta fresca da época? E o bom pão de centeio ou de mistura?

Vem aí, não tarda muito, o folar. Que é bom, sabe bem, mas como tudo não devemos abusar. Em minha casa o almoço foi algumas vezes caldo verde e folar recheado de várias carnes. Quem se lembra destas refeições?! E bebia-se vinho ou chá. E depois, a pequena desgraça com a abundância de doces. Nascemos numa tradição doceira. Hoje em dia temos as manias que só a doçaria de origem conventual é que é boa ou de eleição. É altura de recuperar a variedade de doces regionais e populares, que têm a vantagem de ter menos açúcar, e assim terminar a refeição com o café, e esse doces alguns deles em extinção.

Há amigos de Bragança que quando vêm a Lisboa não se esquecem de me trazer económicos, roscas, súplicas e até rebuçados da Régua. Estas pequenas delícias deveriam ser encaradas com apresentação permanente nas mesas transmontanas. Para que a tradição não se extinga. Até me apetece falar a crise mal informada. Estes doces até são mais baratos, e só precisam de imaginação e entusiasmo para os servir. Por exemplo para os económicos, que começam a ficar secos, parto-os em fatias com menos de um dedo de grossura, coloco-as na torradeira e depois cubro-as com geleia ou compota caseira. Mas também ficam bem com fatias de Queijo Terrincho.

O que tem faltado às nossas tradições alimentares para ocuparem lugares de prestígio é exactamente adquirirem uma linguagem actual, capaz de enfrentar os embates dos produtos da globalização associada aos esquemas de grande comunicação. É caso para perguntar porque é que as pizzas e os hambúrgueres se instalaram tão rapidamente. As pizzas não passam de uma massa de pão coberta por produtos que também temos como o queijo, o tomate, o azeite… Os nossos pães de mistura ou simplesmente o de centeio nunca os soubemos (ou adaptámos) rechear de bom presunto, do nosso queijo ou simplesmente fazer com eles boas bifanas. E promovê-las. A publicidade e a comunicação repetitiva criam apetites. Já repararam que as fotografias são sempre melhores que os produtos que nos servem? E os hambúrgueres com aquele pão, que engorda e cria alimentação deficiente, com um produto com componentes de carne? Podemos voltar ao nosso pão e recheá-lo com carne Mirandesa. Experimente e provoquem os nossos jovens e, decerto, irão sentir a diferença. Ajudar a educar o gosto é uma tarefa que mais tarde irão agradecer.

BOM APETITE

© Virgílio Gomes
virgiliogomes@virgiliogomes.com

sábado, 6 de junho de 2009

PRÓXIMOS EVENTOS DA CTMAD

Convocam-se os sócios da CTMAD, seus familiares e amigos para os próximos eventos:

Noite de Fados


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Local - Adega Típica Tia Rosa (fica nas proximidades do Convento do Beato) Autocarros: 28, 39, 718
Data - dia 20 de Junho (Sábado)
Custo - 20 euros (inclui jantar)
Informações e inscrições na nossa Sede.
Lotação limitada

Festa dos Santos Populares da CTMAD


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Local - Escola EB2,3 Gago Coutinho (perto da Av. do Aeroporto)
Autocarros: 5, 17, 21, 22, 44, 49, 708, 755

Data - 28 de Junho (Domingo)
Acesso Livre para sócios, seus familiares e amigosa a partir das 10 horas.
Informações na nossa Sede.

sábado, 30 de maio de 2009

LISBOA (Praça da Figueira) - Semana das Casas Regionais


Integrada nas Festas da cidade de Lisboa, uma parceria da EGEAC com a Associação das Casas Regionais permitirá o regresso de um evento de cariz festivo que espelhe as valências artísticas / sociais / culturais das várias Casas Regionais de vários concelhos e regiões (entre as quais a CTMAD) existentes em Lisboa. Artesanato, gastronomia, dança, música e jogos tradicionais farão parte do vasto leque de eventos que se irão desenvolver na Praça da Figueira.


30 Maio

15:00 Banda de Música de S. Mamede de Ribatua

15:45 Grupo de Violas da CTMAD


31 Maio

14:45 Banda de Música de Mateus (Vila Real)

15:15 Grupo Coral da Câmara Municipal de Vila Real

17:15 Tuna de Santa Marta de Penaguião.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Lançamento de "Passagens e Afectos"

Na próxima sexta-feira, dia 22, pelas 18,30 horas, terá lugar na sede da CTMAD a cerimónia do lançamento do livro "PASSAGENS e AFECTOS" da autoria do associado João de Deus Rodrigues.

Será servido um Douro d'Honra.

sábado, 16 de maio de 2009

IV Grande Desfile da Máscara Ibérica, em Lisboa (Rossio)

Pelo terceiro ano consecutivo, dias 15, 16 e 17 de Maio 2009, a Progestur, em parceria com a EGEAC com o apoio da Associação de Turismo de Lisboa irá organizar o IV Grande Desfile da Máscara Ibérica, considerado pelos orgãos de comunicação social como o maior desfile temático a nível europeu.

Salienta-se a presença do TURISMO DO DOURO, no dia 17, dia inteiramente dedicado ao Douro, com uma mostra do que de melhor se produz naquela região, da cultura à gastronomia.

O desfile contará com a maior participação de sempre - cerca de 650 participantes, oriundos de diversas zonas do Nordeste Trasmontano e de Espanha. Este ano a inniciativa estende-se a 3 dias, com um grande espectáculo musical de abertura com a actuação da cantora de fado espanhola de origem portuguesa Maria do Ceo e do Grupo de Danzas de Ourense "Queixumes dos Pinos".

Durante todo o período do evento existirá uma Mostra de Regiões de Portugal e Espanha, nomeadamente Douro, Lamego e Ourense. Poder-se-á desfrutar da degustação de produtos regionais, provas de vinhos, artesanato com trabalhos ao vivo e divulgação turística.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

FESTA DO FOLAR DA CTMAD EM LISBOA

Realizou-se, em 5 de Abril de 2009, a Festa do Folar e do Azeite da CTMAD. Veja uma amostra do evento.






sábado, 28 de março de 2009

EDITORIAL - Será que a crise mundial se repercutirá na nossa Casa ?

por Jorge Valadares

Realizou-se recentemente a Assembleia-geral em que tivemos oportunidade de fazer uma exposição, em power point, das actividades realizadas no ano passado e de prestar contas perante os associados que se dignaram comparecer.

Tive oportunidade de dizer que apesar de todo o esforço desenvolvido pela Direcção, o saldo positivo com que chegámos ao fim do ano foi bastante reduzido.

É certo que realizámos algumas obras de beneficiação da nossa Sede, mas a razão por que tanta actividade realizada rendeu tão pouco não pode explicar-se totalmente com esse facto. A justificação estende-se, por um lado, à falta de apoios por parte de diversas entidades ligadas à nossa região cujos governantes, com algumas honrosas excepções, têm a insensibilidade de não reconhecer o serviço social valioso que a CTMAD presta a vários transmontanos e alto durienses provenientes dos seus concelhos, como se os filhos dessas terras que tiveram que migrar para Lisboa deixassem de o ser por esse facto. Recusam retirar dos seus orçamentos uns insignificantes 250 euros anuais (ou 500 euros em reduzidos casos) para serem sócios extraordinários desta Associação de Solidariedade que representa na Grande Lisboa toda a região onde eles são responsáveis políticos e administrativos e apoia os naturais de lá e seus familiares aqui residentes. Por outro lado, há que reconhecer que as quotizações, devido ao facto de não variarem há anos, são baixas e com a agravante que só um número demasiado reduzido de associados paga as suas quotas atempadamente.

E é caso para perguntar: se a situação lamentável tem sido esta em tempo de «vacas gordas» como o será agora em tempo de «vacas magras»? Costuma-se dizer que é nos tempos difíceis que a nobreza de carácter mais vem ao de cima. Será que agora, dada a crise em que vivemos, todos nos lembraremos mais da necessidade de sustentabilidade da CTMAD e de ela ter de cumprir a sua grandiosa missão de mitigar o sofrimento daqueles transmontanos e alto-durienses que mais sofrem com ela? O futuro o dirá.

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