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sábado, 26 de janeiro de 2008

A EMOÇÃO E A RAZÂO

A nossa Casa atravessava um momento particularmente difícil. A demissão da maioria dos elementos directivos inviabilizava a actuação do órgão executivo por falta de quorum. Em carta, dirigida ao Presidente da Assembleia Geral, os sete demissionários acusavam o Presidente da Direcção - que também se viria a demitir na Assembleia Geral Extraordinária de 4 de Abril de 2001 - de actuar de forma autocrática e ignorar sistematicamente a opinião dos seus pares, dirigindo a instituição "como se fosse a sua casa,"(sic), conforme consta da respectiva acta.

Foi, porventura, no miradouro da "Fraga Encavalada" ou talvez ao subir a serra, com a emoção lá do alto, da vista do Vale da Vilariça até aos confins, que num dos incontáveis regressos às origens desse ano, com as dificuldades da Casa a massacrarem-lhe a consciência, se decidiu.

"Dirijo-me a todos vós para lembrar a necessidade de maior participação na vida da nossa Casa cujos assuntos só a nós dizem respeito! Dirijo-me a todos vós para apresentar os candidatos aos órgãos sociais da nossa Casa!", escrevia no manifesto da sua candidatura a Presidente da Direcção.
E acrescentava: "Garanto-vos que, se formos eleitos, daremos à nossa Casa uma gestão transparente e honrada, à altura dos seus antepassados, para que ela se torne um espaço de vida com diálogo, de saudável convívio e tolerância, um centro cívico de defesa e afirmação da nossa cidadania transmontana e altoduriense."
E concluía: "Para isso temos um programa que queremos cumprir." (...) "Temos o sentido da Honra..."

No dia 18 de Junho de 2001, inicia-se um novo ciclo. Na sequência de acto eleitoral com elevada participação, Nuno Augusto Aires, - integrando uma equipa com figuras gradas e históricas da Casa - passa a ser o novo Presidente da Direcção.

"Com participação e sereno debate, seremos mais exigentes"... e "a divergência e a crítica, racionalmente feitas, não nos metem medo, pois, como é sabido, são fonte de conhecimento, alargam os nossos horizontes e empurram-nos para a criatividade", proclama no discurso da sua tomada de posse e assume: "devemos contrariar aqueles que, não aguentam o debate e a crítica, pois, em regra, são esses que acríticamente querem impor a tirania da sua incontrolada e, às vezes doentia vontade".

Nuno Augusto Aires, trasmontano dos quatro costados e magistrado de profissão, é assim mesmo: o coração fora do peito, só de falar da sua e nossa Terra Trasmontano-altoduriense, e a austera intransigência do cumprimento do dever e da Justiça.

Quase sete anos à frente da Direcção da nossa Casa são testemunho disso. A sã convivência, a cortesia, a verdade, a ética, a honestidade e a honra são valores que irradiam para os Corpos Sociais e para a generalidade dos associados da nossa Casa.

E o bom senso e a estabilidade também!

A Direcção tem submetido aos sócios, com a regularidade estatutária, o Relatório de Actividade e Contas anual e o Plano de Actividades e Orçamento para o ano seguinte, que têm sido aprovados pela quase unanimidade dos presentes nas Assembleias Gerais. Isso significa que há objectivos cumpridos, que há trabalho profícuo e realizações. E que o Presidente Nuno Augusto Aires tem estado em todas elas.

A organização - a par das excursões e das já tradicionais festas - de inúmeros eventos culturais, como o lançamento de livros, palestras, conferências e homenagens a trasmontanos ilustres são uma demonstração inequívoca desse trabalho e dinamismo.

A co-organização e a participação ao mais alto nível no III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Bragança, de 26 a 28 de Setembro de 2002, amplamente publicitada pela comunicação social, deu maior visibilidade e credibilidade à Casa.

"As habituais comemorações dos aniversários ( da Casa ), no ano 2005, subiram ao plano superior de Comemorações Centenárias. Começaram a 14 de Janeiro, com Sessão Solene na biblioteca do Palácio Galveias e terminaram nas Oficinas de S. José / Colégio Salesiano, com três dias de festa" lê-se no livro dos "100 anos da CTMAD" com que a bondade e a generosidade do Dr. Armando Jorge Silva nos privilegiou.

E acrescenta:
"Em 22 de Julho no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, obedecendo a imperativos do executivo camarário, entregou à CTMAD a Medalha de Honra da Cidade e respectivo diploma pelos serviços de excepcional relevância prestados à cidade de Lisboa.
No dia 23 de Setembro de 2005, data do 100º aniversário, o Ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Dr. Manuel Pedro Cunha da Silva Pereira, em Sessão Solene, com o auditório do Colégio Salesiano repleto de associados, colocou no estandarte a medalha representativa da Ordem do Infante Dom Henrique com que o Presidente da República,(...) agraciou a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro pelos serviços relevantes prestados à Região e a Portugal."

A construção da Nova Sede - que é uma aspiração colectiva de sempre dos dirigentes e associados da nossa Casa - está mais perto. A boa nova veio, na última Assembleia Geral, pela boca da nossa associada e membro do Conselho Fiscal, Drª Ana Sara Brito, que veio dissipar dúvidas de dois ou três associados que têm obrigação de andar mais atentos e evitarem ser injustos e ingratos.

Com tantos feitos, por razões estatutárias, o Presidente Nuno Augusto Aires vai cessar as suas funções.

Como tesoureiro - e julgando interpretar o sentir unânime da Direcção a que tenho a honra de pertencer desde 18 de Junho de 2004 - , não podia deixar de escrever estas palavras e daqui, dizer bem alto, também como associado, fazendo-me eco da esmagadora maioria dos membros da nossa Casa: OBRIGADO NUNO AIRES !

Como velho amigo dos tempos do liceu, sei que, independentemente de integrares os Corpos Sociais, continuarás connosco e nunca serás um desertor das causas e dos princípios.

Seguindo o exemplo dos nossos antepassados, desde o Grémio Transmontano, não te pouparás a sacrifícios ou a esforços e nunca conseguirás abandonar-nos. Porque a nossa região está dentro de nós e a nossa Casa da diáspora consubstancia as nossas raízes.

Servi-la desinteressadamente é para ti - e para nós - uma honra e uma paixão.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Editorial de Dezembro 2007

Caros amigos e Associados!

Cá estamos nós para mais um Natal e umas boas e merecidas férias do solstício de Inverno sem esquecer as tradicionais prendas que na chaminé e no sapatinho nos esperam a fazer de nós, pelo menos uma vez no ano, a criança que cada um transporta neste ciclo do ser que a existência nos consente e por vezes premeia.

Este ano, mais uma vez renovámos a tradição, fizemos a CEIA DE NATAL, assinalámos a solidariedade que a civilidade nos habituou e cumprimos os antigos hábitos das gentes de aquém e de além Marão o que vale dizer que honrámos os nossos antepassados.

Neste Natal, que é da minha despedida da Direcção da Casa, há que relevar as coisas boas que nestes quase sete anos se fizeram, e muitas foram que as não vamos aqui enumerar, há que salientar os bons contributos que alguns poucos associados deram à Casa, especialmente aqueles mais humildes que abnegadamente estiveram sempre dispostos a colaborar com Casa sem nada pedir ou esperar e há também que lembrar os contratempos que um ou outro associado provocou, mais por mal de ignorância ou perturbação afectiva à CTMAD que de intenção de mal fazer.

A todos, mesmo àqueles que não gostaram do nosso trabalho, o nosso muito obrigado pois foi com todos que a Casa se levantou, readquiriu nova imagem, reforçou o seu conhecido prestígio regionalista e notoriedade cultural e levantou alto o nome da Região e população que representa.

E, se conquistámos estes patamares, há que não descer deles e a nova e divulgada lista de candidatos à Direcção da Casa, assim como os restantes membros dos de mais órgãos sociais, são, quanto a nós, a garantia de que esse desiderato vai perdurar e um dia, que breve há-de ser, haveremos de vê-lo premiado com a tão ambicionada Nova Sede.

E, sem esquecer que se aproximam as eleições, muito importaria que uma ou mais listas concorressem, a par da indicada pela Direcção, que seria, por um lado, um sinal de forte vivência da e na CTMAD, por outro, seria uma prova de amor e garantia de eternidade.

Vamos amigos e associados, formem grupos, alinhem ideias, façam uma candidatura e concorram aos órgãos sociais da CTMAD!

Despeço-me com um abraço e um até sempre porque, saindo da Direcção, não saio da Casa e a ela estarei gostosa e inelutavelmente ligado e dar-lhe-ei os contributos que puder.

sábado, 1 de dezembro de 2007

EDITORIAL DE NOVEMBRO

Caros Amigos e Associados!

Este será o penúltimo editorial que subscrevo pois, como já foi anunciado há muito, nomeadamente na última assembleia-geral ordinária, este ano que termina é ano de eleições na CTMAD e não sou candidato ao cargo de Presidente da Direcção.Importa, por isso, sem querer ser professor ou pedagogo na matéria, lembrar o renovado desejo de os associados participarem activamente nas eleições, exercerem os direitos de eleger e serem eleitos, subscrever listas de candidatos, participar na elaboração dos programas, apoiar e promover a divulgação das listas e respectivos programas para, deste modo, exercerem cidadania e o indispensável que lhe subjaz.

A vida da CTMAD tornar-se-á mais activa e atraente se os associados apresentarem uma ou duas listas alternativas á que a Direcção apresentar pois só assim haverá participação e só assim daremos prova da nossa maturidade democrática.Por isso, amigos e associados, toca a reunir na Casa e apresentar uma ou mais candidaturas. Mãos à obra!
Aproxima-se o Magusto, uma festa tradicional da nossa terra e da nossa Casa e façamos dele uma prova de fraternidade regional, esqueçamos pontos de vista divergentes, por vezes até azedos, mas lembremo-nos da nossa qualidade de Trasmontanodurienses e do espírito de romaria que a festa há-de ter.Lá estarão as habituais vendas dos produtos regionais, a boa fruta e as castanhas de Carrazedo de Montenegro, sem esquecer os enchidos de Vinhais, Valpaços e Mirandela, o bom azeite e o mais que se verá, tudo da Nossa Terra.E não faltarão as febras e a boa castanha assada, como noutro local damos conta, que este ano, para estimular a participação dos associados e sobretudo daqueles que, tendo as quotas em dia, ver-se-ão modestamente recompensados pela sua regularidade contributiva.Por isso, amigos e associados, compareçam no magusto, que é no local habitual que já conhecem, no Colégio dos Maristas, em Benfica, Lisboa, levem os vossos amigos e façamos uma grande festa para ver se conseguimos esconjurar a melancolia e a apatia que alguns de nós vivem.
A CTMAD, como já demos conta noutros números, atravessa uma crise financeira que não foi ultrapassada e, por razões de contenção de despesas, teremos de reduzir o número de publicações do jornal motivos por que, sendo este o último deste ano, não será de mais lembrar que teremos de festejar o Natal, que à semelhança de anos anteriores, será no dia 18 de Dezembro. E, como as nossas instalações não o permitem, importa ter presente que só se aceitarão 80 inscrições, o que vale dizer que só participarão os que atempadamente o fizerem.
Deste modo, em jeito final, daqui mandamos um grande abraço de fraternidade e boa saúde para todos os associados sem esquecer um bom ano de 2008, sobretudo com muitas, muitas, muitas propriedades, digo, prosperidades!

quinta-feira, 14 de junho de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS ! - 3ª Parte*


No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
 - Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
 - Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de St. Agustin onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
Instalados no n.º 37 da Rua de St. Agustin a azáfama do trabalho não parava pois, pouco antes, ainda na anterior loja, Constantino havia decidido concorrer à Exposição de Paris que nesse ano se realizou nos Campos Elíseos.
Constantino, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos, o seu stand foi dos mais visitados e as suas obras foram enaltecidas, com primeiras páginas de jornais, tal era a beleza, encanto e perfume que transmitiu aos seus arranjos florais.
A excepcional qualidade do seu trabalho foi reconhecida por todos e foi assim que, no último dia do certame, viu o seu nome ser pronunciado pelo Rei que o declarou vencedor do certame em arte floral.
Com este prémio os aplausos foram mais que muitos e até o Sr. Flamet, esquecendo a azedume da saída, veio cumprimentar Constantino prestando-lhe sentido elogio.
Com este prémio o reconhecimento de Constantino foi geral, ultrapassou fronteiras, fez crescer o seu negócio cujas encomendas eram agora satisfeitas por 40 empregados.
Constantino, porém, não se deslumbrou e, acicatado pelo desejo de inovar e conhecer novos perfumes, decide uma viagem a Inglaterra e aos Pirinéus para estudar a flora e botânica destas regiões, que era rica. Confiada a loja aos seus empregados, sempre dirigidos pelo seu amigo Lequerel, Constantino embarcou para Inglaterra e regressou pelos Pirinéus na descida dos quais, em Tercis-les-Bains, sofreu uma queda quando, sentindo-se ainda rapaz e a lembrar-se da sua terra, subiu a um penhasco para apanhar uma flor que tinha um azul que nunca antes vira.
Nesta vila, reteve-o a doença uns tempos, e, a conselho dos naturais, descobre as águas termais que o ajudaram a recuperar das mazelas nas pernas e costelas e que mais tarde tanto o haviam de ajudar no alívio do seu reumatismo.

Regressado a Paris, carregado de novos perfumes e flores que descobrira nos Pirinéus, Constantino lança-se de novo na profissão pois as encomendas das casas reais, nobres, e burgueses ricos e poderosos não paravam, todos disputavam as flores de Mestre Constantin.
Como o negócio não parasse sentiu necessidade de arranjar outras instalações pois as da Rua de St. Agustin já se mostravam reduzidas para albergar os 40 trabalhadores.
E é assim que por volta de 1846 se instala no 1º e 2º andares do n.º 7 da Rua D'Antin, nas proximidades da Ópera de Paris, por onde passava a melhor clientela da cidade.
Pela primeira vez sentiu Constantino o que era ter uma casa/habitação próprias pois, vivendo no amplo 2º andar, sentia o prazer de descer ao primeiro, de receber os prestigiados clientes no salão que a oficina dispunha e de ver todos os seus empregados a cumprir as ordens que lhes dava e sobretudo de ver o seu projecto empresarial e artístico realizado.
Este gozo, porém, havia de durar pouco pois, com a revolução de 1848, Paris tornou-se uma cidade de grandes dificuldades e miséria e durante dois anos foi esperar melhores dias sem que, contudo, tivesse de despedir os seus empregados que, por causa das barricadas e fome, na sua própria Casa e loja os alojou.
E só a abnegação de Constantino salvaram a sua empresa pois, não obstante Paris não lhe proporcionar negócios, a sua fama pelas casas reais da Bélgica, Alemanha e outras era grande e com elas conseguiu muitos negócios e recuperar o movimento comercial antigo.
Em 1850, serenada a Revolução e implantada a República, já o rei dos Floristas gozava de novo as delícias do negócio e é, então que, para calar a mágoa da saudade e aquela velha angustia que lhe rasgava o peito decide vir a Portugal.
Anunciadas e distribuídas as ordens sobre o giro da casa, Constantino dá ordens ao Sr. Lequerel para anunciar a viagem aos clientes e divulgar o facto nos jornais de Paris e Lisboa.
E é assim que Lisboa recebe o Rei dos Floristas.

sábado, 5 de maio de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS - 2ª Parte*

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, sentiu que podia dar novo salto na profissão e, sem dar a conhecer os seus desejos, começou a fazer planos à vida, sem esquecer que ali o Sr. Flamet seria sempre o mestre e ele nuca passaria do garçon-aprendiz, um empregado, confinado ao salário da semana, que mal daria para viver.

Certo dia, pela manhã, verificou que Mestre Flamet, a um cliente mais habitual, alto, magro, sempre vestido a preceito, sapatos envernizados, gravatas a condizer com a camisa e o facto, tratava amavelmente por Sr. Isidore Culot e, com cerimoniosa atenção, oferecia o Sr. Constantin para lhe fazer, na hora, mais uma perfumada camélia branca.

Constantino, feliz por servir tão ilustre cliente e antevendo um potencial homem de negócios capaz de o ajudar, de imediato deitou mãos à obra e, num ápice, apresentou-lhe a mais perfumada e fresca camélia que siderou o Sr. Isidore.
Espantado com a elegância das pétalas, o perfume, a arte, a rapidez, com que viu aparecer a camélia, exclamou incontidos elogios que o Sr. Flamet nunca ouvira.
Cenas destas se repetiram até que um dia, já em conversa a sós com o nosso Constantino, o Sr. Isidore, entre dentes, lá lhe disse:
- Sr. Constantin está na hora de ser alguém, de se estabelecer por sua conta.
Constantino, sem pestanejar, de pronto lhe respondeu:
- Sr. Isidore, isso é bom de dizer, mas, e o dinheiro para montar uma oficina?
Homem, não hesite, faça-se à vida, descubra uma loja central que o resto fica comigo.
O nosso Constantino, oito dias depois, anunciava ao Sr. Flamet o seu propósito de se despedir ao mesmo tempo que lhe agradecia as oportunidades que lhe dera.
O Sr. Flamet, chocado com a notícia, balbuciou-lhe o aumento de ordenado, melhores instalações e condições de trabalho, casa por conta do patrão, enfim uma assinalável melhoria.
Constantino, decidido, repetiu os agradecimentos e anunciou-lhe que se ia estabelecer, por conta própria, pois ali não passaria de um eterno aprendiz.
Lamentando o sucedido mas compreendendo a ambição de Constantino acabou o Sr. Flamet por agradecer a atenção e o carinho que recebera e desejou-lhe a melhor sorte.
E é assim que, em 1837, o nosso Constantino aparece estabelecido em Paris, no n.º 59 da Bourbon-Villeneuve, onde permaneceu até 1844.

Paris rendeu-se à arte de Constantino, a sua fama ultrapassou fronteiras, as casa reais encomendavam-lhe as flores e, pelas ruas, frequente era verem-se passar os ramos de flores de Constantino ou as camélias nas lapelas dos casacos que passara a ser grande moda.
A oficina tornava-se pequena para tanta encomenda e os empregados já não eram capazes de satisfazer as encomendas.

Em 1844, após o desgraçado tufão que arrasou a ilha de Guadalupe, nas Antilhas, sob administração francesa, A rainha Maria Amélia, perante tal desgraça, resolveu lançar uma quermesse com cujas ofertas seriam organizados leilões para angariar fundos para os sobreviventes.
Entre as muitas ofertas destacavam-se as grinaldas e os ramos de Flores feitos por Constantino para além de outras obras de arte com que fidalgos e burgueses ajudaram a por em pé tal iniciativa.

As rosas, os amores-perfeitos, as camélias, entrelaçadas em ramos, ganhavam, com as respectivas decorações, uma beleza e brilho tão impressionantes que as senhoras, sem olhar a preços, as disputavam no animado leilão.
 Todas queriam as flores e os perfumes de Constantino e uma delas, sem querer, retirou uma pétala duma flor e, levando-a ao nariz e parecendo-lhe natural, extasiada, gritou:
Maravilha, maravilha! Viva Constantino, Viva o Rei dos Floristas ao que todos os presentes em uníssono repetidamente aplaudiram.
Correu célere a notícia e, no dia seguinte, pela manhã, os jornais do dia anunciavam em grandes parangonas o acontecimento.
A rainha Maria Amélia, ante tão grande ovação, encantada pelos ramos de flores que antes vira e tocara, acabou, nesse mesmo ano de 1864, por enviar à loja do nosso Constantino o mensageiro habitual para encomendar a coroa de flores de laranjeira que a princesa Dona Clementina haveria de levar no dia do casamento.
Constantino, emocionado pela opção da Rainha e antevendo o que isso representava, de imediato respondeu ao mensageiro que no dia seguinte seria ele próprio que levaria duas coroas para sua alteza escolher a que mais gostasse.
Os empregados, em uníssono, grande ovação prestaram a Constantino e mais uma vez exclamaram: Mestre, mestre, grande mestre, o Rei dos Floristas
Lequerel, também sócio e contabilista da sociedade, depressa se abeirou de Constantino e, sem mais, ripostou-lhe:
- Mestre, uma rainha só pode encomendar flores a um rei, ao nosso Rei dos Floristas!
Bom, bom, meninos, vamos ao trabalho, amanhã começa um novo dia, assim o creio.

No dia seguinte, como prometera, apresentou-se Constantino no palácio e, conhecedora da sua presença, decidiu a rainha receber ela própria o grande Constantino.
Ante tão prestigiante atenção, Constantino, mal viu a rainha entrar no salão, depressa se abeirou e, de joelho em terra, como era hábito nesses tempos, entregou à rainha Maria Amélia duas delicadas grinaldas de flores e botões de laranjeira, uma, artificial, feita pelas suas mãos, a outra de flores naturais igualmente feita por si.
Mas, Mestre Constantin, só se encomendou um ramo de flores!
- Majestade, decidi fazer duas coroas para que possa escolher e, se me for permitido, deixarei as duas e amanhã virei buscar a que for rejeitada.
No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:
Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:
Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:
- Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores
- Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?
- Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.
 - Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.
 - Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?
- Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!
- Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.
E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!
- Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?
O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:
- Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!
- Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de Santo Agostinho onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.
 
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terça-feira, 3 de abril de 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS! - 1ª Parte*

A Torre de Moncorvo de propósito fui para assistir a uma conferencia sobre o passado e a modernidade do burgo e, pelo amor que tenho aos livros, lá peguei num daqueles que as câmaras municipais fazem o favor de dispensar e cujo titulo dá por " Constantino Rei dos Floristas" da autoria da Ex.ma Dr.ª Júlia de Barros Biló, uma letrada e mui douta Moncorvense que, em Leiria, se a informação está actualizada, espalha didacticamente as pérolas do seu saber como, aliás, as obras de que é autora o demonstram.

E, graças ao estilo coloquial e alegremente comunicativo da autora, de um só fôlego li a história que desconhecia e, correspondendo aos seus anseios e porque na história há antepassados de pessoas da minha aldeia – Cardanha e de Adeganha, ambas do concelho de Moncorvo - aqui estou a tentar multiplicar a semente para que os associados da CTMAD e seus amigos, nomeadamente os que lerem esta pequena síntese, ficarem a saber quem foi Constantino, que dos floristas foi rei por essa Europa do século XIX.

Nasceu o nosso ilustre conterrâneo, em Alfandega da Fé, antes do dia 28 de Agosto de 1802 e, nesta data, baptizado foi com o nome de Constantino José Marques e, já adulto, viu reconhecida a sua paternidade cujos pais, segundo o assento de óbito de Percis – Pirinéus franceses – foram José Joaquim Marques Moutinho Lopes e Vicencia Luísa Victorina Banha de Melo.
Para infortúnio seu e não só foi depositado num cesto/açafate branco, como se da "roda" se tratasse, em casa do pároco da terra que aceitou, em pedido de confissão da avó materna, receber e guardar segredo sobre o nascituro que os caprichos da mãe natureza mais a vontade de dois temerários amantes conceberam. Sua mãe, uma mulher casada da nobreza da terra, com marido ausente e ele um jovem de 40 anos. E, para salvaguarda do bom casamento da adúltera mãe e evitar a sua desonroso falatório da terra, seu avô materno impôs, com mão de ferro, a predita solução, tão usual naqueles tempos.

Confrontado o padre com o recém-nascido, depressa descobriu a forma de se libertar do encargo e, para evitar devassas pessoais e outras, assim como o inevitável falatório, tão afim dos ainda medievos meios rurais, despachou o petiz para o Larinho, concelho de Torre de Moncorvo, onde contratou uma ama que amamentou o nosso herói em troca de uma retribuição paga por familiares que só o dito padre conhecia.

Aos três anos arrancado foi da mãe de função e, carregada de lágrimas por lhe tirarem o menino que tratado era como se filho fosse, foi o futuro rei Constantino atirado para casa de um comerciante de Alfandega da Fé onde aprendeu as primeiras letras e as lições do giro comercial que as feiras, de terra em terra, lhe davam e seu amo impunha.

Por indicação de suas não assumidas tias paternas, que nele viam retratado o mano progenitor, foi o jovem Constantino, com 16 anos, atirado como criadfo-grave para uma casa nobre e rica de Moncorvo onde depressa aprendeu os segredos da profissão e onde, pelo menos, hábil e graciosamente uma vez serviu sua mãe e seus avós sem que alguma vez o chegasse a saber e onde sentiu uma vibração telúrica que o arrebatou para uma insondável nostalgia ao ver sua desconhecida mãe desmaiar quando tão fixamente o observava.
Serviu noutras casas sem o empenho e o brilho que demonstrara na primeira e, ante a estampada e regular tristeza que chegou aos ouvidos das não assumidas tias, resolveram as suas protectoras encaminhá-lo para o Convento dos Franciscanos, ali junto a Moncorvo, no sopé da férrea serra do Reboredo, onde, com 17 anos, acabou por entrar.

O jovem, sem vocação para frade, depressa congeminou libertar-se do presídio e, com dezoito anos, decidiu uma noite, na companhia de seu amigo Diogo, abandonar o Convento para, em fuga até Viseu, se alistar como mancebo no Batalhão de Caçadores n.º 5 que havia aderido à revolução liberal.
Sem instrução militar e feito cabo de um dia para o outro, andou, durante dois anos em observações pela Beira, sempre à espera que chegassem os ordeiros e autoritários miguelistas nos quais Constantino via o exemplo a seguir.

Como o seu regimento não era miguelista e porque se dera a vila-francada que reconheceu D. Miguel como rei de Portugal embarcou para os Açores e ilha Terceira onde passou cinco anos.
Ali começou a fazer as primeiras flores que, para os altares das igrejas e capelas daquela e outras ilhas, vendidas eram por uma senhora de 57 anos, Brízida Maria Silveira Brasil, com quem, aos 22 anos, depois de tanto e interessado afecto e carinho, havia de vir a casar no dia 4 de Dezembro de 1824, na sé de Angra do Heroísmo e que depois vira partir quando ela completou 60 anos.

Com a chagada das tropas liberais à ilha e ordenada a substituição do seu regimento, regressou o leal Constantino a Lisboa e, ante a simpatia pelo suposto pulso firme de D. Miguel, alistou-se no seu movimento e foi promovido a sargento.
Com as sucessivas derrotas de D. Miguel, a mais estrondosa das quais foi a do Porto, no dia 29 de Setembro de 1832, e tomada de Lisboa pelos liberais, regressaram as tropas miguelistas a Lisboa com mais derrotas em Coimbra, Leiria e Asseiceira.
Perante tanto insucesso, sem ter eira nem beira nem família que o recebesse em Moncorvo, decidiu acompanhar a D. Miguel até Évora, onde, em 26 de Maio de 1826, assistiu à sua rendição pela Convenção de Évora-Monte e tomou conhecimento do seu imposto exílio para Génova, para onde embarcou no navio Stag na tarde de 1 de Junho seguinte.
D. Miguel, sem preocupações com os leais servidores que o haviam acompanhado até Génova, decidiu abandonar aquela cidade para, com o apoio papal, passar a viver em Roma.
Constantino, sem trabalho e recursos para sobreviver, passou um dia, esfomeado, por uma rua de Génova onde viria a descobrir a florista M.me Vieillard e, com gestos e algumas palavras, lá conseguiu transmitir que sabia fazer flores e precisava de trabalhar com o que arranjou o seu primeiro emprego civil remunerado.
A florista, estupefacta com a habilidade e requintado gosto com que Constantino demonstrou a sua primeira obra e embasbacada com a facilidade com que trabalhava as penas, depressa viu o artista a quem, augurando-lhe um futuro radioso, pouco depois, ensinou a preparação e mistura das tintas.
E, assim, o nosso Constantino começou a demonstrar a sua arte e tal era a beleza, graça, finura, fantasia e harmonia que transmitia ás suas flores que os seus clientes, só algum tempo depois da primeira observação, conseguiam distinguir as flores artificiais das naturais.

O prazer de fazer flores e a vontade de se tornar um artista consagrado levaram-no a pernoitar pacientemente na oficina descobrindo, em cada dia, novos motivos de combinadas flores e odores que causavam a admiração da sua patroa e clientes.
Depressa contagiou sua patroa e, volvidos seis meses, pediu-lhe para sair e ir para Paris à procura de novos motivos para sentir-se realizado como artista.
A patroa, não sem mágoa em ver partir o artista, recomenda-lhe, em Paris, Mestre Flamet e aconselhou-o a visitar as fábricas de tintas em Turim e Lyon o que de imediato fez.
Em Paris, em 13 de Dezembro 1834, apresentou-se ao dito Mestre que, apercebendo-se de onde vinha, de quem o recomendara – florista de conhecidas e requintadas exigências - depressa concluiu que se trataria de um bom artesão com o que de imediato o admitiu ao seu serviço.
E, assim, no dia seguinte, de malas e mais haveres se transferiu para casa de Mestre Flamet, onde, como aprendiz, passou a trabalhar e viver dormindo no quarto das traseiras da loja.
O patrão, de imediato, distribuiu-lhe o trabalho e indicou ao Sr. Constantin, nome pelo qual passou a ser designado e divulgado, uma mesa para o efeito ao que o nosso herói, com respeitosa licença, pediu dispensa e, em alternativa, do mesmo modo pediu para se sentar no chão, ao meio da oficina, o que constituiu admiração geral.
Mas, sentado no meio da oficina, de pernas cruzadas como se sentia bem, fazia rodopiar os seus poucos instrumentos e, às penas, ora as alisando ora as acariciando, como se amores-perfeitos parecessem, transmitia-lhes aquela inimitável beleza que confundia artistas e clientes.
E tanta foi a beleza, admiração e satisfação de mestre Flamet que, para gáudio de todos, expôs na montra da oficina o primeiro bouquet para que fosse admirado por todos.

Um tenente da Guarda Nacional que por ali passou, impressionado com a beleza e finura do bouquet, mandou reservar o ramo, não obstante o elevado preço pedido, a fim de a Guarda Nacional o oferecer à Rainha Dona Maria Amélia.
Mestre Flamet, impressionado com o destino do bouquet, exclamou para o nosso Constantino: - Se a rainha gostar você tem o futuro assegurado!
Dias depois, nova visita do sargento que levantara o bouquet a fazer nova encomenda de flores e a comunicar ao mestre Flamet que a Rainha mandava felicitações ao mestre Constantin.

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, começou a fazer planos à vida e, sem esquecer que ali seria sempre.
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