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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ares da serra - Terras de pão

por António Augusto Fernandes


'A memória de meu Pai, um homem duro mas justo.


(...) Mais informa da intervenção da P.I.D.E. para tentar descobrir os autores do arrancamento de algumas árvores na serra de Nogueira: "Foram descobertos um ou dois e os Serviços entregaram depois novas árvores que a população que as tinha arrancado se encarregou de colocar de novo:" (Extracto do Processo movido a Aquilino Ribeiro pela publicação de Quando os Lobos Uivam, romance que tem por tema a florestação dos baldios. 07.04.59, [fls. 43 a 44]) [1]


Corria quente aquele Verão de 1958.
O misto resfolegava esfalfado sobre as duas fitas de aço, lançando baforadas de fumo negro, depois de quatro horas a lutar com os cem quilómetros que subiam da foz do Tua até ali, à cota mais alta da CP, na estação de Rossas. Parou consolado à sombra fresca da meia dúzia de nogueiras a que o chefe da estação dedicava os bastos ócios que o trânsito madraço de quatro composições diárias lhe permitia.

Da segunda classe saltou um adolescente espigadote balouçando a maleta de cartão. De fato preto, gravata preta, boina preta, era o provável seminarista, em tudo conforme com os regulamentos seminarísticos dos anos cinquenta, de regresso para as férias de Verão. Depois de um ano de ausência, desde a estação de Salsas que os seus olhos augados da terra vinham espiando as alturas da serra de Nogueira onde Rebordainhos se fora encarrapitar. E quando o comboio atacou a recta dos Roubões, antes de encostar à plataforma da gare, já o olhar se lhe prendia às alturas do Alto da Cabeça, onde jogara à bola com os da sua igualha, à Eira da Cabecinha onde se avistavam os primeiros medeiros da aldeia e o Armindo barbeiro lhe cortava as melenas. E suspirou de alívio.

Na plataforma da estação deserta, sufocada pela canícula da tarde e pelas poeiras que o suão levantava dos campos ressequidos, procurou com o olhar erradio a comitiva familiar que devia esperá-lo. Nada. Só depois de o comboio arrancar e dobrar a curva que desce para o túnel de Arufe é que reparou no mano mais novo que atravessava a linha. Crestado dos ares bravios da serra, a camisa de popelina listrada pela cruz de santo André das alças que lhe seguravam as pantalonas de cotim já um pouco curtas, avançava indeciso. Estava bem crescido o dianho do moço! Mas estranhou-lhe os modos. Ele sempre zombeteiro, a magicar na próxima partida que lhe iria pregar, parecia constrangido, quase hirto. Sem um gesto, sem desenterrar as mãos dos bolsos, desferiu-lhe à queima-roupa, como quem quer desincumbir-se rapidamente de recado que lhe frige a alma: - O pai esteve na cadeia!

Ora essa! Assim, sem mais! A notícia deu-lhe um baque na alma sensível de seminarista. Em boa verdade, com o feitio arrebatadiço que se lhe conhecia, não seria muito de estranhar que tivesse quebrado as trombas a algum bebedolas menos conforme com as etiquetas do soto onde governava a vida, ou pregado um par de lostras nalgum moinante que lhe moesse o juízo. Mas tais percalços não eram de estranhar e estavam em conformidade com os brandos costumes da serra. Não era decerto por tal ninharia que ia um cristão malhar com os ossos na cadeia! Ainda por cima o Jaime polícia! Lá rebentio de génio era ele, mas enfim, nunca seria caso para prisão!...

E, enquanto demandavam a aldeia pelo carreirão de Arufe ia rememorando aqueles escassos cinco anos de vida na aldeia, quando o pai, indisposto com os nepotismos da polícia onde as promoções eram regidas por empenhos e conivências, voltara à aldeia natal trazendo consigo revivida aquela fome antiquíssima de terra, uma fome herdada dos antepassados, funda como as raízes fundas que nela tinham lançado. Atirara-se com afã a desfazer os bocados que andavam a monte na Corredoura, na Ladeira, no Pórto, onde quer que pudesse colher mais dois alqueires de centeio.

O Pai tinha os seus repentes, bem entendido, mas no fundo era um sentimental capaz de verter a sua lagrimazita às escondidas e, sobretudo, era um homem com profundo sentido de justiça. Nesses anos magros a seguir à guerra, fora dele a iniciativa de aumentar para doze mil e quinhentos réis a jorna aos cavadores, recordado ainda dos tempos que ele próprio levara agarrado ao cabo do enxadão. E, por essa memória, a pobreza dos mais pobres merecia-lhe um grande respeito e a fome de quem trabalha o dos outros via-a como a mais negra das injustiças num mundo mal feito. Exigia trabalho que se visse e escolhia os trabalhadores mais valentes, mas tratava-os com a consideração devida a quem trabalha. Seria ríspido e não se ensaiava para dar um recado. Mas era generoso se um pobre lhe batia à porta com fome e ironizava os seus confrades nas Conferências de S. Vicente de Paula quando na saqueta das esmolas abundavam as moedas de cobre: não é assim que os pobres tiram a barriga de misérias...

Era também a ele que a ciganada recorria quando faziam questão em baptizar algum filho. - Ó homem, não seja por causa disso que o lacru fica mouro! E à conta disso se viu padrinho de para cima de meia dúzia de ciganitos. Tinha um sentido de humor um tanto sardónico e mais que um lhe ficou a dever a alcunha. Amigo dos seus amigos, era correntio e folgazão nos jogos de ar livre aos domingos, quando ameaçava os adversários do chincalhão de os levar em pó e vento, e homem de força quando era preciso dominar pelos cornos um bezerro bravo recalcitrante ao jugo.

A vida não lhe fora nada meiga. Criado com muita estreiteza pela tia Antonha Pastora já viúva, naquele casinhoto negro do Covelo, não se envergonhava de confessar que muitas fominhas rapara e só aos vinte anos, quando assentara praça, deixara os socos de amieiro para estrear os primeiros sapatos. Enfim, o pouco que subira na vida subira-o a pulso e honradamente.

E o seminarista estimava-o e admirava-o por tudo isso. E ainda pela recordação supremamente grata de lhe ver a compenetração com que aos domingos acendia a vela do altar de Santa Maria Madalena, ajoelhando sempre diante do altar da grande pecadora arrependida, padroeira da freguesia, cuja imagem mandara restaurar a expensas suas num santeiro de Braga.

Por tudo isso lhe custava encaixar essa história da prisão do pai. E, de repente, passou-lhe pela mente o grande desarranjo: podia lá chegar a padre, sendo filho de pai preso!? Ele bem estranhara que, durante uns tempos, as cartas chegadas ao seminário não mostrassem aquele belo cursivo de quem redigiu muitos autos de zaragatas nas feiras do 12 e dos 21, em Bragança, de quem apontou muito calote no rol dos fiados, mas sim a caligrafia titubeante da mãe, com menos arte para relatar coisas e loisas da aldeia. Lá tentara explicar para consigo o desacerto na correspondência com o aperto dos afazeres da lavoura somados às preocupações dos calotes abusivos que a magreza do viver aldeão multiplicava como tortulhos no Outono. Não, que a vida na serra andava cada vez mais cainha e muito complicada para todos: os filho nasciam bastos como os cabeçudos na charca do Espinheiro, os rendimentos da lavoura eram mais que escassos, ainda que andassem de sementio até a pedriça do Alto do Sirgo e os pedregulhais das Curreliças que mal davam sustento ao tojo rastiço, quanto mais às paveias de centeio. Ainda por cima, para ajudar o pai que é pobre, coelhos e perdizes iam retraçando o pouco que a terra dava.

E só à hora do caldo veio a saber que a história era bem outra!
As coisas tinham começado alguns meses antes. Uns engenheiros, armados de fitas métricas e teodolitos, dados a muitas inquirições sobre matrizes e estremas, iam cravando bandarilhas de mau agouro pelo longo dorso que vai da Malhada Velha aos cumes da serra, às Três Marras, ponto de encontro dos concelhos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.

Os aldeanos olhavam toda essa estranha movimentação de soslaio. A coisa cheirava-lhes a esturro, porque era certo e sabido que o governo só se lembrava deles para os cardar. Ora, mandar que suas excelências, os senhores engenheiros, viessem sujar as botas de calfe nas poeiras da serra não havia de ser no interesse dos lapoiços que a escarduçavam por mor de mais umas pousadas de pão. Quanto a inquirições, eles bem se fechavam em copas: - sei lá de quem são as terras, onde ficam as estremas! Não sabiam eles outra coisa! Estas invasões dos baldios não vinham nos jornais e disso não falava a Emissora Nacional, não, que andava tudo bem açaimado pelo senhor Governo! Mas, pelo que corria à boca pequena por feiras e romarias, futuravam eles que o acontecido lá para baixo, para as Beiras, mais tarde ou mais cedo lhes iria bater à porta. O que eles sabiam muito bem era que aqueles pedaços de terra por cima da Malhada Velha até à cota dos mil e duzentos metros, do Vale dos Azebros ao Cabeço do Pau e ao Lombo das Terças, quando calhava de o Inverno trazer dois ou três nevões que matassem a bicheza, adubassem as terras delgadas e fizessem borbulhar as nascentes, as espigas faziam dobrar as hastes do centeio, de gradas, porque lá reza o ditado: ano de neve, paga o pobre o que deve, ou o outro que diz o mesmo por outras palavras: ano de pão, sete neves e um nevão. E era também dali que saía a melhor batata certificada: nas covas mais lentas e de húmus mais gordo medravam os batatais com direito a que se lhe especasse uma tabuleta com algarismos pintados a zarcão, conferindo-lhes o direito a ser vendida como batata de semente certificada, o que dobrava o preço.

Ali, naquelas alturas lançando a vista para o horizonte, sobre o vale de Macedo de Cavaleiros, em frente, ou, sobre a direita, ao planalto de Miranda, enfarinhado no azul da distância, atrás de um coelho ou agarrado à rabiça do arado, um homem sentia-se de alma lavada e como se fosse dono do mundo. Era um espaço de liberdade, dessa liberdade tão cara ao serrano. Naqueles descampados, ceifados os pães, os gados pasciam livremente as espigas perdidas pelos segadores ou a relva tenra que brotava com as primeiras águas do Outono. As giestas e urzes que despontavam pelo pedregulhal eram de quem as quisesse arrancar para com elas fazer carvão, esquentar o forno ou atiçar o lume nas manhãs de codo. Aquela corda de outeiros, isentos de senhorio, eram de todos, mas eram sobretudo dos mais pobre que não tinham de seu leira de jeito ou touça para acender a lareira no Inverno. Eram terrenos baldios? Pois que fossem, mas era deles o proveito! Já assim era no tempo dos avós e dos avós dos avós, e nunca ninguém se incomodara com isso! Esses baldios eram bem o símbolo da sua liberdade e independência, já que não podiam ser coutados nem sisados pelo poder central. E se há coisa odiosa para o serrano é que lhe toquem na terra que sente como sua, ou que alguém venha de fora pôr-lhe o cangote debaixo do jugo. Por mor de um migalho de terra quantos não se tinham já perdido!

É bem verdade que aquilo ficava longe que nem seiscentos diabos, lá para cima, a dois passos da capelinha da Senhora da Serra no picoto mais alto da Nogueira, onde no tempo dos mouros (ou seria de Carlos Magno e dos Doze Pares de França?), Nossa Senhora aparecera a uma pastorinha muda, de tamancos, que Nossa Senhora não tem engulho dos pobres, e depois marcara com neve, no dia mais quente de Agosto, o sítio e modos como queria que lhe fizessem uma capelinha. Era a Nossa Senhora deles, que os de Rebordãos bem quiseram mudar a capela para onde a avistassem da aldeia, mas obra feita de dia esborralhava-se milagrosamente durante a noite. E ao fim de muito caturrarem, a capelinha bem que teve de ser feita onde Nossa Senhora a queria, que era a olhar para Rebordainhos, que Ela, pelos modos, preferia aos de Rebordãos.

Pois é, um homem demorava uma manhã inteira para ir regar quatro sucos de batatas e, no tempo das acarrejas, tinha que jungir os bois ainda com escuro, se queria o carreto pronto antes de ir comer as batatas do almoço. Mas deixá-lo! Era deles, e... o tempo dá-o Deus de graça!

Até o tio Zé Çuca, monárquico convicto, que era fino, lia A Voz e desempenhava, como por descendência dinástica, o cargo de Presidente da Junta desde que lhe morrera o pai, o ti António Caminha, embora apoiasse a Situação e admirasse Salazar, desta vez achou que a Situação exorbitava, borrifou-se para o Salazar e acrescentou a sua indignação à dos demais.

Os Serviços Florestais começaram por construir uma casita toda liró, bem melhor que as da aldeia: reluzindo de branca, enconchadinha numa ruga da serra, com uma nascentinha de água leve e fria à ilharga, voltada a sul donde no Inverno espreita o sol criador e com vistas desafogadas para meio mundo, mais feita para poeta contemplativo que para Guarda-florestal.

E logo nos começos do Inverno as máquinas invadiram os corutos da serra e vá de arrotear o maninho, de afundir nos covachos milhares de pinheiritos tenros, de abetos, de bétulas... Se ainda aldemenos os Serviços se lembrassem de plantar carvalhos e castanheiros que era o que a serra reconhecia como seu desde que o mundo é mundo! Mas não... vinham lá com essas esquisitices da Terra Quente... - Rais os partissem a todos mais à pata que os pôs!

Máquinas e engenheiros já tinham partido e o sossego parecia ter regressado à serra. Aos domingos, no adro, depois da missa, não se falava de outra coisa e, enquanto as mulheres corriam a esverçar o caldo de couves, os homens davam uma saltada até à Cruzinha, levantando os olhos para aquela lombada da serra, na esperança de que a sarna tinha secado. É o tinhas! Ao longo de toda a cumeeira, os pinheiritos tinham pegado com arreganho e a rabugem verde-escura começava a pintar os terrenos onde dantes crescia o centeio e a batata. E, intrigados, quedavam-se em conjecturas: e agora?... e de quem é aquilo? e que torna e que deixa... A coisa começava a cheirar a esturro.

Até que um domingo, depois do almoço, os sinos se puseram num bimbalhar doido de toque a rebate. Acudiam as gentes a indagar onde era o fogo. Sobre o muro do adro onde no Inverno se arrematavam os chispes e orelheiras prometidas ao S. Sebastião, alguém ia despachando quem chegava: que desandassem em busca de enxada, de sachola, de picareta e ala para a Malhada Velha que a serra havia de ficar como era dantes.


A gemte começou de sse juntar e era tanta que era estranha cousa de se veer - diria o Cronista se ao sucedido assistira.

Munindo-se cada qual de ferramenta mais azada para o efeito e muitos também de uma pinga, que nestas alturas dá sempre jeito, esquentando-se mutuamente os ânimos com vozes façanhudas e esporádicos gorgolejos nas botelhas galegas de pele de cabra, quando passaram a Ribeira, na subida para os Vales, já se evocavam os grandes feitos guerreiros com que na escola se enfeitava a história pátria: espanhóis e Aljubarrota, mouros e Afonso Henriques, Índia e Vasco da Gama, tudo abundava no exemplo de como as coisas têm que ser feitas quando vêm mexer com quem está quedo. E era deveras inflamado o espírito belicoso das hostes. Tomaram o caminho dos Vales que, apesar de mais empinado, os punha lá riba em três tempos. Um nevoeiro cerrado abatera-se sobre a serra como manta cúmplice que os acobertasse de olhos coscuvilheiros, que estas coisas querem-se feitas a recato, como negócio entre homem e mulher. Enquanto o diabo esfrega um olho, imolaram a maior parte das hastezinhas tenras que lhes tinham invadido as terras de pão e alguns dos feros arrancadores trouxeram-nas à laia de troféus justamente arrebatados a inimigo vencido em valorosa peleja.

Viveram-se tempos de incerteza. Será que o Governo os tinha esquecido outra vez e tudo voltava ao que era dantes? Agora esquecera! Os polainudos da GNR começaram a rondar a aldeia, entravam nas tabernas com falinhas mansas, ofereciam o seu copo: quem tinha tocado o sino a rebate?... quem tinha acicatado os fregueses na arranca dos pinheiros?... quem tinha cometido o desacato contra o Estado?... Ninguém fora, ninguém ouvira nada, ninguém sabia de nada. Desistiram, encalhados na pertinácia serrana.

As inquirições pareciam ter dado em águas de bacalhau e os ânimos iam serenando. Sempre valera a pena o finca-pé!...

Até que um dia apareceu um jipe do Estado com uns sujeitos de ar sinistro. Nem parou. Atravessou a aldeia e pelos caminhos dos carros de bois subiu até aos Vales, como quem sabe ao que vem. Sem dizer água-vai os sujeitos de má catadura catrafilaram o Raul e enfiaram-no no jipe, que regressou à aldeia e estacou no Largo do Prado em frente da Taberna de Baixo. Com o mesmo despacho deram voz de prisão ao Jaime que nesse momento tinha vindo à porta do soto inquirir da novidade. Era o que eles receavam: a PIDE, não podendo prender uma povoação inteira, deitava os gatázios a quem muito bem entendia para escarmento dos demais: ao Jaime porque, sendo dono da taberna, pelas conversas que se soltam entre os fregueses depois de uns quantos quartilhos empinados, devia ter ouvido pela certa alguma coisa mais sobre o assunto da Floresta. Ademais, sendo polícia, embora de licença sem vencimento, tinha obrigação de informar os seus superiores de todos os movimentos sediciosos da população. Ao Raul, porque, morando no ermo dos Vales, a dois passos da zona florestada, tinha de saber pela certa quem lhe passara à porta para ir vindimar os pinheirinhos. Esta lógica caseira não convencia ninguém e serviu apenas para camuflar canhestramente os autores da feia delação. Veio-se a saber mais tarde que os dois sacrificados nas aras da sanha policiesca tinham sido denunciados por motivos bem pouco políticos e ainda menos patrióticos: o Jaime pelo guarda-florestal recentemente nomeado, fraca rês vinda da Terra Quente, a quem recusara alongar o rol dos fiados. O Raul por um vizinho da Quinta dos Vales que com ele mantinha pendências de estremas mal definidas ou marcos manhosos que se movimentavam a coberto da noite. E lá os levaram para a cadeia da Rua do Heroísmo, no Porto.

Viveram-se dias negros, pois que todos, quem mais, quem menos, se sentiam na pele dos dois caçados pela polícia política e em todos doía a consciência colectiva dessa aleivosia. A tia Lídia viera ocupar o lugar do marido na Taberna de Baixo chorosa e aflita. Lá de baixo a correspondência dos dois reclusos ia contando que não eram maltratados e a comida era razoável. Não fora o desarranjo trazido aos negócios de cada um pela ausência forçada, animavam eles, desdramatizando a situação, quase se podiam dizer umas férias à conta do Estado. O que deveras lhes doía na alma eram as grades da prisão. O serrano, preso nem com uma linha se quer ver! Periodicamente eram abordados blandiciosamente pela polícia: - que nada tinham contra eles... que bastava dizerem quem fora o da ideia, que a eles nada acontecia. O Raul entrincheirava-se na sua escusa: que mal saía daquele fim do mundo que eram os Vales, o que é que ele podia saber? Em tal dia até andava a lavrar lá p´rós lados de Lanção!... O Jaime insistia no seu álibi: nesse dia tinha ele ido ao vinho lá para a Terra Quente. Até tinha factura passada e tudo... Ninguém se descosia, nada feito.

Pela aldeia, os dias passavam macambúzios, pela indecisão do caminho a tomar, até que o Pe Amílcar achou por bem descer à cidade a encontrar-se com o Pe Caminha, cunhado do Jaime, que, enquanto Director da Escola Profissional de Santa Clara, tinha entrada franca no Ministério do Interior. Passaram-se semanas caturrando dum lado e doutro, mexeram-se todos os pauzinhos e num domingo depois da missa, o Pe Amílcar, ainda antes de se desparamentar, dava notícias aos paroquianos:

- Tudo na mesma. O senhor Jaime e o senhor Raul não dizem nada e a polícia só os deixa vir embora se o povo plantar de novo as árvores arrancadas.

Cá fora, no adro, discutiu-se rijamente. Por um lado, aquilo cheirava-lhes a forte humilhação, como se o povo não tivesse razão em defender o que era seu. Por outro lado, que mais culpados eram aqueles dois que os outros, para irem malhar com os ossos na cadeia!?... Depois de muito parlamentar, a muito custo optaram pela humilhação.

De novo subiram aos altos da Malhada Velha, mas agora com a amargura de quem sobe ao calvário. Cheios de má vontade lá foram replantando quanto tinham arrancado. E tudo pegou gorando, para seu espanto, a confiança que depositavam nas leis da botânica: bicheza brava aqueles pinheiros! pegavam, mesmo com um nó na raiz!
Depois de dois meses de cárcere, os deportados eram depositados no Largo do Prado. O Raul correu a matar saudade do seu casal dos Vales. O Jaime, naquele seu feitio um tanto arisco temperado pelas agruras da vida, entrou pela porta do seu soto com o ar de quem tinha ido ali a Bragança encomendar umas mercearias no armazém do Domingos Lopes. E ofereceu uma rodada aos presentes. Como tinham cedido na replantação dos pinheiros, nem dava para se sentirem heróis ou caudilhos de um levantamento. Sobrava apenas uma leve amargura, como de moinha de Outono, a ensombrar-lhes a alma.

Em resumo:

Para regar a hortinha da Vale-da-Frunha-d'Além ainda por lá andava, nesse Verão, um sachito com que o mano participara na odisseia da floresta, crismando-o de arranca-pinheiros.

Para sossego de consciência do seminarista, não houvera morte de homem, a sedição acabara em bem, com o acatamento da autoridade e a floresta medrava lá em cima à lei da natureza...

Finalmente, rezam as crónicas, não foi por causa de pai preso que ele não veio engrossar as fileiras dos ministros do Senhor.
Hoje a floresta faz cinquenta anos, está frondosa e até que alindou o dorso nu da serra. Para consolo dos ecologistas encartados constitui notável contributo para a preservação do lobo ibérico que lá vai abocanhando ao desfastio alguma canhona distraída que lhes passe a jeito. E também do javali que cata meticulosamente as castanhas tombadas do ouriço e cabouca os batatais que lhe ficam à mão.

Mas permanece como a pegada de um governo que exerceu o seu poder autocraticamente e ao arrepio dos direitos comunais - memória de chaga mal sarada na alma da comunidade.

Os poucos velhos que se recusam a abandonar a aldeia e os jovens agricultores, que o Governo louva mas não ajuda, persistem em agricultar essa terra que sobrou da floresta, sabendo que trabalham para sustentação do lobo ibérico, que está de saúde se recomenda, e do javali, que os figuros da cidade adoram ostentar como troféu das suas caçadas. E, se não vier alguma trovoada à moda antiga, ainda sobra qualquer coisita para o pobre do lavrador que, não sendo espécie protegida, está em risco de extinção.

______
[1] in Em Defesa de Aquilino Ribeiro, organização de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, Edições Terramar, Lisboa 1994.
O processo em questão fora movido ao autor pela publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que tem por tema a florestação dos baldios na Serra da Nave, saído em finais de 1958.

N.Ed. As fotografias que ilustram a narrativa são da autoria de António Fernandes.

domingo, 19 de outubro de 2008

Ares da Serra - Ti Zé Miguel contador de histórias

por António Augusto Fernandes

Naquela zona mitificadora da memória onde se enovelam maravilhosos fiapos da infância, entre os fantasmas amigos de antanho, aparece-me, vago e em tons de sépia, o Ti Zé Miguel.

Ti Zé Miguel, o homem das sete mulheres, a legítima mais seis filhas! Era também o meeiro a quem meu pai confiara as parcas leiras herdadas da avó Adriana da Portela, homem mais pachorrento e caladão que os bois com quem lidava de sol-a-sol e a quem atribuía uma vaga alma de gente. Com um sorriso imperceptível gasalhado sob o bigode talhado à maneira da primeira grande guerra, o rosto tisnado e a cabeça ligeiramente tombada sobre o ombro direito, no jeito paciente dos bem-aventurados das pagelas que se vendiam nas romarias, assim ele me surge, ainda hoje, do nevoeiro da memória, no seu passo lento e bamboleado como os dos patos, de aguilhada ao ombro à frente da galharda junta de bois que meu pai comprara na feira dos Chãos, espalhando um olhar manso como o deles. No Outono víamo-lo aparecer do nevoeiro, como um elfo, à frente do carro carregado de toros e trazendo no feltro do chapéu e no rectângulo do bigode pérolas minúsculas, farrapos das névoas que vogavam pelas touças do Cabeço Cercado, e, no cotim coçado da jaqueta, argalhos de giestas e o cheiro dos mentrastos. Era capaz de passar um dia inteiro por lá com uma côdea negra de centeio, um naco de toucinho e meia dúzia de palavras. Com um toco de Kentucky apagado ao canto da boca, derramava, de longe em longe, um esboço de sorriso calado sobre a gente e as coisas. O seu espírito perdia-se por lá numa comunicação vegetativa com os soutos, as touças, as searas, mais do que com as bisbilhotices da aldeia.

Desjungia os bois, botava-lhes um braçado de feno e vinha sentar o seu silêncio sobre uma tripeça, à lareira, fitando as brasas. E, enquanto as pantalonas puídas pelos anos fumegavam da humidade dos lameiros, executava, com delícias de sultão bizantino, o cerimonial do cigarrito antes da ceia: começava por alisar uma mortalha na palma da mão, desfazia-lhe em cima quatro ou cinco piriscas avaramente guardadas no bolsinho do colete, alinhava o tabaco ao longo da folhita de papel, catando com minúcia os fiapos de tabaco desalinhados da fieira, enrolava-o em escrupuloso e fino cilindro, humedecia a fímbria da mortalha com a ponta da língua, e umas fagulhas de volúpia chispavam-lhe já dos olhitos miúdos. Entalava a obra de arte nos lábios. Com a tenaz aproximava uma brasa, sugava o fumo com sofreguidão e largava as primeiras baforadas com mais delícia que sultão fumando o seu narguillé.

Depois da cigarrada, a tia Isabel Caldeireira, a mulher, gritava pela filharada - eram sete! - e o rancho familiar abancava em volta da arca grande onde se guardavam os largos pães centeeiros da semana e os nacos de toucinho com que se adubava o caldo e se acaudatava o carolo da merenda. Ao centro fumegava o cogulo das batatas farinhotas e couves tronchas em travessa esmaltada de figurações cor de lagarto, vasta como gamela, acolitada por um prato fundeiro com alho picadinho sobre azeite diluído com a água do caldo - se o litro de azeite custava duas jornas de sol-a-sol!... - onde à vez cada um ia molhando a batatinha e o talo de couve.

E a mim, menino debiqueiro arribado da cidade, aguavam-se-me os olhos por aquelas batatas besuntadas naquele rico molho de pobre. E nunca deixava que me repetissem o convite para também eu empunhar heroicamente o meu garfo de ferro e arranchar com a malta alegre dos Caldeireiros a que aliás pertencíamos por parte da mãe, provindos de um galego Caminha arribado dos lados de Arzua. E o caldo verde adubado com uma colher de unto e um naco de toucinho! Santo Deus! que delícias de Sardanapalo! Algumas nalgadas apanhei eu à conta dessa minha desavergonhada pironguice, quando a Amélia, a nossa empregadita, se descaía a contar a minha mãe estes faustosos banquetes!

***

Este Ti Zé Miguel deve ter sido um dos últimos contadores de histórias e um dos artistas-mores da castanha assada nos velhos assadores feitos de tiras de folha-de-flandres entrelaçadas. Nas noites assanhadas de invernia, com o vento uivando desesperadamente lá fora e a chuva a crepitar sobre a telha vã da cozinha, depois da ceia, Ti Zé Miguel pousava-se sobre a sua tripeça lustrosa do uso como pitonisa que se dispõe a presidir a um ritual. Do bolso do colete sacava o macinho de Kentucky e, com ar beato de sibarita moderado, puxava as primeiras fumaças com que a Sibila de Cumas pedia a inspiração de Apolo. Depois, com gestos sábios, cogulava o assador com as castanhas reboludas do Souto de Cadavez, enganchava-o no cadeado e metia mais uma giesta na fogueira. Era o sinal: a gaiatada, alapava-se em redor sobre mantas velhas estendidas no soalho, de queixo no ar e olhos no Ti Zé Miguel. O velho Homero puxava outra fumaça, pigarreava e soltava a voz mansa e cava, ligeiramente enrouquecida do tabaco de vastos anos: Era uma vez...

Lá fora zurrava temporal desfeito. A chuva assanhava-se sobre a telha de meia cana, o vento resfolegava no sabugueiro do outro lado da rua, uma golfada de ar frio infiltrava-se sob a telha, apagava a candeia e enovelava o fumo acre dos cavacos de carvalho mal secos e fazia-nos lacrimejar. Deixá-lo!... Era uma vez... E nas palavras arrastadas vinham emergindo, das sombras e fumos que se adensavam pelos cantos da cozinha mal alumiada, mundos fantásticos de bruxas e fadas, reis e princesas, bandidos e almocreves, pícaros e trágicos.

As paredes enegrecidas pela fuligem esvaíam-se e do negrume surdiam florestas escuras donde fosforesciam os olhos do lobo mau, onde perpassava o rabicho cedilhado do coelho casquilho; ou os burros tropiqueiros dos ciganos, os cavalos pimpões dos cavaleiros que matavam dragões e gigantes para salvarem princesas que, choronas e apaixonadas, do janelo de suas torres, alongavam os olhos pelos caminhos donde surgiria o galhardo salvador.

De quando em vez, sustinha a narrativa, sacudia, em ligeiros golpes de mestria, a asa do assador, e a pequenada, de narinas frementes, aspirava com volúpia o perfume da pele esturricada das castanhas... E de novo voltava a magia da palavra, criadora de mundos, como o Verbo inicial saído a boca de Jeová: ele era a história do Conde das Arcas decepado das mãos e frigido em caldeirão de azeite, por espanhóis ou mouros (para o caso tanto faz); ele era o Pastorinho Perdido nos longes da serra e perseguido por lobos maus, ou ainda O Arre, Burro, Caga Dinheiro!, burrico sobredotado que se alimentava de patacões velhos do tempo dos afonsinos e largava luzidias moedas de ouro que faziam rico a seu dono. Havia também a história das Três Maçãzinhas de Ouro, tesouro avaramente escondido pelos mouros debaixo da Fraga Grande da Ladeira, um avantesma de penedo que, talhado, daria para erguer outro bairro da Portela, e que uma moira encantada trouxera para o Alto da Ladeira, à cabeça, numa noite de luar, enquanto fiava estrigas de oiro em roca de oiro, com um fuso de oiro. E debaixo da fraga desmesurada sepultou ela as três maçãzinhas de oiro, furtando-as à cobiça dos nazarenos. E ainda lá estão à espera que alguém descubra as palavras mágicas que irão baldear a fraga gigantesca.

Eram, enfim, luminosos mundos de fantasia que moravam connosco, que se erguiam já ali, por detrás do áspero granito que nos separava da treva e das cordas de água que desabavam lá fora.

***

Depois era a festa da castanha, dos bilhós a nascerem loiros e perfumados do negrume das cascas tisnadas. Com risadas, riscos de fuligem pela cara e o jogo do arrebunhana em que se faziam e desfaziam fortunas daquele oiro que os soutos da serra pobre nos tinham dado e faziam de nós os reis do mundo.

Irremediavelmente, como perdemos a infância, assim os perdermos a eles, aos contadores de histórias e ganhámos em sua substituição esses outros contadores de outras histórias, a desengraçada e chatíssima subespécie dos políticos, prováveis parentes afastados do Barão (o onagrus baronius de Garrett) que impudentemente nos entram casa dentro pela janela mágica de McLuhan, prometendo-nos o bacalhau a pataco e bufarinhando com a nossa consciência.

Que é feito da graça, da imaginação, da simprez do Ti Zé Miguel que nada prometia, nada pedia e aos mundos fabulosos das suas histórias acrescentava a dádiva das suas castanhas, as melhores castanhas do mundo!?

E quando as pálpebras pesavam já com o sono, acontecia de arranchar também na dormida e por ali nos amontoávamos aos quatro e cinco em cada uma daquelas camas de bancos, ajaezadas com lençóis de estopa mais áspera que a estamenha com que os eremitas medievais ganhavam o paraíso, e grossos cobertores de papa tecidos no tear palreiro da Zulmira com a lã por ali crescida, nos gados do Frederico ou do João Santo e cobertas com as mantas de trapos que os cesteiros ambulantes trocavam pela cesta de batatas.

E em sonhos continuávamos as histórias do ti Zé Miguel, visitados por cavalos brancos arreados a ouro e cavalgados por princesas gentis, ou assustados por lobos maus que saltavam, de olhos em brasa, das touças cerradas do Cabeço Cercado. Assim sonhávamos as histórias do ti Zé Miguel e não era raro que, ao amanhecer, nos víssemos presenteados, sobre as mantas de trapos, com montículos de prata que ou fadas tecedeiras ou anões moleiros peneiravam das nuvens pela peneira da telha vã.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ARES DA SERRA

II - POTRIQUEIROS

por António Augusto Fernandes

Conversava-se ao desenfado sobre política e políticos no meio daquela gente tranquila das serras do norte. Aproveitando uma pausa nos prolóquios, uma mulherzinha miúda, de atentos olhos de azeviche, envolta nos trapos negros de quem já muito aturara à vida em fomes e pesares, sai-se de lá com a exclamação desenganada: São uns potriqueiros! E a palavra saltou-me, inteira na sua risonha complacência, dos escaninhos das memórias da infância, onde adormecera há que vidas.

Onde iam eles, os potriqueiros!

Nos tempos esganados que se seguiram à Segunda Grande Guerra, não era fácil para um pobre acudir todos os dias aos ladridos da barriga atormentada pela fome e havia que recorrer a almudes de criatividade para rapar o magro pão de cada dia, dia sim dia não. Dentre esses imaginativos salientavam-se os potriqueiros. Potriqueiros lhes chamava o povo do norte, fazendo uso de uma simpática corruptela de pelotiqueiros, significando uma espécie de artistas mais ou menos circenses que faziam jogos malabares com pequenas pelas, cujo diminutivo seria pelotas.

O povo até que gostava deles, dos potriqueiros, seus irmãos na miséria e descendentes de uma longa linhagem de artistas saídos do povo, cujos ascendentes mais remotos se situavam entre aqueles velhos jograis que, no tempo dos afonsinos, percorriam feiras e vilares com seus momos e mistérios, seus cantares e poemas, numa Idade Média que, nas serras do interior, teimou em prolongar-se pelo século XX, tanto no imaginário religioso e profano, como na maneira de lidar com a terra. Com o tempo a palavra foi alargando a sua dimensão semântica e passou a significar também aqueles que mostram capacidade de sobreviver à custa de simpáticas artes e manhas de carácter mais ou menos histriónico.

Esses potriqueiros arribavam à aldeia pelo Outono, quando partiam as andorinhas e o lavrador dava por findas as canseiras das malhas, da arranca das batatas, pois que os ouriços dos castanheiros, ainda não tinham começado de arreganhar. Pelas encostas da serra, acobreavam as ramagens de touças e soutos e as primeiras névoas prenunciavam o repouso da madre natureza exausta da parturição dos seus frutos. Era um tempo de pausa em que as tulhas cheias deixavam o lavrador mais propenso a largar uma malga de grão de centeio ou meia dúzia de batatas nos alforges destes histriões errantes, em troca de uns malabarismos, duas anedotas brejeiras e alguns truques de ilusionismo que lhe fizessem esquecer as canseiras de todo um ano a lutar com uma terra áspera e avara em mimos. Surdiam imprevistamente, não se sabe donde, com suas azémolas tropiqueiras ajoujadas debaixo dos magros trastes da cozinha de campanha, das vestimentas com que encenavam as suas pantominas e, às vezes, o luxo de um velho animatógrafo asmático cujas fitas enguiçavam a cada cinco minutos.

A moçoila mais vistosa da tropa fandanga, de perna ao léu e faces avivadas a lápis lazúli e vermelhão, mais o moço do cornetim, davam volta ao povoado, alagando de alacridade as ruelas bisonhas da aldeia granítica com o seu colorido e as suas notas vibrantes do velho chanfalho e arrastando atrás de si a horda grulhenta do garotio. E um frémito de charme exótico sacudia as grossas gentes serranas.

À noite, no largo da aldeia, com o sobrado de dois carros de bois desembaraçados das engarelas, postos os pinalhos na horizontal, faziam palco para exibição das suas pantominices, ou, se o tempo não estava para folestrias, em palheiro mais amplo lastrado de palha nova, pedido de empréstimo a lavrador mais galhofeiro. E o pessoal acorria a esse Tivoli improvisado, mais basto que pardais a uma eira depois das malhas. Compenetradamente, os artistas tentavam compensar o seu público dos magros tostões desembolsados entregando-se com denodo aos seus jogos de prestidigitação, à declamação histriónica de estrofes mais ou menos fesceninas e à encenação rudimentar de farsas ligeiras herdadas e estropiadas desde os tempos de Gil Vicente.

Desapareceram os potriqueiros. Desapareceram levados pela correnteza do imparável tempo que tudo consigo arrebata. E, com eles varreu-se a palavra mágica, potriqueiros, que nem sequer o Houaïss nem o Dicionário da Academia registam.

(a publicar também no blog de Rebordaínhos)

sábado, 9 de agosto de 2008

MEMÓRIAS DE UM (POBRE) PARAÍSO PERDIDO

por António Augusto Fernandes


Aí por meados do século XX, no rescaldo das misérias do pós-guerra, a efervescência do renascer de um mundo novo que vinha fermentando por esse Portugal fora passava ainda ao lado de Rebordainhos. Resquícios esporádicos de civilização avistavam-se lá em baixo, em Rossas: automóveis raros passavam ronceiros pela estrada nacional nº 4 e o comboio da linha do Tua passeava-se, muito de seu vagar, entre o Douro e Bragança.


Ora foi por essa altura que o Estado Novo se lembrou de que, lá em cima, nos picotos da Serra de Nogueira, uns trezentos serranos bravos lutavam pela vida, rodeados de soutos e touças onde, no Inverno, uivavam os lobos mais bastos que pardais nas eiras depois das malhadas e no o Verão o sol causticava. E então mandou rasgar, a pá e picareta, aquela estrada madraça que, ainda hoje, os liga ao IP e à estação de caminho de ferro e ao vasto universo. Até essa altura, naquele fim do mundo a mil metros de altitude, a vida decorria sem sobressaltos de maior, atreita apenas às maleitas em que a vida era pródiga e a querelas, rixas e alegrias comunais que os serranos vinham vivendo desde sempre, em moldes idênticos aos dos tempos velhos em que D. Sancho II lhes concedera foral. Até à construção da estrada só dali se saía a pé, de burrico ou no pachorrento carro de bois alcandorados nas poderosas rodas de freixo maciço que alagavam os velhos caminhos com a melopeia cheia de trinados das treitouras bem cingidas aos eixos rijos como aço. Eram desses carros de bois, com a mesma configuração que apresentam nas iluminuras do Livro de Horas do senhor D. Manuel, o primeiro de seu nome, que dependia o ténue tráfego comercial: levar os sacos o centeio e a batata sobejos do sustento das suas gentes e trazer o parco arroz, o pozito açúcar, o cotim das andainas e o aço para apontar as guinchas de arrancar batatas e os enxadões de desfazer monte.


Os três quilómetros até Rossas, percorriam-se, pedibus calcantibus, pelo carreirão deArufe, tortuoso como sendas do Tibete: as mulheres em chinelos e com os sapatinhos depolimento guardados na saquita de chita para serem calçados ao chegar à estação. E do velho Jarrete contava-se que para poupar as botas novas de couro cru fazia o caminho descalço. Um dia que estourou a unha do dedão do pé com uma topada num calhau, largou aliviado: − Porra! Olha se eu trazia as botas calçadas! Mas os carros de bois, para evitarem o desnível da subida da Galiana, alongavam-se em grande volta pela Quinta do Sepúlveda, pelo Cano, pela Airoá, duplicando assim o percurso. Muitos dos velhos finavam-se sem que alguma vez houvessem pisado o macadame de Bragança ou visto as maravilhas dos lumes eléctricos, nem para consultar


um médico, por ali tratando as maleitas em que a vida era sobeja com tisanas de ervas milagreiras e fumigações. O comboio, sim, viam-no lá em baixo, minúsculo como lagarta torcendo-se sobre as duas fitas de ferro e largando baforadas de fumaça pelas ventas. Quando o vento soprava de leste, ouviam-no assobiar como quem se despede − por aqui me vou − até se engolfar no ventre da terra pelo túnel de Arufe, deixando no ar nuvens de algodão sujo e o apelo nostálgico do vasto mundo que se estendia para lá do círculo do horizonte.


A linguagem em que exprimiam alegrias, dores e necessidades do quotidiano rescendia ainda ao galaico-português em que os trovadores do século XIV haviam chorado os seus males de amor. O pão de cada dia estava dependente do sol que fazia germinar as sementes, das chuvas que fecundavam a madre da terra, das trovoadas que em minutos arrasavam o labor de um ano e de Deus que pontificava na sua igrejinha de granito no centro da aldeia que uma pedra no ângulo do campanário data de 1745.


Os insecticidas eram ainda desconhecidos: os piolhos desbastavam-se muito ecologicamente a sabão macaco ou estourando-os entre os polegares e o escaravelho da batateira, recém-aparecido, ao que se dizia, por malandrice americana, afogava-se em latinhas com querosene.


Na roda do ano, a alimentação cingia-se ao pão negro de centeio, à batata e ao conduto fornecido pelo porquito de ceva que se imolava pelo Natal e guardava na salgadeira ou dependurado no fumeiro sob a forma de alheiras e salpicões, porque à escassez dos meios naturais acrescia a penúria herdada da guerra há pouco finda. − Haja saúde e coza o pote − como diz o outro. Mas o negro pote de três pernas pouco mais cozia que batatas com couves e, quando bem calhava, a talhada de toucinho com que se adubava o caldo e, mais raramente, a magra postita de bacalhau, caro como o lume! Ceava-se caldo e batatas e almoçavam-se, de madrugada, as batatas e o caldo sobejos da ceia. Uma sardinha para cada um, quando o sardinheiro adregava de passar, e quanto a chicharros − dos três vinte a cinco tostões − um para cada dois. O pão moía-se no moinho comunal do Catrapeiro e, cada quinze dias, com grandes gabelas de urzes e giestas em que o monte era pródigo, esquentavam-se os fornos que, embora individuais, tinham utilização comunitária, e ali se coziam aqueles pães centeeiros grandes como rodas. Outros mimos como o pão de trigo, o chibinho medrado entre urzes e tojo pelos montes ou o naco de vitela só nas festas assinaladas no calendário. E ninguém tinha o desplante de celebrar aniversários: era lá coisa que se festejasse a data da entrada neste vale de lágrimas! E tirava-se também a barriga de misérias nas celebrações rituais da fartura − as malhas e a matança, com sua licença, do porco. Era este, o cevado, para o qual se inventara o familiar chamadoiro de larego − o amigo do lar − que regalava os palatos serranos com os petiscos mais mimosos: aqueles salpicões muito engelhados e de estética atroz que sazonavam no fumeiro e se saboreavam em rodelas finas cor de vinho velho sobre o carolo de pão de centeio, aquele presunto róseo marmoreado, inventado por algum deus desconhecido para deleite dos seus comparsas no Olimpo e concedido como consolo aos mais afortunados dos mortais. E as alheiras? Pelas manhãs cintilantes de geada, evolava-se pela telha vã das cozinhas e pairava sobre a aldeia uma névoa ténue amarrada pelo frio em que se enlaçavam o cheiro acre da dos cavacos de carvalho ardendo sobre a laje sagrada do lar e o aroma dessas alheiras alourando sobre as brasas e depois acompanhadas pelas vastas malgas de café de cevada. É a excelcitude destes prazeres concedidos também aos pobres que nos faz compreender o culto antiquíssimo ao porco traduzido em dezenas de megálitos com o nome e a forma aproximativa de porcas ou berrões, espalhados por todo o Nordeste. O cochino, durante a ceva era tratado com cuidados de mulher parida, com todos os mimos: farelo, grão, nabos, castanhas, as perfumadas castanhas mamotas que os ganapos pilhavam do caldeirão onde se lhe cozia a vianda, dependurados sobre as grandes fogueiras do Inverno incipiente; e ainda aquele luxo das folhas de negrilho que a juventude mais lépida ia ripar nos ramos cimeiros dos olmos que se erguiam como espeques nas estremas dos lameiros; essas folhas, ásperas como lixa, raspavam os intestinos do bicho e, diziam os antigos, davam aos presuntos curados na aldeia um não-sei-quê que os distinguia de todos os outros.


Mas isso era papa fina afugentada do cotio e reservada para os dias assinalados na folhinha ou dos trabalhos maiores ritualizados na roda do ano, como matanças ou malhas. De resto, o passadio do dia-a-dia, de uma austeridade cenobítica, esbeltava os corpos, enrijava as almas e deixava-lhes o céu garantido.


O termo da freguesia abrange os seus doze quilómetros quadrados, mas quase tudo cerros escalvados de terras delgadas que nunca tentaram frades de ordem rica nem senhores de pendão e caldeira. E porque os ricos e poderosos nunca cobiçaram tais terras, todos eram donos e senhores de leira onde colher as suas cinquenta ou cem pousadas e de belga onde plantar a cesta de batatas e o talo de couve galega para o caldo, o que lhes dava direito a sentirem-se donos e senhores da sua vida e alijar qualquer tipo de canga. Dignos de serem agricultados à maneira do sul só alguns vales, engordados pelo húmus que, ao longo de séculos as enxurradas iam arrastando dos altos e que tivessem água de nascente, para lameiro ou batatal. Mas, como abundava a mão-de-obra, todos os cerros andavam a cultivo. Esgaravatavam-se montes e pedregais onde só o centeio, amigo do serrano, resistente a secas e geadas, vingava para que, havendo pobreza, não houvesse miséria nem se morresse à míngua.


Nos princípios do Outono, os plangentes carros de bois chiavam pelos caminhos de touças e soutos atestados de toros de carvalho e ramos sobejos da poda dos castanheiros, deixando os sequeiros à porta de casa abastecidos para enfrentar a longa e ríspida invernia que se fazia anunciar pelas primeiras chuvadas e pelas névoas que toucavam a Serra dos Pereiros.


Pelos Santos, era já com os dedos engaranhados pelo frio dos nevoeiros outonais e pelos primeiros sincelos que os castanheiros pingavam as castanhas mais temporãs. Em dia de Todos-os-Santos, os garotos acudiam aos soutos acendendo grandes montes de fetos e giestas secas onde tostavam as primeiras castanha da temporada. Com a sua malguita de marmelada e meia dúzia de malápios trazidos nas sacolas de remendos festejavam o primeiro feriado do ano com mais orgulho e sarambeques que sibaritas orientais.


Na poveca serrana não se podia dizer que houvesse pobres e ricos, mas apenas uma pequena diferença entre pobres e menos pobres, cifrada em uns alqueires de centeio e umas sacas de batatas a mais de um lado ou de outro. De resto, todos ganhavam honradamente o pão de cada dia com o suor do próprio rosto e a ajuda do vizinho, não se registando desequilíbrios sociais suficientes a engendrar qualquer hipótese de revolução ou conflito social. Uma que outra casa lá tinha o seu moço de lavoura, quase sempre de fora, que tinha alojamento no palheiro, com duas mantas encafuadas no feno bem cheiroso, aquecido pelo bafo das vacas, dentro de todos os requisitos da ecologia.


O Largo do Prado era o centro social onde se enfrentavam as duas tabernas concorrentes mas amigas. Aos domingos de tarde, ouvida a missa do P. Amílcar, para aí vinham os homens espairecer sob a bênção patriarcal de um freixo e um negrilho monumentais, enquanto as mulheres abancavam à soleira da porta de casa para desenferrujar a língua e pôr em dia os faitsdivers comunais. Aliás o freixo do Prado tinha a sua crónica: uns anos por outros, aparecia um figuro da cidade que pagava um cântaro de vinho ao pessoal e, numa solenidade de rito, ia lançar ao tronco da árvore o copo que lhe era devido, em memória do avô que o tinha plantado há que vidas. A rapaziada mais espigadota, ainda com ânimo para tais folestrias depois de uma semana agarrados ao cabo do enxadão ou à rabiça do arado, jogavam ao fito, à relha ou ao calhau, muito esfuziantes e provocadores na meça de forças, sobretudo quando passavam as moçoilas, muito louçãs nas suas chitas domingueiras, fingindo-se ariscas no faz-de-conta de algum recado urgente e lançando o rabicho do olho para os conversados. Os mais entradotes a quem os anos já tornavam mais pesada a rabadilha e amainavam as quenturas do sangue, abancavam para uma partida muito vozeada de sueca ou o chincalhão a quartilho fraternalmente partilhado por todo o adjunto. E, por altura das ave-marias, quando as mulheres embiocadas corriam pressurosas para o Terço, uma animação muito pingueira estrondeava já por todo o Prado.


Ao centro do largo gorgolejava uma bica que trazia a água encanada lá de cima, do Lombode-à-Igreja, sítio do lugarejo primitivo, de reminiscências castrejas, um alto pedreguento batidode todos os ventos, donde se avistavam muitas léguas em redor, com as vantagens defensivas que a localização representava nos grossos tempos dos avoengos que de lá devem ter avistado as legiões de César calcorreando a via romana vinda de Salmantica em demanda de Aquis Flaviis, galgando a serra lá em cima, na garganta do Pórto. Lombo-de-à-Igreja lhe chama o povo, que os topógrafos, ou por uma ignorância a crassa ou por dureza de ouvido, cadastraram como Agreja.


Além dessa bica e de uma outra mais aristocrática, gizada pelo Sr. professor Francisco Ribom junto ao pelourinho, matava-se a sede, pela concha da mão ou pela aba do chapéu, daFonte Grande, da Fonte do Espinheiro e da Fonte da Vila, três fontes de chafurdo, de água granítica abençoada, com a naturalidade bíblica e a falta de higiene de quem desconhecia a existência de termos obnóxios como poluição, micróbio ou bactéria.


Nesses tempos, à aldeia assistia ainda o designativo de vila usado pelos dos Pereiros, com origem em velhos tempos, não menos pobres, mas de maior prestígio, conferido por foral de D.Sancho II e atestado pelo velho pelourinho que perdera já a cabeça e os anos corcovavam sobre a fraga esconsa que lhe servia de soco, à ilharga da Igreja e pela memória da Casa da Cadeia, então adscrita a habitação do professor. De resto, a aldeiazita de cem fogos, vista de longe, tinha um ar airoso: ruas assaz direitas e largas para o comum das aldeias nortenhas, espraiada pela encosta voltada a sul e de costas para Espanha. A poente alteava-se a cumeada da Fraga do Berrão, onde em tempos presidira a divindade tutelar de uma porca como a de Murça, furtada, diziam os antigos, pelos de Parada; em frente, barravam-lhe o horizonte os longes azulados da serra de Bornes, e a leste a linha esfumada do planalto que vai de Mogadouro a Miranda. Olhada do Alto da Cabeça que lhe ficava defronte, o povoado tinha o seu quê de prazenteiro, porquanto a tristura das paredes negras de granito e dos telhados pardos do musgo se esvaía, amaciada na grande profusão de verdes: negrilhos, calineiros, macieiras e nogueiras e os remendos mimosos dos hortejos entremeados com as casas. Aqui e além, a mancha de cal dos muros da Casa da Aula, da Igreja e do Cemitério e mais três ou quatro casas, desabrochava como flores de esteva sobre fundo de urzes e codeços.


Caldeados pela aspereza do clima e rijeza do solo, os serranos não eram particularmente expansivos, mas também não eram, de seu natural, azedos. Parcos de palavras, até na brevidade com que narravam os casos da vida ao serão ou suciando pelas tabernas, lá se tornavam mais palavrosos com o copito bebido à sobreposse. Então diziam o que deviam e o que não deviam e rebentavam altercações breves como tempestades de Agosto que os mais cordatos e menos bebidos amainavam sem sobressalto de maior. Calçavam-se tamancos talhados em amieiro pelo tio Grilo soqueiro e vestia-se cotim chita; a roupa interior, quando calhava de se usar, era de tomentos que produziam sobre a pele o efeito penitencial da lixa sobre a madeira. Mas era gente de alma lavada como geralmente são os habitantes das serras, afeitos a ares limpos, horizontes largos e habituados a apenas terem Deus acima de si. E, como que demarcando essa única dependência, já os antigos tinham erigido cruzes de pau tosco sobre soco em cantaria bruta nas quatro entradas da povoação: a caminho da Tempa, pelo leste, na saída da Airoá, a sul, à Corredoura do lado poente, e a norte quando se vai para a Tergaça, porque, sem perderem muito tempo com beatérios, conservavam o sentido do Transcendente e aprestavam-se de boamente a desencardir a alma e receber Nosso Senhor pela Páscoa da Ressurreição. Nas tardes de trovoada brava, quando os alustros fuzilavam sem relego e terrincos medonhos pareciam querer afundir o mundo, quem mais por perto andasse da Igreja apressava-se a ir desinquietar do seu nicho de santo um S. Silvério, papa e mártir muito maneirinho, de dois palmos. Debaixo de um vasto sombreiro de doze varas, o santo lá se deixava transportar para o adro como infante ao colo de alguma comadre, muito compostinho com sua mitra e báculo. Voltado para a serra a poente, ficava-se em contemplação, futurando das misérias que a violência dos elementos poderia acarretar a agros e criação se não lhes acudisse. E o santo acudia-lhes sempre, porque aquela gente era boa quando podia e a vida a não aporrinhava em demasia. De tal protecção acrisolada tinham a certeza os serranos quando, no dia seguinte, pelos soalheiros se fazia relato muito bisbilhotado e condoído das desgraças sucedidas nos povos em volta: um castanheiro de séculos rachado de alto a baixo, trinta ovelhas fulminadas, um batatal arrastado pela enxurrada… E sabese lá mais o quê! Este São Silvério que pontificava à esquerda do aro do presbitério era um santo muito da devoção da pequenada, fosse pelo seu tamanhinho, fosse por fazer com muita virtude as vezes de Santa Bárbara nas trovoadas. Trocadamente pintado de roxo por algum pinta-monos menos familiarizado com a hagiografia, mais tarde foi reconduzido aos seus trajos brancos de papa e parece que ainda assim se mantém.


De resto cantavam loas ao Deus Menino e arrematavam as roscas do charolo pelo Natal, casavam-se as moças e serravam-se as velhas por um embude, de outeiro para outeiro, pelo Carnaval, celebrava-se a fartura efémera das colheitas no final do Verão e faziam-se filhos por toda a roda do ano, como mandava madre natura. E era assim que a Casa da Aula andava repleta de criancedo: umas vinte rapariguinhas muito conversadeiras para a D. Maria e outros tantos rapazotes brutos e vivaços para o mano, o Sr. Francisquinho Ribom, quando nos tempos sáfaros de hoje não chegam à meia dúzia por atacado e a escola já fechou por falta de quorum.


Os tempos não eram melhores que os de hoje, nem mesmo pintados no retábulo da saudade, bem pelo contrário. Eram outros e assim foram vividos. E, dentro de pouco, vê-losemos sumidos na voragem dos dias, não figurando sequer como ligeira nota de rodapé nosmanuais etnográficos.


Por isso, para que não caiam de todo no olvido, deles aqui se lavra nota, porque a grande história é a que nos moldou a infância a que pertencemos, mesmo quando há muito perdida, se dela nos sobram para sempre uns fiapos de nostalgia guardados nas arcas da memória.

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